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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

O Tratamento Homeopático da Solidão

Publicado em: 15/01/2011

Comecei tendo os primeiros sintomas quando era ainda estudante. Vivia longe da família numa cidade distante e demorei a me enturmar com os meus colegas da faculdade: eles zombavam de meu dialeto, me chamavam de caipira e não compreendiam os meus valores. Isto me afastava das festas das repúblicas e progressivamente me empurrou para longe da vida social: aluguei um apartamento no centro da cidade e tinha um emprego de meia jornada.

Posteriormente me formei e o meu chefe me ofereceu o emprego em tempo integral, com um aumento de três vezes no salário. Fiquei na cidade e todos os meus antigos colegas voltaram para suas casas distantes, entre eles a única namorada que tive durante cinco anos de estudos. Meus pais continuaram vivendo em Santa Rita do Sul, a duzentos e vinte quilômetros de distância. Tentei várias vezes retornar, mas nunca consegui perto de casa um emprego que me pagasse bem. Era 1999 e eu ganhava 920 reais por mês, administrando a contabilidade da empresa.

Nos fins de semana os estudantes sempre iam embora, deixando a cidade vazia como um cenário de filme. Eu sentava na escadaria do adro da igreja no sábado à tarde, com um lanchinho posto em forma de piquenique. Lá do alto do morro eu me sentia isolado, desconectado, como se a Matriz existisse em outro universo. Quando passava algum carro lá embaixo, na rua, eu quase nem o ouvia: o calçamento de pedregulhos fazia os motoristas acelerarem pouco, não chegando a romper a calmaria.

Não havia nada no sábado à noite, a não ser os bailes da Terceira Idade. A cidade não tinha rádio, não tinha discoteca, não tinha nenhum movimento noturno. Tinha uma infinidade de casas que sediavam repúblicas, casas que ficavam vazias como mausoléus quando chegava o fim de semana. Os colegas de trabalho eram quase todos vinte anos mais velhos que eu, ou garotos que viviam em cidades próximas e voltavam de ônibus para casa no final da manhã de sábado. Sṍ eu ficava, vagando pela cidade como uma alma penada no cemitério.

Quando finalmente comprei o carro e consegui aprender a dirigir, já havia me acostumado tanto com a solidão que tinha dificuldade para saber aonde ir. Dirigia até o trevo na saída da cidade, estacionava em um terreno baldio e olhava, intimidado, para os destinos múltiplos, para as placas verdes que indicavam lugares distantes. Tinha medo da estrada, medo do trevo, medo da vida.

Demorou muito tempo, porém, para que eu percebesse que estava doente. Inicialmente pensei que tinha algum tipo de problema do espírito e somente depois do fracasso da fé entendi que não era nada disso. Mas continuava sozinho.

Havia alguma coisa errada comigo, isso eu sabia. Alguma coisa de muito errada, alguma coisa que me afastava das pessoas, que me podava o caminho da felicidade. Mas em vez de reagir a isso me trancava, eu comprava cortinas escuras para as janelas, instalava filme escuro nos vidros do carro, mandava porem cortiça nos batentes das portas para isolar os ruídos de fora.

Conheci o Doutor Aristides no clube. Eu tinha comprado uma quota, mesmo sabendo que lá só encontraria senectude e solidões. Ia lá para nadar quando a piscina estava mais vazia e para fazer sauna. Mas o Doutor Aristides era diferente. Tinha uma jovialidade estranha para os seus setenta anos de idade, mesmo sem pintar os cabelos. Sua fala era firme como a de um locutor, seus dedos manuseavam o baralho com a segurança de um mágico. Tinha sido médico da Marinha por muitos anos e se acostumara a tratar todo tipo de “esquisitices”.

Não sei como ele percebeu meu problema, que eu procurava muito esconder, mas ele era um psicólogo, certamente teria um faro apurado para detectar pessoas como eu. Então me conviou ao seu consultório um dia, dizendo que podia me ajudar. Da primeira vez recusei o convite, mas ele insistiu até eu amolecer minhas defesas e concordar:

— Não lhe prometo cura total e nem instantânea, no entanto — ele disse. Sou um “psicólogo homeopata”, uma categoria nova que ainda está por ser criada. Eu só trato de pacientes que querem se curar.

— Não faria mais sentido tratar dos que “precisam” de cura?

— Ninguém “precisa” de cura por si mesmo. A doença que eu trato é o desejo de se curar.

Isso me lembrou vagamente algum princípio budista, e deve ter sido o argumento que me atraiu ao consultório. Lá ele me disse:

— Eu poderia receitar-lhe química maravilhosa, que interferiria com o seu cérebro e o faria sorrir. Mas eu não consigo enxergar dentro dos sorrisos das pessoas que usam essas substâncias, não sei se estou realmente lhes fazendo bem ou prendendo suas almas dentro de cercas brancas que parecem sorrisos, só parecem. Por isso estou desenvolvendo um novo tratamento, que estou chamando de “psicologia homeopática”. Claro que não é um tratamento aceito ou recomendado pelo CRP, mas posso me dar ao luxo de fazer estas extravagâncias agora, na minha idade. Estou aposentado e nada mais tenho a perder no mundo, se resolverem me cassar esta carteirinha preta com essa bela letra grega em dourado. Tenho bastante dinheiro para ser louco e tenho bastante loucos dispostos a tudo para salvar-se de seus demônios.

— Estou louco, doutor?

— Todos estamos, meu amigo — ele dizia. A ideia não é ficar são, é ser feliz sem ser incomodado. O psicólogo não está aí para determinar como você deve ser, mas como você evita problemas com o mundo por ser como é. O resto, você decide se ser como é lhe está fazendo feliz, ou se deve mudar. Não lhe cobrarei pelas consultas, já cobrei muito ao longo da vida, mas não estou fazendo por caridade, entenda-me. A não ser comigo mesmo. Eu já estou velho e quase não tenho pacientes, mas gosto de clinicar.

Demorou muito tempo até eu entender o que o Doutor Aristides quisera dizer com esta observação.

O tratamento que ele propunha se baseava nos princípios de Hahnemann: simila similibus curantur.

— Para tratar-se de teu mal, o que precisas é de pequenas doses controladas deste próprio mal. Assim como amor com amor se cura, solidão se curará com solidão.

— De que forma eu posso ter doses controladas de solidão? Será que já não tenho o suficiente?

— Uma das coisas curiosas a respeito dos solitários é que frequentemente são interrompidos naquilo que fazem em suas horas de solidão. Desta forma, mesmo não tendo companhia real, não conseguem usufruir plenamente da solidão. Então é preciso que desenvolva métodos e rituais que lhe assegurem que os seus momentos de solidão sejam completos e profundos. Que não sejam interrompidos por um imbecil cobrando-lhe a conta do condomínio ou por um boçal tocando música em uma festinha de aniversário.

Por isso eu gostava de fazer piquenique no adro da igreja: ali estava imerso em meus próprios pensamentos e ninguém aparecia para interromper!

— Mas, Doutor. Não há o risco de continuar sozinho o tempo todo?

— Sim, claro. Como ia dizendo. A falta de fruição completa da solidão nos momentos que deveriam ser-lhe dedicados faz com que o indivíduo acabe tendo vontade de estar só nos momentos em que deveria buscar companhia. É mais ou menos como a fome que se tem durante a tarde quando o almoço é insuficiente. Mas você não deve comer entre as refeições, porque isso o tornaria gordo e lerdo com o passar do tempo. Da mesma forma, procurar ficar sozinho em outros momentos em que não deveria estar, fará com que se torne arredio e socialmente inapto.

— Entendi, ou acho que entendi. Em que consiste o tratamento, Doutor? O que devo fazer?

— Basicamente em duas coisas: assegurar a solidão perfeita e satisfatória nos momentos em que for necessário que o indivíduo esteja sozinho e, por outro lado, procurar impedir totalmente que a solidão se manifeste em todos os demais momentos de sua vida. Acredito que se conseguirmos um grau elevado de preservação destes dois momentos distintos, isolando-os entre si, a doença da solidão pode ser controlada ou, talvez, até mesmo curada. Estou iniciando o cadastramento de um grupo de voluntários para submetê-los a este tratamento que concebi. Se desejar participar, eis meu cartão.

Ao sair do consultório eu me dei conta de que o processo teria de ser longo. Por quanto tempo ele aceitaria me tratar sem pagamento?

— Não tenho dinheiro para um tratamento psicológico longo, Doutor. Ganho bem, mas não tão bem assim. A menos que o senhor tenha convênio com o meu plano de saúde.

— Não diga isso. Eu não lhe cobrarei nada. O senhor é que deveria ser pago por dispor-se a ajudar no progresso da ciência.

Resolvi, no entanto, que tendo o Doutor me dado uma descrição tão completa e funcional de seu método, não era necessário que eu o procurasse: poderia automedicar-me, conduzir eu mesmo o tratamento, obtendo minha melhora sem o constrangimento de ter de frequentar um consultório de psicólogo e enfrentar outras pessoas como eu.

Isto falhou, evidentemente. Como eu pude pensar em me tratar sozinho? Consegui obter a solidão perfeita, isso era muito fácil. Difícil era isolá-la.

Reservei e cronometrei estritamente as horas de minha vida em que deveria passar estritamente só, sem a possibilidade de que me interrompessem. Durante estas horas, segundo o Doutor, deveria mergulhar o mais profundamente possível em meus próprios pensamentos, projetos e ideias, em sonhos frustrados de infância, perspectivas vagas para o futuro. Desenvolver quaisquer fantasias tolas.

Manteria o telefone desligado, a campainha desconectada, as janelas da casa fechadas, as cortinas baixadas e tocaria música instrumental alta, para me isolar dos vizinhos.

Mas não funcionou. Embora tivesse algum sucesso em isolar-me melhor nos momentos de solidão, continuava sendo extremamente difícil impedir que a solidão vazasse para todos os demais momentos de minha vida. Impedir isso se mostrou muito cedo uma coisa impossível, acima das capacidades de um indivíduo.

Por isso, acabei ligando para o Doutor Aristides e comecei na segunda feira seguinte o tratamento. Ele me recebeu sem questionar a demora. Ao lhe indagar a tolerância ele admitiu que a maioria dos convidados nunca aparecia:

— O ser humano parece crer que pode se curar sozinho da solidão. Vivemos uma época individualista, em que cada alma acredita que se ilha para ser feliz, não porque falha. O ser humano contemporâneo crê ser a única boa companhia para si mesmo e se irrita ao ver o outro, porque o outro não é espelho.

Ouvindo isso, tive vergonha de mim mesmo.

Eu já conhecia a essência do método, só não estava a par de sua implementação. Surpreendeu-me a longa sequencia de perguntas que o médico me fez. Quando terminamos todos aqueles testes, aquelas perguntas de livre associação, aqueles cartazes com borrões e outras coisas curiosas; ele me olhou nos olhos e decretou:

— O tratamento para a solidão consiste em um tipo de terapia de grupo. Você precisa descobrir o Outro.

— Algo como os alcoólicos anônimos? Aquela coisa de reuniões em torno de um grande círculo, depois filmes educativos, no final uma prece coletiva etc.?

— Não, absolutamente nada disso. Você não tem um vício, você não é um pecador, você não comete crime algum. Você não precisa de perdão e nem de reedificação. Você é um doente social que precisa de ajuda. Eu chamo essa ajuda de “tratamento”, mas não é você que está sendo tratado, é a sua interação com o mundo. Só que o único tratamento possível é de uma natureza tal que se torna impossível levá-lo adiante sem ajuda. Você não consegue telefonar a alguém sem ter um número para discar, entende?

Ele abriu um armário cheio de caixas de remédios atravessadas por tarjas pretas. Aqueles frascos diabólicos bem poderiam estar estampados com caveiras em vez dos logotipos ameaçadores de laboratórios mágicos localizados em cidades míticas.

— Eu poderia lhe receitar alguns desses. Aliás, pegue os que quiser no caso de querer ter uma viagem, eu lhe receito as doses seguras. Mas eles só lhe trarão ilusões, e prisões.

Afastei-me do armário como se ele contivesse feitiços poderosos.

— Estas substâncias não o curariam, algumas poderiam melhorar momentaneamente a dor; e isso é necessário. Mas nem todo mundo se dá mal com a dor. Há quem goste. Remédios o fariam sorrir, certamente. Elas o fariam perder a vergonha e o fariam sonhar melhor. Todas essas coisas são boas, mas eu não acho bom que todos tomem os mesmos remédios porque isso aí — ele apontou os frascos com o beiço — é como antitérmico para tuberculosos. Você quer ficar sem febre? Pode tomar alguns. Mas a infecção está lá dentro, roendo a sua vida. Quer rir? Este daqui é ótimo — ele exibiu um frasco branco — para isso e para outras coisas mais. Mas de que adianta rir com a boca e com a mente consciente se as causas de sua tristeza estão lá dentro enterradas, prontas para germinar no dia em que a dose falhar ou seu dinheiro para comprar outra caixa tiver acabado? Você quer transformar sua felicidade num comprimido? É por isso que eu não acredito em remédios.

— Então eu não vou tomar remédios, doutor?

— Claro que não. A menos que se sinta mais confortável com a ideia de tomar alguma coisa que cause alguns efeitos colaterais. As pessoas costumam gostar de efeitos colaterais. “É o remédio agindo, você tem que suportar isso para melhorar depois”. Alguns placebos têm efeitos colaterais adicionados para convencer os pacientes de que estão se tratando.

Demos juntos uma boa risada.

— De vez em quando, rapaz, muito de vez em quando, você pode precisar de alguma pílula, economize seu corpo e seu dinheiro para quando for preciso. De vez em quando vai ficar mais difícil enfrentar isso aí — ele indicou a janela e o grande mundo lá fora com o seu queixo pontudo. A principal função dos psiquiatras é dar as doses certas, demarcar o limite entre sonhos felizes e o paciente ficar catatônico e babando. Os psicólogos tentam evitar as duas coisas.

— O senhor tenta evitar sonhos felizes?

— Com o tempo você vai descobrir a razão.

— Do jeito que o senhor fala, até parece que algum dia poderá me receitar um ácido.

— E por que não? Veneno por veneno… Eu já estou velho demais para acreditar em poções, meu filho. Se te faz bem, então tome uma dose segura depois de contratar alguém para limpar a bosta que vai cagar na calça durante a viagem…

— Então, qual é o passo seguinte?

— É neste ponto que o método de tratamento passa a precisar da cooperação de todos os que estão se tratando, e do próprio terapeuta. Você precisa encontrar compromissos, mesmo que fúteis, para impedir que a solidão esteja presente nos outros momentos de sua vida. Da mesma forma como durante um tratamento haverá momentos em que você está “tomando o remédio” e outros nos quais você “não está tomando o remédio”; e estes segundos são a maioria. Assim, você deverá “estar sozinho” durante certo tempo, mas não poderá estar sozinho durante o resto do tempo ou estaria tomando o remédio o tempo todo.

— O que me levaria a uma overdose?

— Não, meu amigo. Overdose é um termo alopático. Ele não se aplica nesse caso. Na verdade, quanto mais remédio você tomar para o seu mal, menor será o efeito. Se você permitir que a solidão esteja presente em todos os momentos, mesmo que marginalmente, então você nunca se curará. É preciso, em vez disso, reduzir a dose do remédio de forma progressiva até que ela se torne infinitesimal. Somente assim ele se tornará tão potente que eliminará a doença de sua vida.

Tendo feito estas observações, ele me apresentou ao programa de tratamento. Os demais pacientes, quinze ao todo, eram um grupo aleatório de pessoas da cidade. Alguns nascidos lá, a maioria pessoas vindas de fora. Pessoas de todas as idades, mas a maioria residindo na casa mística dos trinta. Meu grupo começaria comigo e outros seis.

Maria Helena Fontes era uma dessas matriarcas do interior que apreciam casa cheia de netos aos domingos e muitos parentes que vêm de longe com histórias. Infelizmente ficara viúva cedo e perdera seu único filho em um acidente de automóvel, quinze anos antes. Não se casara de novo porque não conseguia se recuperar do amor imenso que tivera pelo marido, cujas fotos ainda enchiam a casa. De qualquer forma, já estava entrando nos quarenta quando da viuvez. A nora se casara de novo e fora embora da cidade. Filha única, a família do marido se afastara dela, a própria família morria aos poucos, deixando-a sozinha em uma casa enorme, cuja criadagem ela já não podia pagar.

Isabel era professora de educação artística em uma escola pública. Era bonita, embora o viço já lhe tivesse abandonado. Vivia sozinha em uma casinha herdada do pai, cercada por um jardim e por uma horta, cultivados ambos por suas mãos que viviam calejadas, sujas de esterco e também da tinta dos quadros que ela insistia em pintar, embora ninguém comprasse.

Aderbal era um comerciante detestado pelos seus empregados devido a muitos erros cometidos no passado. A mulher o abandonara por causa de uma crise de ciúmes que lhe custara dois dentes. Aderbal vivia sob constante supervisão da polícia e o efeito de vários medicamentos de tarja preta. Seus filhos não o visitavam.

Artur era empregado de uma loja de material de construção. Era pequeno, feio e dentuço, embora dono de voz afinada e de um raro talento com o violão. Infelizmente, voz e violão não importam mais neste mundo que precisa de belos rostos: na cidade grande, o máximo que lhe propuseram como carreira artística fora emprestar talento para um rosto adequado, em troca de um salário que seria uma percentagem pequena dos ganhos. Reagira indignado e abortara a carreira. Agora vendia material de construção e cantava em bares nos fins de semana, basicamente a troco de cerveja. Ganhava pouco e vivia em um apartamento pequeno, de quarto e sala.

Dagmar era enfermeira no Hospital Municipal. Anda sempre maquiada e com as unhas impecáveis, mas nunca sorria. Na cidade tinha a fama de ser sádica, do tipo que fazia questão que a injeção sempre doesse, que o ponto da cirurgia sempre ficasse um pouquinho mais apertado que o necessário ou que o tapa nas nádegas do recém-nascida fosse um pouco mais forte. Colara grau em uma época em que mulher com diploma ainda era um bicho esquisito no interior. Nunca namorara e provavelmente era virgem aos quarenta e sete anos.

Julieta era uma adolescente gorda e que usava maquiagem pesada. Vestia-se pesadamente, tudo nela passava a impressão de peso, de morte, de tristeza. Comia compulsivamente e sentia-se imensamente feia, baleia. Não tinha amigos, não tinha namorado. Seus pais a mandavam de um médico para outro, de um regime para outro. Queriam pagar-lhe uma cara cirurgia em São Paulo. Não suportavam mais, queriam consertar a filha gorda a qualquer preço. Mas ela sempre passava em casa as noites solitárias de sábado, as horríveis manhãs de domingo, cada horrível dia da semana, especialmente os de escola.

Eles foram os primeiros que eu conheci: depois foram vindo outros, saindo outros.

— Vocês devem organizar-se de forma a suprimir a solidão da vida dos demais nos momentos em que eles não estejam se tratando. Mas apenas nesses momentos. Devem organizar-se de forma que cada um esteja longe dos demais durante certas horas, mas ao mesmo tempo esteja com alguém no resto do tempo, para limitar a aplicação do tratamento aos momentos designados. Como vão fazer isso é irrelevante, mas o importante é limitar a dose.

Organizamo-nos de diversas maneiras. A senhora Fontes fazia bolos e nos convidava para tomar o café da manhã de domingo em sua casa. O Aderbal tinha uma chácara onde organizava churrascos de sábado à beira da piscina. O Artur nos convidava para estudar com ele para o concurso dos correios. A Isabel nos levava às suas aulas de pintura no campo. Julieta trazia discos de rock para a gente ouvir e queria saber se algum de nós conhecia aqueles grupos estranhos que haviam sido sucesso antes de ela nascer.

Assim cada um ajudava aos demais no difícil controle da solidão.

Difícil porque, mesmo em companhia, havia momentos em que a solidão tentava se inserir, como uma cunha, o que poderia destruir a eficácia da aplicação. Era preciso então que alguém se aproximasse e interrompesse a reflexão solitária do paciente que se estivesse desgarrando. Manter a solidão sob controle, limitada aos momentos em que deveria ser parte do tratamento, acabava uma tarefa tão complexa que nossas vidas começaram a girar em torno disso.

Ao sair do trabalho, sempre que ninguém me ligasse, eu me sentia compelido a ligar e perguntar onde cada um estava e o que pensava em fazer. Maria Helena ensinou Julieta a costurar e ela começou a fazer artesanato. Aderbal redescobriu um antigo talento para pintar. Eu ensinei Dagmar a fazer a sua declaração de Imposto de Renda e Aderbal ajudou Artur a aprender defesa pessoal.

Éramos um grupo pequeno e difuso, formado por pessoas de temperamentos díspares e histórias de vida que vinham e iam por estradas que nunca ou raramente se encontrariam de outro modo. Mas todos éramos solitários, cobaias do revolucionário tratamento homeopático proposto pelo Doutor Aristides. E por sermos parte daquilo de forma que se tornava cada vez mais obrigatória, acabamos convivendo à força uns com os outros, criando vínculos de amizade ou de afeto que gradualmente incluíram todos os demais envolvidos no tratamento.

O tratamento inteiro durou oito meses para mim. Durante este tempo presenciei várias pessoas que se disseram curadas e vários pacientes que chegaram, em momentos distintos. Também houve alguns abandonaram por razões de força maior, como o Artur, que passou no concurso e foi embora, levando sua solidão ainda. Ou a Dagmar, que se matou devido ao pensamento fixo de que o tratamento não adiantaria. Foi uma grande perda. Ela ainda era bonita, acredito que o Aderbal gostava dela. Talvez tivessem ficado juntos se a vida fosse uma novela. A maioria, porém, melhorou ou permaneceu em tratamento depois que eu saí.

A minha saída, aliás, foi gradual. Acredito que lá pelo quinto mês eu já estava “saindo” sem perceber. Foi preciso que o Doutor Aristides me fizesse ver que eu já estava fora. Nas primeiras semanas do tratamento havia pouca mudança, mas depois a mudança acontecia depressa, e eu nem percebia.

A cura aconteceu, para mim, de uma forma aleatória. O Doutor Aristides me telefonou no fim de semana. Eu estava na praia, em companhia da Eva, minha namorada.

— Meus parabéns, você está estabilizado. Gostaria que viesse ao meu consultório durante a próxima semana para termos uma última conversa.

Ao ouvir isso eu me dei conta, em um relâmpago de instante, que nos meses anteriores eu tinha feito muitas coisas que nunca fizera antes: aprendera a cumprimentar as pessoas pelas ruas; começara a assistir futebol no Bar do Zé, bebendo cerveja com pessoas aleatórias e fazendo amigos momentâneos que nem sempre revia; guardei os nomes de dezenas de pessoas com que interagia; e nunca mais me sentara sozinho no adro da igreja porque não restava tempo para a solidão: há três meses Eva me invadira a vida por culpa de um descuido meu e agora eu a amava.

Apareci no consultório tão logo voltei. Logo ao entrar fiz a pergunta obrigatória:

— Estabilizado ou curado?

— Prefiro dizer que está “estabilizado”. Solidão não é doença, apenas um sofrimento social, e não existe cura. Mas tenho analisado a sua progressão e posso dizer que já não precisa do tratamento intensivo. Estou lhe dando alta do grupo de trabalho.

Foi como se removessem o chão sob meus pés.

— Por que diz isso? Como assim? Eu não vou mais participar do grupo? E os amigos que fiz ali?

— Calma, rapaz. Examine a sua própria vida e entenderá. Isso não é uma punição.

— Mas eu ainda me sinto tão só às vezes.

— Sempre se sentirá. “Sentir-se só” é uma coisa que acontece com os seres humanos de vez em quando. “Sentir-se triste” também. Não existe nenhum pecado nisso, não é crime isso.

— Quer dizer que voltarei a me sentir mal?

— Claro que sim, e muitas vezes. A vida tem dessas coisas: dias bons e dias ruins. As pessoas às vezes se esquecem disso porque nós vivemos em um mundo que parece querer que todos estejam rindo o tempo todo, que todos estejam permanentemente prontos para o sexo, festejando a vida maravilhosa. Mas isso é ilusão, nós dois sabemos que esse mundo é uma merda, que todas as pessoas têm seus dias tortos e que é uma sorte quando o seu santo e o da sua mulher estão em sintonia para uma boa trepada.

— É meio frustrante sair do tratamento assim.

— Exatamente por isso que você precisa sair.

— Hem?

— Uma premissa do tratamento homeopático, mesmo desse tipo estranho de “homeopatia psicológica” que ando praticando, é que o remédio só funciona enquanto há uma causa a se tratar. A partir do momento em que a causa deixa de existir, o remédio passa a ser a causa. Sua frustração é resultado de sua participação no grupo de terapia, tal como você participa agora, e não de deixá-lo. Desapegue-se, garoto. Bata suas asas e viva sua vida. Aquilo lá não é mais para você.

— Mas… e os meus amigos?

— Caso não tenha notado, a maioria dos amigos que fez já saíram do grupo. Procure-os. Você não está preso ao grupo, mas não está proibido de ter amigos. Aliás, se estivesse, haveria um grande problema em estar envolvido com uma participante…

Naquele instante eu me dei conta do quanto fora eficaz o tratamento. A convivência com todas aquelas pessoas diferentes me apresentara a figuras paternais, como a Senhora Fontes ou o próprio doutor, a amigos de verdade, como o Aderbal, uma espécie de afilhada, como a Julieta e até uma namorada, a Eva, com quem planejava me casar.

— O objetivo do tratamento — disse-me o doutor indicando-me a saída — não é torná-lo feliz porque isso é impossível nesse mundo. Eu me contendo em tratar a solidão das pessoas. Acredito que você é mais um de meus casos de sucesso, e sem precisar receitar nada do maldito armário. Mas há um ditado que diz que aquele que não morre como herói vive para ser o vilão de outra história. Então, se o tratamento não parar agora, ele será o motivo de sua maior infelicidade daqui a pouco.

Saí do consultório e deixei o prédio me sentindo como quem acaba de montar um quebra-cabeças de duas mil peças, mas descobriu que a figura não fazia sentido. As palavras do Doutor Aristides eram coerentes, mas eu as ouvia como se elas fossem de madeira. Elas faziam ruído em meus ouvidos e não entravam em minha cabeça. Eu só conseguia continuar me perguntando de que forma o Doutor Aristides me curara — e como sabia que eu estava envolvido com Eva.

Quando perguntei para Eva, no entanto, ela foi pragmática:

— Você não precisa saber como, querido. Basta aceitar que nós nos curamos.

Um mês e meio depois nos casamos. O Doutor Aristides não aceitou de maneira alguma o meu convite para padrinho de casamento. Na hora da cerimônia, porém, o motivo ficou claro: aparentemente não se chamava Aristides o risonho cavalheiro que entrou na igreja levando Eva pelo braço, envergando um rigoroso uniforme de médico da Marinha.

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