Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

’Tá Dominado, ’Tá Tudo Dominado!

Publicado em: 08/09/2010

Em 2003 já era difícil ter paz sonora neste mundo em que o ruído supre a carência de atenção do indivíduo face à indiferença de uma sociedade numerosa e apática. Sete anos depois, mesmo o horrendo sucesso «musical» tendo sido esquecido, as ideias e os sentimentos continuam atuais como nunca:

O meu vizinho de frente comprou um toca-discos. Seria um acontecimento banal se hoje em dia este simples eletroeletrônico não se tivesse transformado num equipamento perigoso que pode ser usado para o mal. E infelizmente a potência do aparelho é inversamente proporcional à cultura e à educação do proprietário.

Não o vi chegar, por isso assustei-me quando ouvi aqueles ruídos e batidas que faziam fundo à voz amarfanhada de alguém que declarava sem misericórdia que eu estava dominado, que todos estávamos dominados!

A princípio pensei que havíamos sido invadidos, quem sabe por alguma raça de bárbaros, por dominadores marcianos ou mercenários ianques. Ou então que o crime organizado resolvera, enfim, substituir o confuso e obsoleto poder público. Após o susto inicial, reuni coragem e cheguei a janela. Meu vizinho, juntamente com alguns amigos estava sentado à calçada enquanto um toca-discos reluzindo de novo se exibia de dentro de sua sala para a rua vociferando ameaçadoramente em centenas ou milhares de watts P.M.P.O.

Por horas a mesma música se revezou consigo mesma na preferência daqueles rapazes, atritando com a minha sensibilidade até o limite extremo. Eram já sete e meia da noite de sábado e eu não suportava mais que gritassem que eu estava dominado porque me considero um sujeito indomável, ou sonho sê-lo.

Saí então de casa, como se for à rua fosse uma atitude capaz de contornar o intolerável da situação, já que não era plausível ir até o vizinho e pedir-lhe a fineza de ouvir a sua “música” em volume urbanamente aceitável porque hoje em dia as pessoas não são mais razoáveis, parece que se tornaram incapazes de compreender qualquer coisa que lhes diminua o terreno e um pedido dessa natureza poderia ser respondido com grosseria, com uma agressão ou com um recrudescimento do já insuportável volume.

Minha única possibilidade de não ser dominado seria ter força suficiente para derrotá-los a todos em uma luta corporal e destruir o demoníaco instrumento de ódio que me impedia de gozar do ócio de sábado dentro de minha própria casa. Claro que eu também poderia fugir, e foi o que tive de fazer.

Eram cerca de oito horas e trinta minutos quando cheguei ao centro da cidade, andando, é claro, sem a mais tênue sombra de pressa. No meio da avenida encontrei um amigo e nos sentamos para tomar umas cervejinhas em um barzinho sossegado ao som da boa e velha MPB, que anda ganhando mofo e perdendo qualidade a cada novo fenômeno não descoberto que faz concurso público em vez de gravar outro disco. Mas a companhia foi somente por uma cerveja, pois meu amigo era casado recente e sua esposa não aceitaria facilmente que permanecesse pelas ruas até altas horas sozinho no sábado.

Fomos juntos até a esquina, onde nos despedimos e voltei a andar a esmo pela rua, buscando distração e companhia. Minutos depois estava no centro nervoso da noite cataguasense e não estava bem. Perambular pelas ruas à noite perdeu o sentido: em vez de ser divertido, tornou-se um desprazer perigoso. Ao virar uma esquina dei de frente com três rapazes enrolando um «baseado». Fingi que não vi — mas vi — e continuei andando para não chamar a atenção. Na esquina meninas precoces contavam aventuras sexuais em alta voz para quem quiser ouvir. Um grupo de bêbados dizia vulgaridades a mulheres vulgares que passavam desfilando carne e produtos de beleza enrolados em tecidos da moda. Ambos os lados obedeciam ao script da moda: o fino é ser grosso.

Carros passavam desobedecendo as mais elementares leis de trânsitom roncando motores turbinados e executando sons tribais em alto volume, em suas cavernosas equipagens de som. Animais no cio passavam neles, batendo a mão do lado de fora e urrando. Garrafas de cerveja voaram pelo ar no meio de uma briga e uma clareira se abriu na selva para dois símios se digladiarem usando garrafas quebradas como clavas. A chegada da polícia foi recebida com vaias, que resultaram em golpes de cassetete que fizeram os corajosos brigões caírem de quatro (mesmo com o risco de não conseguirem mais levantar). Bastou uma breve demonstram de poder para os heróis chamarem os polícias de «doutor», na subserviência conveniente dos que já assimilaram o tipo marginal: sabem-se culpados.

A polícia foi embora levando para um passeio ao xadrez os brigões. Um pouco mais tarde seus ricos pais os tiram de lá, devidamente humilhando os soldados que cumpriram seu dever. E o mundo segue com seus ruídos.

Depois da passagem da viatura o agito foi voltando aos poucos, até atingir de novo o nível extremo de antes. É preciso isso. Somente o barulho pode expressar a alma de uma juventude que não consegue ouvir o próprio coração, imerso nesse poço de mediocridade e insensatez. É preciso fazer barulho, muito barulho. Sem barulho não se existe, sem sufocar a voz alheia não se atrai a atenção, sem animalizar-se não há socialização.

Na música animalesca (não mais tribal, mas realmente animalesca), raiva, acasalamento e auto-realização oral. Ao fundo repica a batida insolentemente pré-fabricada que dá cobertura à boçalidade de alguém que decreta a perdição: «’Tá dominado! ’Tá tudo dominado!» Não há mais esperança: eles venceram. Está tudo dominado pela mediocridade. Resta-nos o conformismo ou o suicídio.

Sem conseguir encontrar ninguém conhecido e mais uma vez sozinho na floresta perigosa da noite, não tenho remédio senão voltar para casa cedo. Pelo menos nos bairros os ruídos insuportáveis são proibidos após às dez horas da noite, assim posso estar seguro contra a dominação se ficar escondidinho dentro de casa. Sem sequer a curiosidade de olhar o mundo por uma greta.

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