Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Absolutamente

Publicado em: 21/02/2012

Poema originalmente sem título e sem data encontrado datilografado no verso de uma folha de rascunho perdida em uma das muitas caixas de papel velho em minha biblioteca.

Miraculosamente salvo do lixo, não consigo imaginar a razão pela qual este texto não foi incluído nos meus “poemas completos” anteriormente.

Temo ferir o teu viço
com os espinhos que adquiri.
Porém a dor, talvez a faça
adquirir um pouco cedo
o que tão tarde descobri:
não há salvação sem a verdade,
não há destino sem partilha
e não há felicidade,
absolutamente.

Mas isso não quer dizer somente
que estou insensível:
não o ouso dizer, apenas digo.
Preciso de um clarão no horizonte,
e de calor em minhas mãos,
mas isto só se acha onde ache
algo que não caiba em mim.

Não fui sempre este estranho,
sou o que me fui tornando.
Não quero mais unir-me ao mundo
com toda sua ânsia.
Caminho só por entre as pessoas,
romeiro anônimo de um santo antigo,
atravesso pontes como um cão perdido
em uma estrada hostil,
formiga entre os doces da festa.
Insignificante,
ignorável.
Como exigirei que se solidarizem com meu absurdo?
Não posso sequer exigir que alguém fique.
Eu sei que já era assim quando você me viu,
mas não precisa ficar mais, pode fingir que descobriu
porque eu sei que os olhos do amor escondem muito.

Não, não vou mudar. Ninguém muda ninguém. Ninguém muda.
Todos apenas se tornam cada vez mais aquilo que vão ser.

Mas como não sei viver nas trevas e sem nada,
como não sou bom adivinho, nem Teseu no labirinto,
nem artista de circo e nem gênio de caricatura,
vou seguindo a trombar entre ilusões, como a sua.

Ah, é esperar demais de mim, você pede que eu demonstre afeto.
Não tenho tanto amor assim:
Amor é algo tão restrito, tão pequeno,
tão pouco nesse mundo, tão oásis.
Como você quer que eu tenha em abundância
o que serve de lenda e consolo para todos,
mas não brota como um pasto pelo chão,
mas sim como um cacto nas cinzas.
Ah, é esperar demais de mim, você pede que eu demonstre afeto.
A nudez dos sentimentos é pior que a do corpo.
Que pouca é a vergonha que você acha que eu tenho!
Ah, não. Não é que eu insisto em feri-la.
Não sou ferino como você acha,
A penas quero ilusões seguras
como a de não amá-la.
Arquivado em: poesia
Assuntos: amor antiguidades