Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

No Pomar, Entre Pés de Laranja

Publicado em: 21/09/2010
Nisto que chamam mudez
escondi meu cemitério,
é nos signos antigos que ficam
velhos pecados guardados.

Não há porque pecar de novo,
as velhas festas se foram
e os desejos não ardem mais.

Não há porque tentar de novo
com palavras provisórias
porque não têm o peso de antes.

A velocidade não me seduz,
todo esse ruído é intragável,
espero é que caia chuva
no pomar, entre pés de laranja,
para que frutifiquem as flores.

Existe beleza nas gotas
e seu terno ruído contado,
nisto a semente de uma certeza,
os ruídos gotejam as horas
e minha vida escorre nelas
até empoçar na mudez.

Nisto há somente a espera
porque me planto à beira da água
com esperanças de que algo venha,
venha a dama que eu venero,
a dama que não existe.

Que venha a dama de verde
nadando na tarde dura,
com seu vestido triste.

Em suas mãos deixarei alguns medos
e depositarei meu beijo em seu busto.
Depois eu vou esquecer de tudo
com ela andando debaixo da chuva
no pomar, entre pés de laranja,
cada vez mais perto do muro.
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