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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

O Sono do Ateu

Publicado em: 26/02/2010

Às vezes as pessoas me perguntam como consigo dormir em paz. Não compreendem que eu possa ser feliz sem conviver com o mesmo medo seu. Eu só lhes respondo que sei dormir tranquilamente, na verdade sou eu que não entendo como podem dormir à noite certas pessoas que dizem que encontraram sua paz.

Lhes digo que durmo pacificamente porque tenho limpa a consciência de que não fui o culpado por nem um sofrimento infligido propositalmente a um semelhante meu, ainda que possa ter sido causador de lágrimas quando, involuntariamente, divergi, combati ou disse “não”.

Eu durmo sem pesares ou arrependimentos porque hoje não cometi nenhuma injustiça, tolice ou violência. Principalmente porque se, por fraqueza, eu cometi um destes erros, não me escondi atrás de desculpas vazias ou preconceitos em vez de tentar repará-los.

Posso me dar ao luxo de um sono leve porque cada coisa que possuo foi adquirida com o meu trabalho ou com o meu merecimento. Não precisei mentir, enganar, prejudicar ou intimidar ninguém para chegar onde estou. Me deito com a mente sadia porque hoje não menti, não adulei, não ofendi, não traí, não trafiquei.

Consegui o milagre de vencer mais um dia conservando-me sincero e não me entreguei ao vício, ao desperdício ou à insensatez. Talvez hoje eu não tenha conseguido fazer algo que diretamente ajude um próximo, mas eu trabalho para fazer deste mundo um lar melhor para todos nós e a consequência de meus atos é sempre purificadora: Eu conserto, não danifico. Eu faço, não ponho obstáculos. Eu construo, não inutilizo. Eu mostro, não escondo. Eu ajudo, não manipulo.

Durmo sem lamentos porque sei que cada coisa que perdi deixou de ser minha por fruto dos azares da vida e não de minha irresponsabilidade, imprevidência ou loucura. E nenhum de meus bens me pesa porque possuo apenas aqueles que consigo usar.

Eu me deito tão leve como me levantei porque sou responsável apenas por meus acertos e erros (embora isto já seja responsabilidade demais para um só). Há pessoas que se humilham assumindo a culpa de todas as gerações passadas e futuras, mesmo sabendo que não se tornam melhores por causa disso. Eu, porém, creio que sou o único responsável por mim mesmo diante do maior dos juízes, o futuro, e do mais rigoroso dos júris, o mundo, e a pena ou recompensa que obtiver recairão sobre minha própria vida e a de meus filhos.

Posso dizer que me sinto imensamente realizado porque só convivo com pessoas a quem amo e procuro evitar atritos com as pessoas que me fizeram desistir de amá-las. Cada vez que faço uma amizade meu único objetivo é ser mais feliz com um amigo a mais e permitir que ele também tenha esta felicidade.

A consequência mais importante de tudo isto é que reúno todas as condições para tornar-me um sucesso. Só é necessário que eu trabalhe honestamente e com perseverança. Tenho consciência de que sou digno de respeito, por isto eu me respeito e não deixo que a incompreensão alheia me faça infeliz. Tenho consciência de que sou digno de ser amado, por isto eu amo e não deixo que os desentendimentos e desilusões me amargurem. Porque o maior atingido por minha amargura serei sempre eu mesmo.

Posso dizer que não preciso de fé porque todas as coisas que me fazem ser o que sou são realidades que vivi e não fábulas que me contaram. E todas estas coisas que eu percebo através de meus sentidos me ajudam a mudar a cada dia para adaptar-me aos tempos. E o meu exemplo convida as pessoas a quem amo a seguirem comigo por esta aventura linda e terrível que é a vida verdadeira neste mundo azul-e-cinza.

Arquivado em: cronicas
Assuntos: filosofia