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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 28 de maio de 2021

Ismaël

Publicado em: 07/05/2011

“O passado nos condena, Ismaël.” Ainda posso ouvir rasgando minha alma essas palavras proferidas pelo velho, com seu porte de capitão Ahab, como se estivesse à amurada de um velho navio contemplando o mar absoluto, à espera de alguma incompreensível fera. Chamo-me realmente Ismaël, mas ele não se chamava Ahab, e não estávamos embarcados em navio algum, mas perdidos nas montanhas poeirentas do Teto do Mundo, fugitivos da impiedosa inquisição de um inimigo invisível e quase incompreensível. Eu piso o chão destas montanhas, e Ahab pisa a inefável bruma das minhas lembranças.

Eu nasci longe desta terra triste em que estou morrendo. Voei sobre o mar e cruzei desertos e florestas para chegar até aqui e poder ouvir as palavras do velho profeta. Sou parte de um grupo de escolhidos, eu levo a morte estampada na testa, em verde, estou pronto para ela, como um kamikaze nos mares do Oriente. Apenas não sigo imperador algum deste mundo, mas ao supremo Rei cuja forma ninguém verá. Não tínhamos a permissão de chamar o velho, nosso líder, pelo seu verdadeiro nome. Era apenas o “chefe” e entre os voluntários do Oeste, como eu, alguns o chamaram de “Ahab”, em homenagem a outro capitão, este fictício, que também enfrentava o desconhecido de peito aberto, como o velho o fez, mais de uma vez.

Nossa luta deixou marcas na alma e no corpo. Perdemos tantos amigos que nem contamos mais. Preferimos ser amigos apenas de Deus, porque ele não será nunca morto pelo inimigo e nunca deixaremos de contá-lo. Quem tem amigos demais não quer morrer: o herói precisa da mais absoluta solidão. E estamos sozinhos nestas montanhas. Vivi isolado aqui há tantos anos que perdi a noção da realidade. Desde que segui Ahab em seu Pequod imaterial, que singra rumo à glória, eu não leio mais jornais e nem tenho acesso ao rádio. Vivemos como ascetas, buscamos a pureza, esperamos que a morte nos ache prontos. Heróis não têm tempo a perder com a matéria. Suponho que Ahab soubesse mais sobre o inimigo do que nós, mas nos poupava disso. Talvez tivéssemos menos esperança se soubéssemos exatamente contra qual Moby Dick tocaiávamos nas montanhas. Tal como a lendária baleia, o inimigo está além. Não vamos até ele, é ele que nos vem.

Ahab não tinha esperanças, mas um destino. Tal como todos nós, também sabia que morreria cedo. Preparou-se para isso. Temeu isso. Superou o medo e se identificou com a morte. Seu corpo frágil foi precocemente encurvado pelo peso de uma idade que ainda não tinha, mas sua alma nunca se curvou. Mas a sua alma era como um sabre de aço, afiada e luzidia, inatacável pela poeira ou pela umidade, e brilhava sob o sol quando ele nos falava, mesmo quando sua voz saía débil e seus gestos pareciam doídos. De sua boca saíam palavras calmas, confortantes. Quando falava, nós esquecemos que estamos precariamente sobre a terra, tal como o Pequod singrava precariamente as ondas bravas do grande mar. Ahab nos inspirava a dar de nosso sangue para forjar o grande arpão com que trespassaria o coração do inimigo quando ele saltasse sobre nós. O navio seria despedaçado, mas o Monstro levaria nossa vingança cravado no peito. Morrer para causar a queda de seu cadáver, isto seria glorioso.

Seguimos Ahab pelos desertos, como marujos de uma expedição sem rumo pelos sete mares. Estivemos em tantas cidades que nem pude guardar seus nomes. Cada nova cidade era um amigo a menos. Mas Ahab, meu herói e minha inspiração, logo se mostrou um profeta cujas palavras não traziam novos conversos. Nosso grupo diminuiu e nossos inimigos se somaram. Vivemos ultimamente de favor, quase como prisioneiros, em uma casa que nenhum de nós escolheria, sob proteção de inimigos. “Nosso passado nos condena, Ismaël” — as palavras do velho ecoam na minha cabeça com sílabas de metralhadora.


Era madrugada quando acordei sobressaltado. Um silêncio pesado e amordaçante reaía no mundo. As montanhas dormiam sufocadas como se uma manzorra apertasse a boca da cidade. O ar arranhava nas narinas e eu tinha uma vontade de chorar ou de sair correndo. Nada disso era incomum, eu vinha sentindo todas essas coisas com relativa frequência. Alguns chamariam isso de covardia, outros de arrependimento, outros ainda diriam que era só minha lenta volta à racionalidade. Penar nessas montanhas, sem um sentido definido, mesmo na presença constante de um profeta, é algo que abala a fé do mais firme dos crentes.

Eu não sabia ainda exatamente o que estava me incomodando naquele silêncio, que parecia diferente, como se vibrasse algo monstruoso, em uma faixa inaudível pelo homem, mas sensível pela alma que há dentro do homem. Saí ao terraço para tomar ar, mas era inútil até isso: o ar estava quente, as montanhas sopravam opressão e as luzes das casas pareciam delimitar as cercas de uma prisão. Respirei com força, violentando os meus pulmões com aquele ar cortante e grosso, depois entrei, resignado, e fui procurar um lugar quieto onde dormir.

No térreo encontrei Fátima, ainda de pé, preparando bilhas de água fresca para levar aos nossos quartos, para a purificação matinal. Estava vestida de negro e tinha os olhos tristes como de costume, como os de alguém arrancada de toda perspectiva de felicidade e atirada naquele beco entre as montanhas. “Nosso passado nos condena, Ismaël”. Tive pena de Fátima. Gostaria de ter sido seu marido, se ainda houvesse tempo no mundo para constituir famílias e ter filhos. Acredito que ela também teria gostado, muito embora para isso devêssemos ter fugido, de Deus e de nossas fidelidades. Viver como renegados, em uma pátria alheia, um pensamento mais agradável do que morrer nas montanhas da Casa da Paz. Viver…

Saudei Fátima e saí ao quintal. Apesar do calor que fazia e da quietude opressiva eu me sentia bem. Saudei o garoto de olhos verdes que estava na guarda. Não sabia o nome daquele curioso espécime. Ninguém sabia. Ele nunca o dizia a ninguém. Soubemos apenas que viera do leste, como tantos, e que não tinha esperança alguma neste mundo. Somente os que haviam perdido a esperança a vinham sorver da boca de Ahab, que lhes dava um motivo para viver ainda, à espera do instante de glória.

— Quer que eu fique em seu turno, garoto? Não estou conseguindo dormir mesmo.

— Não carece, não, Ismaël. Nenhum de nós vai precisar amanhecer descansado mesmo… Então que pelo menos eu cumpra meu turno fielmente, como deve ser. Por que você não sai para um passeio, para arejar um pouco?

Dei de ombros, conformado, e me preparei para sair. Aconteceu algo, porém, que me fez estacar ao portão, congelado de medo: uma sombra pareceu cruzar a fímbria de céu despejado que aparecia entre as montanhas ao sul. “A morte por lá voa como um dragão assombrando os céus, Ismaël.” Não foram palavras de Ahab, mas de meu falecido pai, no dia em que lhe contei de minha vontade de seguir o caminho dos heróis. Eu não me importei naquele dia, porque tinha pressa de morrer, para esquecer toda culpa, todo arrependimento e toda frustração. Mas aquela forma fantasmagórica, como o rabo do Dragão derrubando as estrelas do céu, me fez tremer e chorar. Era ela que vinha, e eu não estava preparado. Eu me acovardara e não estava pronto.

— O que foi isso, Ismaël? — perguntou o garoto de olhos verdes.

— Eu não sei, garoto, só tive um poderoso pressentimento de algo muito ruim.

O garoto me encarou, com medo no olhar, e disse:

— Vamos fugir, Ismaël. E começou a correr pelo campo em direção à cidade.

Eu não fugi com ele. Entrei correndo pelo portão, enquanto ele abria o portão que dava para os arrozais. O som surdo do voo do dragão se aproximava, desorientando-me. Encontrei Fátima descendo dos quartos, depois de entregar as bilhas de todos os homens. Agarrei-a como pude, pressionando minha mão sobre sua boca com toda a força que conseguia ter, enquanto ela esperneava, desesperada por gritar, como se eu a estivesse prestes a estuprar. Subi com ela ao meu quarto, no segundo andar, e me tranquei, ainda segurando a boca trancada, porque meu coração pulava loucamente querendo cair dela.

Aliviei lentamente a pressão dos dedos nos lábios de Fátima. Ela não gritou quando os removi. Não gritou porque também ela conseguia distinguir o ruído sobre nós, algo indistinto e maligno. Os cães dos vizinhos começaram a ladrar furiosamente. Sussurrei-lhe baixinho aos ouvidos:

— Não sei o que está acontecendo, meu amor, mas vou tentar te proteger de alguma forma.

Ela assentiu com a cabeça. Apenas murmurando um rogo entre os dentes doloridos, para que Deus tivesse piedade dela e que eu lhe poupasse sua pureza. Os instantes foram passando, o ruído foi persistindo e eu continuei sem atacá-la. Ela foi aos poucos entendendo que não se tratava de uma violação.

Lá fora se ouviram ruídos de disparos repetidos. Alguma arma automática moderna. Tiros isolados de fuzil e um longo grito agoniado, que terminava morrendo num engasgo:

— Deus é grande, Ismaël. E eu me chamo Khaliii…

Passos soaram apressados pelas escadas. Mais tiros. Portas arrombadas como se fossem de papelão. Cães lá fora latindo. Mais tiros. Gritos. Os heróis não morrem berrando como cabritos. Os invasores gritavam apressada e nervosamente. Eram estrangeiros e impacientes. Nem sempre esperavam a resposta para atirar. Uma mulher soluçou e foi calada por um tiro no meio de um grito que não pude distinguir.

Então percebi o quanto estava exposto. Embora a porta do quarto ficasse meio oculta debaixo do lance da escada, dificilmente escaparia da vista dos invasores, mesmo se eles fossem estúpidos e desastrados. Ninguém sobrevive contando que o inimigo falhará. Olhei para o rosto de Fátima. Ela estava pálida e seus lábios, machucados pelo peso de minha mão, tremiam num choro silencioso. A pobrezinha queria chorar, mas não tinha coragem nem para isso.

Era preciso sair do quarto e achar um lugar seguro. A primeira coisa em que pensei foi em saltar para o chão. A janela do segundo andar não era tão alta que nos quebrasse as pernas. Só havia um problema: ela ficava fora do quarto. Por isso era preciso pensar rápido. O lado bom era que ela ficava sempre aberta para ventilar a casa, e havia de palha de arroz e grama seca ao longo de todo muro. Com alguma sorte escaparíamos com alguns arranhões apenas, se Deus nos permitisse cruzar três metros de corredor e saltar por ela sem que os invasores vissem.

Abri a porta de uma vez: não adianta ter medo numa hora de desespero. Se houvesse algum maldito cão infiel do lado de fora ele atiraria através porta assim que girasse a maçaneta. Só não devia fazer barulho, e isso não fiz porque a porta era nova e não rangia, os Arcanjos lubrificaram suas dobradiças. Lá estava a janela: um metro e vinte por um e dez. Suficiente espaço para pularmos sem segurança, mas com facilidade, mesmo Fátima um pouco acima do peso.

Não dava tempo para pensar. Não havia plano alternativo. Não era possível nem mesmo explicar à coitada o que eu pensava fazer. Só podia contar que fosse esperta o bastante para entender. Saí correndo pela porta, arrastando-a atabalhoadamente pelo braço, enquanto ouvia os passos dos inimigos que trotavam pela escada acima, vindo para o segundo andar. Saltei no vazio, esperando morrer ou miseravelmente quebrar as pernas ou ainda ser esmagado pelo peso de Fátima caindo sobre mim. Nada disso, felizmente. Caímos os dois sobre a palha e rapidamente eu me envolvi nela, aproveitando que a cor de minha roupa era clara. Não tendo a mesma sorte, Fátima mostrou agilidade para correr até as sombras das árvores e se ocultar atrás do tronco de uma delas.

Eu não tinha acabado de cair quando tiros se ouviram no segundo andar. Algumas balas saíram pela janela, faiscando como dardos de Satanás. Cães ladravam novamente, mas nenhum naquela estrada, nenhum que viesse me farejar. Um a um, os que defendiam o chefe caíram. Foram muitos tiros, de dentro e de fora. Uma das aeronaves inimigas girou em parafuso, com o motor atingido e o tanque de combustível vazando, e caiu no quintal. Poderia ter sido meu tiro a derrubá-la: ninguém era tão bom quanto eu em pontaria. Mas eu estava acovardado, cansado de morte, cansado de tudo, mas não de viver. Então os tiros pararam. Os bravos estavam todos mortos, apenas o covarde respirava, escondido no meio de palha, capim seco e esterco de vaca.

Os estrangeiros tagarelavam. Eu não conseguia entender o que diziam, mas era evidente a sua excitação. Eu não imaginava o que poderia ter acontecido, não até ouvir a própria voz de Ahab, cansada e conformada de uma maneira que eu nunca sonhara que ele seria capaz de dizer, quase num gemido subserviente:

— Que a maldição do Altíssimo recaia sobre vossas cabeças!

A ira espremida naquelas palavras me cortou o coração. Não era somente eu, o covarde, que sobrevivia. Ahab estava destinado à humilhação. Não morreria na tentativa quixotesca de exterminar o monstro que assombrava os mares. Teria simplesmente seu Pequod arrestado em um porto qualquer. Terminaria seus dias pensando na liberdade de Moby Dick, mas ele preso e impotente, precocemente vergado, sofrendo de rins, de varizes e de cáries. Não há heroísmo algum em morrer de velhice num mundo em guerra. Os heróis não têm velhice.

Desceram com ele pelas escadas. As botas dos inimigos soavam como tambores. Ahab gritou-lhes algo em sua língua. Eles não responderam. Gritaram-lhe de volta, e riram. De repente ouvi uma longa rajada de tiros, e não ouvi mais a voz material de Ahab.


Amanheceu um dia bonito nas montanhas perfumadas de papoula e bétel. Fátima e eu caminhávamos com cuidado, sempre no rumo norte, rumo ao teto do mundo. Ela não falava nada. Ela sabia que eu era um covarde, mas não me acusava porque gostava de não estar morta. Estava grata por sua vida, grata demais para me acusar, mas a minha covardia me tornara desprezível. Por toda a vida eu seria um desertor escondido na palha, sujo de esterco de vaca.

“Nosso passado nos condena, Ismaël”. Nunca tais palavras me cortaram tanto. Meu passado de herói se desfizera. Minha pureza de mártir se reduzira a manchas verdes em minhas vestes.

— Na Índia, querida, na Índia seremos felizes. Diremos que somos sikhs ou cristãos e nos deixarão ficar. Diremos que estamos fugindo da perseguição dos fanáticos.

Não me lembro quantas vezes repeti isso, na esperança de que falando muitas vezes a mesma esperança eu conseguisse condensá-la, como se fosse possível extrair esperança do ar e engarrafá-la. Fátima apenas ouvia. E a única resposta que eu tinha era a frase pesada, que desfilava pela minha mente como um rochedo movido pela mão de Deus: “Nosso passado nos condena, Ismaël”. Não, não era Deus que nos condenava, não existia Destino escrito em pedra. Éramos nós e nossos próprios atos que causávamos a ruína.

— Na Índia. Temos de chegar à Índia.

Mas eu sabia que as coisas seriam diferentes. Sabia que provavelmente os guardas nos matariam na fronteira, sabia que se um dia puséssemos os pés do outro lado Fátima, livre, me abandonaria. Mas eu queria viver, com mil diabos! Por que saltara por aquela janela? Para entregar-me ao punhal vingativo de um guarda que olhava por sobre a fronteira com sangue nos dentes de tanto morder por dentro da bochecha na ansiedade de purgar a terra de nossa raça? Para ser deixado velho e mendigo nas ruas de Amritsar, comendo a refeição da caridade que os meus inimigos do passado distribuíam aos pobres? Para ver minha amada nos braços de outro, eternamente rindo de manchas verdes de minhas vestes, que água nenhuma jamais lavaria?

Não, não era para nada disso. Por isso, secretamente, em vez de me dirigir à esperança que jazia ao leste, meus passos sutilmente me levavam, como seu fosse atraído por uma lâmpada, rumo à maldição e a vingança, rumo às terras controladas pelo ódio. Eu era um guerreiro ainda. Ainda havia tempo para purgar minha covardia. Eu poderia ainda lavar aquelas odiosas manchas com o vermelho de meu próprio sangue. E Fátima seria minha, mesmo que à força, ou, se não fosse, eu não viveria para vê-la sob o braço de outro homem.

“Nosso passado nos condena, Ismaël.”

Mas estas estradas são traiçoeiras. Não sinais, o próprio sol parece enganador. Não gosto do formato destas montanhas, não gosto da cor dos caminhões que às vezes aparecem. Talvez seja Fátima que consiga me desviar quando não percebo: há tantas encruzilhadas.

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