Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 28 de maio de 2021

Pela Eletricidade, Por Amor

Publicado em: 20/02/2011

Este talvez seja o mais mal-entendido de todos os contos que escrevi. Apesar da evidente inspiração, quase pastiche dos contos de Stephen King dos anos 1980, especialmente “Word Processor of the Gods”, os leitores preferem focar na subcultura informática que ele menciona e acabam não curtindo. Mesmo assim eu o incluo aqui, porque acredito que haverá quem consiga enxergar dentro dessa névoa proposital de obscuridade e aprecie a qualidade da história.

Adormeci na frente do computador, sem terminar a monografia. Com o prazo quase esgotado, passara mais de quatro horas digitando como louco a partir de notas desconexas que reunira nos meses de pesquisa, mas em vão. Tanto esforço que minha mente começou a sair de controle e acabei caindo de cara no teclado no meio da madrugada, apesar de todo o café.

Não sei quanto tempo fiquei apagado. Podem ter sido segundos ou horas, porque não estava prestando atenção ao relógio quando dormi. Sei que quando tomei um susto e joguei a cabeça para trás em um gesto brusco, eram 04:12 e fora disparado o maldito alarme de um automóvel que dormia na rua.

Levantei grogue de sono, com a cabeça pesando meia tonelada, e fui tomar um banho antes de ir dormir. O calor não estava mais insuportável, mas eu tinha suado demais. Tomei um banho rápido e frio, dos que gosto quando vou me deitar. Quando voltei do banheiro, pelado e me enxugando na toalha felpuda que cheirava a mofo e a álcool, tomei um susto, que espantou todo sono que ainda pudesse ter.

Tinha deixado o computador ligado. Saíra tão depressa para o banho que não o desligara. O documento da monografia estava aberto no editor de textos e o cursor piscava na tela de fósforo verde. Então notei que o ponto de luz não estava parado à espera do toque seguinte: movia-se rápido pela tela, deixando um rastro de letras e números, mesclados a códigos de formatação LATEX.

Minha primeira reação teria sido — ou deveria ter sido — entrar desastradamente na frente do aparelho e ver que raio era aquilo, mas eu costumava ser um sujeito frio, não o tipo que se apavora e surta. Fiquei parado onde estava, ainda sob o batente da porta, olhando de soslaio para o monitor. Acredito que o computador não me “viu”, pois continuou cuspindo código como se os Digitadores do Inferno estivessem ali. Permaneci observando a cena, tentando decifrar mentalmente a sucessão de códigos que aparecia. Olhei a tomada, na esperança de ver o modem conectado à linha telefônica, mas não. Teria sido fácil admitir como explicação que alguém havia tomado o controle de meu computador doméstico e estava fodendo com a minha pobre monografia, mas não poderia haver acesso remoto se não havia conexão. Ou poderia?

O computador não chegou a notar minha presença. Quando finalmente parou, havia sido digitado \fi e uma sequencia de linhas em branco, como eu tinha por hábito fazer ao terminar os capítulos. Eu não teria notado mudança no código do documento se não tivesse tomado o banho rápido demais.

Sentei-me fingindo que estava tudo bem, dei Control-End e digitei algumas ideias aleatórias do capítulo seguinte. Depois salvei o arquivo no disco rígido, sempre fazendo a cópia de backup no disquete e desliguei aquela máquina do diabo.

Não consegui dormir. Tinha a curiosidade de saber que raio de conteúdo teria sido inserido em meu texto, sabe lá por quem ou que. Poderia ter compilado e impresso o documento, mas teria demorado muitos minutos se houvesse uma matriz. Também o computador poderia desconfiar. Preferi deixar para o dia seguinte e pensar melhor.

Quando amanheceu, desisti de tentar dormir e levei o disquete comigo à universidade. Sentei-me diante de um terminal público na biblioteca e abri o arquivo para analisar, como legítimo “escovador de bits”, embora soubesse pouca programação. Logo achei indícios da patranha.

Ao final do terceiro capítulo, havia um \iffalse\iffalse\fi e pouco antes de onde começaria o seguinte, um \iffalse\fi\fi. Estas enganosas sequências de códigos realizavam algo diferente do que prometiam ao olhar distraído. Tanto o início quanto o fim do código oculto estavam, na verdade, ocultando os comandos de início e fim dos comandos de ocultação, se é que você consegue entender. Talvez esta história maluca só faça sentido para quem manja um pouco de LATEX. Mas digamos que tudo após \iffalse é ignorado, até chegar um \fi. Quem tiver algum talento lógico perceberá a malícia.

O bloco de código não era legível. Era uma sucessão de comandos descrevendo curvas, gráficos, matrizes. Talvez alguém realmente louco de usar LATEX conseguisse o milagre de visualizar a plotagem daquelas fórmulas, mas para mim era como contemplar uma sopa de letrinhas verdes no quadro negro do monitor. Queria logo compilar e descobrir no que dava.

Para isso teria, porém, que ter permissão da bibliotecária, porque os terminais tinham capacidade limitada e a fila de uso era grande. Ela não se opôs, diante da pequena quantidade de alunos que estava na faculdade naquele dia anterior a um feriado prolongado. Fui ao terminal, então, e ordenei: latex mono.tex.

Naquele tempo os computadores podiam levar horas a compilar documentos complexos, como parecia ser o meu. Por isso logo me cansei de ver a dança interminável das letras elétricas que brilhavam verdes como a fosforescência de uma aparição. Fossem quais fossem os erros, não teria mesmo chance de consertar porque não sabia o que continha o misterioso código. Ainda fiquei uns minutos refletindo sobre mensagens de overfull hbox, lamentando a quebra da margem direita, ou underfull vbox, lamentando os parágrafos separados demais; mas logo me levantei e fui à cantina tomar um café.

Não contei os minutos na cantina. Ninguém faz isso, a não ser os que já estão loucos e eu não estava. Voltei com um copo cheio de café preto, para espantar o sono que ficara da noite sem dormir, e biscoitos salgados que controlariam a fome enquanto não pudesse ter uma alimentação saudável na lanchonete mais próxima.

Quando retornei ao saguão da biblioteca, notei uma movimentação estranha em frente ao computador que deixara compilando. Havia uns três ou quatro caras do último período de Sistemas que contemplavam a dança das letras parecendo fascinados.

— Caralho, o que é isso que esse louco fez? Vai fritar os circuitos do terminal antes de compilar! — dizia um deles, risonho e preocupado. Aproximei-me quieto, tentando captar a conversa, mas falavam pouco e olhavam muito.

— A Alana precisa ver isso — finalmente disse um, dirigindo-se à porta em frente, com rapidez de elfo. Pigarreei para anunciar minha presença e os outros olharam com respeito inesperado. Os caras de Sistemas não têm o hábito de olhar com essa expressão quem não é de sua própria estirpe.

— Isto aqui é seu? — perguntou um deles, um grandalhão de cabelos ressecados e de cor de cenoura.

— É sim, por que?

— Como pode alguém de Matemática ser besta de programar um loop num documento LATEX?

— Um loop? Merda!

— Eu não sei de nada, a gente estava passando, viu o computador compilando sozinho e resolvemos olhar o código, para tentar adivinhar o que é. Foi aí que notamos o código em loop. O que você estava querendo fazer?

Meus olhos percorreram o cabeamento da sala, notando para meu imenso espanto que aquele terminal, sim, estava conectado.

— Contaram quantos loops ele deu? — perguntei, já me sentando.

— Uns dez ou doze nesse meio tempo em que estamos aqui.

— Dez ou doze, hem? Que diabo será isso?

— Você não sabe?

Eu tinha vergonha de confessar, mas preferi ser honesto, afinal eu precisava de ajuda para não ter que, humilhantemente, apertar o botão de reset, como um novato. Eu jamais seria encarado com respeito, sequer pelas namoradas dos caras de Sistemas, aquelas garotas de peitos grandes que cursam “Estudos Sociais” e só passam de ano porque são líderes de torcida.

— Não sei. Achei um documento cheio de códigos os mais estranhos e resolvi compilar para ver o que era.

— Caralho, você é maluco? Sabe-se lá se não é código malicioso!

— Não sei se é nocivo, mas malicioso isso tenho certeza que é.

Eles me olharam, sem entender.

— Alguém entende de LATEX?

O outro cara, que tinha ficado quieto esse tempo todo olhando a dança das letras elétricas, acenou com a cabeça e fez o característico “ahã” dos que estão dizendo que sim.

— Devemos deixar compilar ou tentar interromper?

— LATEX não vai fritar os circuitos, a menos que comece a ficar recursivo. É exatamente isso que eu estou tentando entender, se é um loop recursivo ou se é apenas circular. Se for recursivo, você vai ter que desligar no botão de reinício porque vai travar os sistemas de entrada e saída.

Ele tomava notas no seu bloco, em um tipo de taquigrafia pessoal que parecia árabe. Demorou quatro minutos ate finalmente decretar:

— Parece que não é recursivo. Deve haver uma condicional em algum lugar que está fazendo o TEX dar várias passagens no mesmo código. Mas essa condicional pode resultar verdadeira em algum momento, então o loop acaba e o arquivo imprimível é gerado.

Alana chegou. Era a única mulher do último ano de Sistemas, era obcecada com criptografia e lia todo tipo de teoria de conspiração. Não era bonita e nem simpática, mas os caras da turma queriam tê-la por perto, fosse como bicho de estimação ou fonte permanente de análise matemática apurada. Era um legítimo “crânio”, capaz de efetuar cálculos mentalmente com facilidade humilhante. Acima de tudo, tinha a capacidade algo sobrenatural de visualizar gráficos a partir de suas fórmulas. Mais que isso, contribuía sob pseudônimo para vários projetos de programação de várias faculdades, inclusive a nossa. Alana não assinava seu nome em documento algum, a não ser nos testes obrigatórios.

No momento em que ainda estava sendo informada do acontecido, dois pares de peitos loiros surgiram à porta chamando os rapazes de forma que nem Alana e nem eu soubéssemos. Não sei se ela soube, mas tenho a visão periférica muito desenvolvida. Os dois caras se despediram e saíram dizendo que tinham que estudar para uma prova e foram levar as duas a alguma festinha. Alana e eu ficamos olhando a tela onde dançavam infernalmente as letras.

— Você já sabe o que é isso, Alana?

— Ainda não.

— Eu imaginei que…

— Não sou uma máquina, Tony — ela me interrompeu.

Tive vergonha do modo como a tratava. Naquele dia, em que justamente o seu lado maquinal estava sendo usado, ela me jogava na cara que era um ser humano. De certa forma, mesmo eu não a achando bonita, naquele dia eu me sentia ligeiramente atraído. Talvez fosse por notar que as suas orelhas tinham um formato curiosamente harmonioso, suas mãos minúsculas pareciam esculpidas. Era só não olhar para seus dentes que teimavam em querer sair dos lábios ou os óculos pesados, que ela parecia ter roubado de sua avó.

Subitamente as letras mudaram de feição. A dança infernal parou e o monitor começou a cuspir uma série de linhas com nomes de arquivo. Era o fecho da compilação. O loop fora interrompido ao encontrar valor positivo. O prompt de comando apareceu então, desafiando enigmaticamente nossa curiosidade. O cursor piscava como se estivesse rindo de mim. Alana foi rápida. Curvou-se sobre o teclado e recuou a sequência de comandos até identificar o arquivo que eu compilara. Então digitou: more mono.tex

O terminal começou a listar o código, página a página, enquanto ela, ainda curvada, parecia ignorar que eu, olhando por dentro do decote folgado do vestido, contemplava seus dois belos seios, que pareciam as divinas mamas da Vênus de Milo e exalavam um perfume madeirado delicioso. Ela não se interessou nem minimamente pelo meu trabalho, mas quando chegou ao famigerado bloco de código, arregalou os olhos como se tivesse achado um pote de ouro e usou o braço esquerdo para se apoiar no encosto da cadeira, tocando com ele minha nuca, que arrepiou como se estivesse ligado a uma tomada elétrica. Comecei a suar, talvez de sono ou embriaguez do perfume diabólico e da visão daqueles seios miúdos, que pareciam duros como pedras e me imploravam para que os pegasse nas mãos e apertasse gentilmente como botões para abrir uma passagem secreta ao paraíso. Mas quando tentei dizer alguma coisa, acabei dizendo:

— Não prefere se sentar?

Ela ergueu-se, acusando alguma dor nas costas devido à posição, e arrastou uma cadeira. Sentou-se tão perto que todo seu lado esquerdo encostou no meu corpo. Um daqueles seios pontudos cutucava minha axila e minha mente rodopiava sem controle. Queria perder os sentidos rapidamente, antes que ficasse louco e tentasse algo inadequado. Mas não aconteceu nada, porque Alana era rápida com os dedos e com a mente: não demorou a terminar de listar o código. Levantou-se e andou em círculos batendo os saltos pesados dos tamancos nos tacos coloridos do chão da biblioteca enquanto gesticulava e balbuciava multiplicações.

— Acho melhor você não entregar a monografia — disse, por fim.

— Preciso entregar, ou não consigo créditos para passar em trigonometria.

— Tenho um mau pressentimento sobre isso. De onde disse mesmo que saiu esse documento?

Eu não tinha dito nada, mas ela me olhava com a expressão aguda, como se soubesse até as vezes que tinha me masturbado no semestre anterior. Alana intimidava, parecia saber de tudo. Mas não me importava, naquele momento, eu sabia que nenhuma outra mulher do universo teria graça para mim.

— Não sei, nesse exato momento só consigo me lembrar que dormi mal essa noite e preciso sair com você na sexta-feira.

Esta frase a desarmou. Talvez fosse a última coisa que imaginava.

— Sair… comigo? Na sexta-feira?

— No sábado, se preferir.

— Mas por que isso logo agora?

— É a primeira vez que consigo conversar com você a sós.

— Eu… preciso pensar.

— Posso ligar?

— Mas não entregue esse trabalho. Sexta-feira ou sábado eu lhe explico o motivo.

Ela deu o número de seu telefone e saiu apressada da biblioteca, me deixando sozinho com minha obra. Então, aproveitando que o lugar estava vazio, comecei a imprimir o dvi, sem testemunhas.

A impressora matricial deu alguns arrotos e rosnados, antes de finalmente acertar a margem do papel. Então o cabeçote começou a dançar, rabiscando linhas interrompidas que formavam o desenho de letras e gráficos.

Uma página, duas, três, vinte, quarenta, noventa e cinco. Quando a impressão terminou, dobrei com cuidado toda aquela tripa de formulário contínuo e guardei com carinho na maleta e voltei ao meu apartamento no campus.

A primeira coisa que fiz, porém, foi ligar. Sentia-me idiota por estar apaixonado, mas nenhum idiota era tão feliz, e não importava nada mais se ela apenas dissesse que sairia comigo. E ela disse. Mas depois disso, enfatizou:

— Você não deve entregar a monografia.

— Tem alguma ideia do que é aquele código?

— Sim. Os comandos lá codificam instruções vetoriais em PostScript. Alguém inseriu no seu texto um código que “desenha” coisas em uma ou mais páginas.

— “Coisas”, que coisas?

— Não sei. Podem ser gráficos, desenhos, uma fonte, um texto até…

Assim que desliguei o telefone, tratei de cortar e encadernar as noventa e cinco páginas, com todo cuidado para que nenhuma rasgasse. Fixei-as num fichário e comecei a folhear, tentando ver onde haviam sido feitas mudanças. Ao fim do terceiro capítulo começava a coisa. Saltava uma página, no meio da qual haviam osto algo que parecia uma ofensa direta contra mim:

Esta página foi intencionalmente deixada em branco. E as anteriores deveriam ter sido mantidas assim também.

A página seguinte era outra capa, com meu nome, identificação da faculdade, o mesmo título, um subtítulo ligeiramente diferente e um reinício do documento, inclusive numeração, sumário, tudo. Se o tema ainda era «Método de plotagem trigonométrica de órbitas para satélites geoestacionários», o conteúdo quase não tinha a ver. Meu texto ainda estava em grande parte lá, mas entremeado de uma montanha de citações de autores de que nunca ouvira falar e fórmulas de cálculo avançado que eu nem sabia o que eram. Algumas me pareciam referenciar coisas avançadíssimas de física quântica. Várias citações eram em alemão (Schrödinger, Planck, Heidegger, Cantor, Kant), outras em francês (Lamaître, Galois). Autores clássicos eram citados ao lado de outros que talvez fossem novos e pouco conhecidos. Vários trechos não tinham citação, mas fórmulas acompanhadas de ousadas afirmações à banca, do tipo “como se pode provar pelo cálculo a seguir”.

Li todo o trabalho e fiquei embasbacado por não conseguir entender nem metade do que ali estava, muito embora meu estilo de redação estivesse em cada parágrafo. Do pouco que entendi, cheguei à conclusão de que propunha um método através do qual satélites poderiam ser içados a uma órbita, em vez de lançados até ela por um foguete. Os cálculos provariam que a energia necessária a tal sistema seria dezenas de vezes menor, reduzindo o custo do lançamento de satélites a uma fração do então possível, algo revolucionário demais. Eu tinha de entregar a monografia, apesar do alerta de Alana. E o fiz.

Na sexta-feira pela manhã fui buscá-la em seu apartamento. Estava vestida do modo sóbrio de sempre. Trazia apenas bagagem de mão e hesitou em entrar no meu carro. Seus seios pareciam invisíveis naquele vestido. A maioria dos caras da faculdade a chamavam “tábua de carne” por isso. Era difícil crer que uma mulher aparentemente tão reta tivesse seios tão curiosamente belos e harmônicos, e de um formato e consistência tão atraentes.

Almoçamos em um restaurante à beira mar, fomos ao cinema e tomamos cerveja no bar panorâmico do píer; terminando a tarde no meu apartamento, ouvindo Stones e conversando descontraidamente. Não ousei muito coisa. Eu sonhava Alana como se fosse para sempre, e algo que é para sempre não precisa de pressa. Apenas nos beijamos, e nesse beijo senti seus seios contra meu peito e tive a certeza do que queria.

— Alana, pode me achar louco por dizer isso, mas acho que a amo. Acredita em amor à primeira vista?

— Acredito, Tony. Mas amor à primeira vista tem que esperar o mesmo tempo que o amor à décima oitava vista — disse ela, algo cruel, apertando o botão da gola do vestido sem decote que usava.

— Ora, Alana. O que a gente sonha para sempre não precisa começar agora.

Ela riu e me beijou nos lábios, com um tremor na boca que só mais tarde soube ser amor também.

— Por favor, Tony. Leve-me para casa antes que implore para fazer amor com você. Isso não seria bom para nenhum de nós dois agora. Estou me sentindo totalmente frágil e insegura. Não se aproveite de mim.

Os dias seguintes foram de expectativa. Ninguém da Banca Examinadora me contactara ainda, mas eu tinha a estranha sensação de que quando lessem o meu trabalho o meu telefone fatalmente tocaria.

Saí com Alana na sexta-feira seguinte mais uma vez. Não havíamos tido encontro no fim de semana porque ela viajara para visitar os pais, numa distante fazenda nas chatas planícies do Norte. Da segunda vez o encontro se desenvolveu com muito mais fluidez, em parte graças ao traiçoeiro vinho licoroso que lhe servi. Porém, quando ela percebeu que sua cabeça não estava mais tão firme sobre o pescoço, mais uma vez me pediu que a levasse para casa e eu, mais uma vez, me vi moralmente forçado a isso.

Levei-a de volta ao seu apartamento no campus. Àquela hora quase não havia viva alma na universidade. Somente os pobres e que vinham de longe, como nós dois, passávamos os feriados lá. Quando saía, ela me chamou para dizer, depois de jogar um beijo:

— Não entregou aquela monografia, entregou?

Fiquei envergonhado:

— Alana, me perdoe, mas eu a entreguei naquele mesmo dia.

Ela levou as duas mãos à boca, com os olhos totalmente arregalados, e me pediu para entrar. Atirou-me a um sofá e começou a trancar obsessivamente janelas e portas. Depois se atirou sobre mim e quando finalmente percebi o que estava acontecendo já estávamos nus fazendo amor. Ao terminamos, ainda estendidos no tapete macio da sala, tive que perguntar:

— Por que isso, Alana? Não tínhamos que esperar, não havia aquela história de que o que é para sempre não precisa começar hoje.

— Querido, lamento, mas precisava disso. Se não fosse hoje, talvez não fosse nunca. O que vai terminar hoje precisa começar hoje.

Faróis altos brilharam no pátio e um ruído sibilante cortou o ar. Exceto por ele, porém, não havia nenhum outro som em todo o campus. Bateram à porta.

— Oh, querido, lamento muito, muito.

Bateram de novo à porta.

Alana se enrolava no tapete para cobrir sua esguia nudez, enquanto eu tentava me vestir, procurando as peças de roupa espalhadas.

Arrebentaram a porta.

Lá fora uma luz fria e azul oscilava. Entraram homens altos e magros, magros como Alana. Falavam uma língua estranha e eram estranhamente pálidos, como Alana. Senti algo picar o meu peito, olhei e vi um dardo tranquilizante.

Acordei aqui. Você tem que acreditar em mim. Não sei de nada da morte da Alana. Tem que acreditar em mim.

— É difícil, Tony. Muito difícil. Você entregou à Banca Examinadora um bilhete contendo a confissão de que pretendia matá-la, e fez exatamente o que o bilhete dizia. Seu esperma foi encontrado no corpo, suas impressões digitais estão por toda parte, e a polícia o achou lá, ao lado do cadáver ainda quente. O que tem para me convencer de que nada dessa história é verdade?

— Você tem que acreditar em mim, Rick. Os aliens, eles usam a rede elétrica para comunicar-se, alguns são brincalhões e ficam corrompendo arquivos em nossos computadores, ou talvez queiram nos avisar. Alguns estão espionando por aí. Alana era uma espiã, Rick.

— Por isso a matou?

— Não a matei, Rick. Mesmo ela sendo uma deles não a matei porque a amava, porque era a mulher mais interessante que conheci em toda a minha vida, mesmo não sendo deste mundo. Não a matei, foram eles. Mataram-na porque me avisou para não entregar a monografia, mas não me impediu.

— Tudo bem, Tony. Vou ver o que posso fazer. Mas acho que é melhor alegar insanidade. Se não fizer isso, vai encarar o corredor da morte. Alana poderia ser alienígena, mas apareceram dois pais pobres, lá do interior do Canadá, que confiavam no diploma da única filha para seu sustento na velhice. Uma história comovente, Tony. Nenhum jurado desse país terá simpatia por você.

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