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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 28 de maio de 2021

Romance Frustrado

Publicado em: 20/08/2011

Não estou conseguindo dormir. Deve ser sexta ou sétima vez só nesse mês. Minha mãe diz que passo tempo demais correndo solto por aí, vendo coisas que não devia e conversando com espíritos-de-porco. Se eu fosse viver de acordo com a vontade dela, ficaria trancado no porão mais fundo, sem uma vez sequer sair para ver a lua. Porém eu não sou um bicho medroso, gosto do frio da noite, do cheiro do ar limpo, do calor das pessoas.

Quando não consigo dormir, como hoje, começa a me dar uma aflição imensa e fica difícil continuar deitado, olhando para nada. Deixo todo mundo em seus sonhos tranquilos e saio. Quando volto a minha mãe está desesperada como se fosse sempre a primeira vez: " Você ainda não sabe o que acontece lá fora? É perigoso! "

Pode ser verdade. Na verdade tenho certeza que é. Mas se ficar trancado também corro um perigo: o perigo de que passe a eternidade e eu não viva nada! Só queria saber de onde me vem toda essa insônia, que está ficando sempre mais frequente, a cada mês. Não há perigo maior que esse.

Hoje é a primeira vez que tenho coragem de lhe falar, moça. Custei muito para isso, porque não a entendo. Você é estrangeira aqui, sua língua soa diferente, distante, mas ainda assim eu a entendo, embora não saiba como repetir. Aliás, nem sei se está me entendo. Parece que sim, porque sente o ritmo da minha indecisão e reage aos pequenos desastres que eu cometo, sempre que tento ser cavalheiresco. Eu tento, moça, mas somos diferentes demais, talvez a minha educação lhe ofenda, talvez a minha agressividade lhe agrade.

Eu acho curioso que você não me conheça. Esse bairro é tão pequeno, os habitantes daqui se conhecem quase todos. O bairro lá de baixo, na cidade nova, está cheio de espírito cosmopolita e moderno, mas este lugar aqui é tranquilo e familiar. Tem dias que até parece que faz mil anos que nenhuma família nova muda, então todos estamos acostumados uns com os outros. Não sei se você sabe, mas algumas pessoas aqui têm medo de você, muito medo. Eles se incomodam quando você vem, mas eu gosto, não me importo.

Não, não ria. Nós somos desconfiados. Não somos amados, isso faz com que nos isolemos. Você não me reconhece, mas você eu já conheço, sua vida já faz parte da minha há meses. Você vem sempre, eu sempre a sigo pelas ruas aí, admirando sua beleza. Só nunca ousava falar.

Posso lhe dizer uma coisa? Acho que é por sua causa que não consigo mais dormir. Como me deitar e esquecer a vida, sabendo que uma moça linda que nem você está perambulando por aí, nesse bairro perigoso, exposta a tudo quanto é coisa ruim que a gente costuma fazer? Não sei se você sabe, mas eu já a livrei de uma ou duas coisas que lhe aconteceriam.

Não, não espero gratidão por isso. Gratidão é um sentimento vil, uma reação de covardes. Prefiro que você me pague de alguma forma e não me deva nada. Não lhe fiz pensando em nenhum grande benefício. Só você não ter fugido de mim hoje já foi um pagamento suficiente, me mostrou que existe alguma maneira de interagirmos, apesar dos dois mundos diferentes em que nós estamos.

Mas no fundo, bem no fundo, o que eu gostaria era que você, que aqui vem tantas vezes sem nunca nos pedir licença, me desse a licença de ir com você, entrar em sua casa, dormir um dia lá.

Oh, não! Não vá ainda embora, moça! A sua companhia dá vida a esse lugar. A sua presença me empresta calor, me faz ver um sentido, afinal, na minha existência vagorosa e vazia. Não, não se vá. E não vá rindo, porque sei que não é de alegria esse riso, mas de escárnio. Minha voz é a de um velho, moça, meu peito está cheio de idade e de trevas, mas não me julgue pela profundidade do escuro de meus olhos, deixe que eu lhe mostre o vigor que resta dentro de mim, porque no mundo em que eu vivo eu ainda sou um jovem, como você!

Não, perdoe-me! Fui afoito demais, minhas mãos às vezes são brutas e bruscas demais para tua carne tão delicada. Não, não se deixe ainda, é do seu calor que eu mais preciso! Oh, desastrado que sou! Não voltarás! Oh, desastrado que sou, talvez não chegues! Tome pelo menos esta ficha, procure um orelhão, chame alguém que lhe socorra, antes que o sangue se desate todo e você morra! Oh, claro! Fichas! Pobre diabo que sou! Apenas fuja, haverá um carro de aluguel ao pé do morro! Vá, não voltes! Oh, desastrado que sou! Não a mereço.

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Assuntos: amor leopoldina mitos