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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 28 de maio de 2021

“Garoto” no Quilômetro 101

Publicado em: 29/07/2011

Não houve julgamento formal. Ficou semanas preso, comendo do péssimo pão e da pior sopa. Bateram-lhe um pouco, mas não excessivamente. Um dia, por fim, puseram-no dentro de uma viatura no fim da madrugada, depois de lhe terem dado uma última sova, e o levaram por uma estrada de terra, solto e aos solavancos dentro do porta malas. A princípio parecera que seria morto em alguma clareira de floresta à beira da estrada, mas não foi o que aconteceu. O carro parou em um cruzamento deserto e três agentes abriram a tampa traseira, exumando-o de seu desconforto. Dois estavam armados com fuzis. O terceiro, que parecia ter certa autoridade, tentou pôr-lhe de pé e limpou com um lenço molhado algumas das manchas de sangue que haviam ficado na gola dura da camisa de flanela azul. Tinha um ar meio paternal, parecendo constrangido ao fazer aquilo.

Devolveu-lhe sua mochila de lona puída e entregou-lhe um pedaço de papel cartão:

—Tome, garoto, sua passagem para a liberdade.

O “garoto” notou que havia outros dois agentes, também com fuzis. Perscrutavam o silêncio doce da floresta outonal. Os quatro não tinham nada da flexibilidade bonachona e grisalha do chefe.

—Como assim, “liberdade”?

—Está livre. Vai.

O “garoto” ainda não acreditava. Olhou para o cartão, estalando de novo. Ali estava impresso o seu nome completo, em caracteres gordos, batidos e rebatidos por uma máquina de escrever que não tinha nenhuma dúvida. Mas acima do nome jazia, terrível, a explicação da liberdade que lhe ofereciam: era uma carteira de lobo.1

Era inútil questionar. Poderia ter sido morto por participar daquela maldita reunião. Alguns tinham sido, aqueles idiotas idealistas. Alguém, no entanto, tivera pena de sua ingenuidade e de sua estupidez e lhe salvara de ser esquartejado por um açougueiro ou condenado a definhar nos trabalhos forçados. Em vez disso ganhara uma carteira de lobo e nunca mais poderia ver uma rua ou praça com os seus próprios olhos. Sua vida normal acabava ali na encruzilhada. Nunca mais veria Valentina, nunca mais veria o irmão Alexandre, nem os bons amigos da faculdade. “Melhor assim”, conformou-se, “melhor viver como um lobo do que ser entregue à família em um saco de ossos, ou emagrecer até o fim erguendo muros inúteis no deserto.” Nasci ali outro lobo.

Os cinco agentes entraram na pesada e ruidosa limusine e fizeram o retorno. Com os fuzis aparecendo pelas janelas. Teve um pressentimento ruim, correu e pulou pelo barranco, rolando pela encosta. Ouviu as risadas dos homens: “Temos um lobo esperto, camaradas!”

O ruído da limusine desapareceu na distância, mas o “garoto” não conseguiu ter coragem suficiente para retornar à estrada. Um Kalashnikov é capaz de enviar uma bala a dois quilômetros de distância. E um atirador de elite é capaz de acertar um homem a essa distância. Dois fatos que se casam. Aquele lobo aprendera no primeiro dia que a sobrevivência depende de acreditar em pressentimentos ruins.

Por fim, quando a respiração começou a se aquietar, ergueu-se com muito cuidado e tentou retornar à encruzilhada, para ler as placas, entender onde estava, descobrir para onde era o quilômetro cento e um. Quando subiu de volta encontrou quatro homens barbados, todos vestidos com rústicas roupas de pele ou lã sem tintura. Não era preciso perguntar: eram lobos, como ele.

—Mas o que temos aqui, camaradas!? Um delinquente juvenil? Ou talvez infantil?

O “garoto” não respondeu. Engoliu o orgulho sem que ele sequer arranhasse a garganta: se quisesse sobreviver na floresta, teria de ser amigo dos outros lobos. Sozinho, nenhum deles aguentaria o inverno. Apenas ficou sério enquanto as gargalhadas rolavam naqueles rostos brutos. Por fim eles pararam de rir. O mais ruivo deles lhe encarou, com a expressão mudada, e lhe perguntou com uma voz amistosa, mas que trovejava nos ouvidos como o rompante de um barítono:

—Mas o que esses loucos do Comissariado estão fazendo? Por que você está aqui, filho?

—Associação criminosa para conspirar contra o estado e o povo, camarada.

As expressões dos lobos se franziram. Todos reprovavam. Havia uma certa ética entre eles, conforme posteriormente soube. Tinham um certo senso de justiça, mesmo sendo, quase todos, criminosos comuns.

—Não vão perguntar quem eu sou?

—Garoto, aqui na floresta não importa mais quem você era. Importa é quem você está disposto a ser. Entre a floresta e o quilômetro 101 você tem liberdade para ser qualquer coisa que deseje, o único problema é que você sempre será um lobo. Aqui na nossa alcatéia eu sou chamado de Vermelho. Esse aqui é o Orelhudo, aquele é o Pintado e o que está lá distraído é o Duende. Você vai ser o Garoto, e isso é tudo.

—Quem escolhe esses nomes? Parecem nomes de animais, de… cães.

—Nunca mais diga isso, Garoto. Os nomes são a parte mais importante da identidade de um homem… e é por isso que não usamos nomes —gargalhou o Vermelho, como se tivesse contado uma piada.

Era verdade, nenhum lobo possui identidade. Não possui matrícula, nem endereço, nem salário e nem emprego. Possui apenas o seu cartão, que lhe dá o direito de estar vivo, desde que esteja sempre além do quilômetro 101.

Convidaram-no a seguir com o grupo de volta à aldeota onde residiam. Havia lá um grupo de lobos, em sua maioria gente do sul. Tinham cumprido pena nos presídios da capital e, em vez de enviados de volta às suas terras de origem, haviam sido soltos na floresta com carteiras de lobo, talvez na esperança de que o inverno desse cabo de seus traseiros.

Enquanto caminhavam, com o passo cuidadosamente calculado, Pintado puxou conversa, dizendo que o grupo andava caçando pela floresta quando o carro do Comissariado apontou zoeirento na longa reta. Poderia ser um cadáver para a floresta devorar, mas era um lobo, vivo. Todos tinham fica surpresos de vê-lo, especialmente seu salto e sua fuga pelo barranco:

Aqueles canalhas —explicou —costumam atirar nas pernas dos infelizes. Se não há ninguém por perto, o coitado sangra até morrer. E no mínimo fica manco. Você foi esperto de pular.

—Tive um pressentimento ruim.

—A floresta favorece quem tem pressentimentos, e que prestam atenção neles —interferiu o Vermelho, que claramente parecia ser o líder do grupo.

Por fim chegaram à aldeia, onde as mulheres, em sua maioria camponesas rústicas, de olhos amendoados e lenços na cabeça, estavam preparando sopa de repolho. O ar estava infectado daquele cheiro forte de gordura e azedo.

Garoto teve permissão para se sentar à sombra de uma rústica tenda de peles, que parecia apegada a uma casa de madeira que somente por milagre parecia ficar de pé. Ali se sentou, pensativo, chorando os dias de estudante na faculdade, os cabelos macios de Valentina, o calor perfumado de lavanda da cama enorme na casa dos pais. Confortos e esperanças definitivamente mortos. Era um lobo.

Uma menina mestiça, com os olhos só um pouco mais fechados que o normal, mas com cabelos tão claros quanto o de seu pai, vinha agarrada à saia rodada da mãe, que voltava da horta com mais cabeças de repolho. Garoto detestava repolho, mas teve a impressão de que teria de comer até fartar-se, durante muito tempo. A menina o viu e começou a acompanhar com os olhos enquanto se afastava em direção ao que parecia ser uma espécie de cozinha coletiva. Por fim, depois de trocar algumas palavras com a mãe, largou-a e veio correndo pelo pátio poeirento. Parou diante dele, com olhos ardentes de curiosidade. Era um novo lobo na matilha. A jovem cria de algum lobo mais antigo queria saber quem ele era, cheirá-lo e definir sua natureza.

Garoto pegou então um pedaço de palha de painço do chão e a dobrou rapidamente entre os dedinhos, finalmente fazendo com que desparecesse diante dos olhos firmes da menina. Ela riu com o truque barato de mágica e Garoto fez uma amiga, pena que ela só tinha seis anos de idade.

Pegou de novo o seu passaporte de lobo e dedicou-lhe mais atenção. Nunca vira um. Ninguém nunca vira. A própria existência dos lobos era algo quase lendário. Só ouvira falar deles com mais detalhes durante os meses de cadeia. Havia muitos lá que sonhavam sair para a floresta, mas a maioria morreu sangrando nas mãos dos torturadores. Garoto sacudiu a cabeça tentando esquecer isso.

Viu então a ofensa estampada naquelas letras rebatidas com força, com manopla intensa de quem tem certeza do que quer. “Profissão: anão de circo”. Teve ganas de chorar mais uma vez. Dezoito anos de estudos, prestes a formar-se em uma faculdade de engenharia. Noivo para casar. De repente se mete num estúpido grupo de poetas malditos. O que fora fazer lá, bom Deus dos idiotas? Pronto, a vida que sonhara estava reduzida àquilo. “Profissão: anão de circo”. Dezoito anos de estudos em vão: para o sistema ele não era, ao contrário dos outros, nem professor, nem médico, nem policial, nem mineiro, nem engenheiro, nem lixeiro, nem sequer um rufião ou um assassino. Era um anão. Era definido pela sua baixa estatura e teria de conviver com aquela lástima. E pudera ter sido um grande engenheiro se não tivesse se metido a poesia.


  1. “Carteira de Lobo” (Volchiy Bilet) era o apelido coloquial do documento de identidade oferecido pela polícia soviética aos condenados que saíam da cadeia. Em geral o documento continha a proibição de que seu portador se apresentasse a menos de 100 quilômetros de qualquer centro urbano, sob pena de ser preso ou até executado. Com isso, o indivíduo tinha de levar uma “vida de lobo” nas regiões remotas, onde frequentemente eram fundadas pequenas comunidades, a 101 quilômetros das cidades. Anteriormente o nome havia sido empregado para os diplomas de conclusão de concurso que as faculdades ofereciam aos estudantes que colavam grau mas não conseguiam ter uma tese aprovada. Profissionalmente, o efeito disso era o jovem não ter emprego em centros importantes, tendo de ir trabalhar em cidadezinhas.↩︎

Arquivado em: contos
Assuntos: exotismo historia