Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 31 de julho de 2021

Lendo Paulo Coelho

Publicado em: 24/08/2009

Depois de anos “descendo o malho” em um carinha invisível que faz chover (não me refiro a Manitu, mas ao Paulo Coelho), resolvi encarar o desafio de ler uma obra sua a fim de ver qual é a dele. Eu tive que me dedicar a isso porque várias vezes me acusaram de ser incoerente por minha postura “não li e não gostei”. Pois bem, tomei coragem e li.

Eu não gostei. Aliás, detestei muito mais do que supunha que detestaria. Paulo Coelho não é apenas ruim, ele é ruim abaixo do nível de domínio da língua portuguesa que os Parâmetros Curriculares Nacionais pedem para um aluno que se forma no Ensino Médio. Isto, é claro, teoricamente, porque a maioria dos que se diplomam em nossas eficientes escolas é, na verdade, de analfabetos funcionais. Considerando isso, Paulo Coelho até que está acima da média. Triste da média que está abaixo dele.

Estou estarrecido. Paulo Coelho é muito pior do que jamais imaginei. Ele é uma influência nefasta a todo e qualquer leitor. Talvez tenha causado, sozinho, mais mal à educação nesse país do que o Regime Militar ao longo de vinte e um anos! Ele ser sucesso é uma coisa que não dá para explicar por nenhuma qualidade que seu texto tenha, porque o que ele escreve pode ser considerado totalmente isento disso. Só mesmo o marketing é que pode explicar isso. Só mesmo técnicas de convencimento que abusam da falta de bom senso — e parâmetros — das pessoas simples podem explicar como livros tão ruins vendem. Livros excessivamente ruins são a maior prova de que deve, mesmo, existir quem compre “livro a metro” para enfeite de estante, ou então quem compre livro apenas pela moda, sem ter intenção real de ler.

Paulo Coelho se diz orgulhoso de que seus livros foram, em muitos casos, os primeiros lidos pelos seus leitores. Ninguém ainda pesquisou quantos desses leitores leram mais coisas depois ou quantos desistiram de tentar outra leitura.

O livro que escolhi ler foi “Verônika Decide Morrer”. Detesto livros com títulos piegas, detesto pieguice de um modo geral. Além de ter detestado o livro desde o título, outra razão pela escolha foi que a referida obra estava na moda, até com filme em cartaz nos cinemas.

Fiz uma análise bem básica das seis páginas iniciais de “Verônika Decide Morrer” em três níveis: uso correto da norma culta, construção narrativa e estilo literário. Por “uso correto da norma culta” incluí a pontuação, a ortografia, a semântica e a sintaxe. Por “construção da narrativa” dou a entender a divisão do texto em frases que soam claras e dividem a ação de forma eficaz. E por “estilo literário” eu me refiro à beleza geral do texto aos olhos do leitor. Como estamos falando de um membro da Academia Brasileira de Letras, e não de um iniciante que vem mostrar seu original e pedir conselhos, acredito que não é injusto que eu use de todo o rigor possível, afinal, ele deveria ser meu mestre.

Pelas seis páginas que li (antes de começar a ter náuseas), devo afirmar que o Paulo Coelho possui menos domínio da norma culta que a maioria das pessoas que conheço — ele só tem a insistência de contar histórias compridas. Mas não sabe construir frases coerentes, nem pontuar direito, nem dividir parágrafos, nem organizar a narrativa. E seu texto, por fim, é contado de forma plana e sem graça, em frases de estrutura sempre reta e previsível, com pouco uso de adjetivos, nenhuma linguagem figurada. Em resumo, é um texto primário em linguagem, desconexo quanto à estrutura e insípido quanto ao estilo.

Acredito que ter sido sucesso de forma independente influenciou como PC encara sua literatura. Tal como se tornou fenômeno de vendas sem a ajuda de um revisor, deve ainda hoje prescindir deles, ou até achar-se acima e além deles. Por isso a sua prosa não evolui: continua primária, confusa, mal pontuada, cheia de erros de regência verbal, ortografia, conjugação de verbos, concordância nominal. Essa quantidade de erros só se explica por um baixo grau de domínio da língua, ou vontade deliberada de parecer ignorante para fazer sucesso entre os ignorantes.

Esquecendo os de superfície, poderíamos desculpar em parte os “pequenos” enganos se debaixo dessa camada de grossura houvesse prosa boa. Mas não, não é o caso. Paulo Coelho não sabe coordenar os parágrafos. O assunto é solto, flui à deriva e vai e volta várias vezes porque os parágrafos não tem um desenvolvimento de ideias. A impressão que tenho é de que ele os divide por estética (para evitar que fiquem grandes e intimidem o leitor semiletrado) ou entende os finais de parágrafo como uma espécie de pausa na leitura, tal como muita gente crê que a vírgula seja.

Convenhamos que alguns erros que Paulo Coelho comete só são assim graves porque são frequentes demais. Erros de regência verbal são desculpáveis se ocorrem ocasionalmente, mas ficam simplesmente irritantes se o autor erra a preposição praticamente em todos os verbos transitivos indiretos. Tais coisas são normais em versões iniciais, de forma moderada. Mas se o livro publicado aparece assim é porque obviamente o autor, “humilde”, em respeito ao leitor o brinda com o seu rascunho — ou então porque é mesmo ignorante da regência verbal e, por “humildade”, recusa a revisão.

Há erros de raciocínio, como o uso no passado de advérbios referentes ao presente, e vice-versa, erros de emprego de vocabulário, como “ao invés de” usado no lugar de “em vez de”. Há erros de construção do pensamento, com vírgulas separando sujeito do predicado em frases curtas, tais como: “a geração dos seus pais e de seus avós, ainda frequentava a igreja.”

Resumindo: é absurdo que tal autor seja um sucesso. Só prova que o povo exige muito pouco dos livros que compra. É um absurdo que tal autor seja eleito à Academia de uma língua que não sabe usar. E a partir de hoje eu posso dizer de boca cheia que suspeito da cultura de qualquer pessoa que não ache Paulo Coelho um lixo.

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Assuntos: critica