Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Na Descida da Serra da Vileta

Publicado em: 23/02/2010

Era alta noite e eu estava na estrada, ouvindo uma rádio que oscilava e chiava de interferências, enquanto o carro escavava um túnel na escuridão da serra. Meus pés doíam de acelerar há tantas horas, os pneus roncavam na irregularidade do asfalto e eu me sentia profundamente só.

De repente uma estação estranha interferiu com a rádio comercial: um som eletrônico longo e agudo irritou-me o suficiente para que levasse a mão ao controle para desligar. Tomei um choque ao fazê-lo e levei a mão à boca por instinto. Meu dedo estava amargo e gelado.

Comecei a reduzir, procurando um lugar onde parar. Aquele ruído diferente ficava mais alto a cada metro, e revelava um ritmo e uma série inconstante de padrões. Código morse? Discagem de modem? Vozes em uma língua alienígena? Tudo isso misturado? Ou algo familiar?

Surgiu um mirante à esquerda, logo no começo da perigosa descida da Serra da Vileta. Parei ali, saí do carro e olhei em volta. A lataria parecia fumegar, mas não havia marcas de fogo em parte alguma.

Esfreguei as mãos no rosto, já quase a sair correndo, quando senti uma sensação rouca acima de mim, arrepiando minha nuca. Olhei para as nuvens e vi a forma escura e circular descendo lentamente, sem fazer barulho. Tive de achar graça.

O disco estacionou no mirante e ela desceu, envolta em roupas prateadas e escarlates.

— Você está piorando de vida, querido. Esse veículo é mais antigo do que o outro.

Sorri, resignado:

— É difícil subir na vida quando você ocasionalmente some por dias e perde um carro novo na estrada. Esse pelo menos não atrai ladrão.

— Tudo bem, vai lá. Afinal isso não é um sequestro, é uma abdução.

Então ela abriu as portas do Veículo e eu entrei quase aos pulos, num misto de excitação infantil e sensualidade.

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