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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Aventuras em Rio das Ostras, Parte III

Publicado em: 10/05/2013

Depois de apenas um dia e meio de praia, a segunda feira amanheceu vestida de um som tão lindo que dava vontade de xingar, pois não tínhamos mais roupa limpa — e nem onde lavar. Como não queríamos comprar roupas novas para cada novo dia, e também porque a semana era a última das férias, com muita pendência ainda a resolver, pusemos as bagagens na mala e pegamos a estrada.

Por várias vezes nos dias anteriores tínhamos visto um sinal indicando a “Estrada de Cantagalo”. Até então eu acreditava que essa era a cidade de Cantagalo, próxima à divisa de Minas Gerais. Por isso, ao ver o sinal, eu sempre pensava algo como “entre por essa rua, siga uns setenta quilômetros e você já vê de longe as montanhas mineiras.” Eram aproximadamente sete e quarenta da manhã quando tomei a “Estrada de Cantagalo”, estávamos animados, ouvindo música no rádio e comendo biscoitos e tomando água mineral gasosa.

Os primeiros sinais de que havia algo errado foram quando a vegetação, que já tinha deixado de ser formada por raquíticos arbustos litorâneos e exibia árvores mais saudáveis, começou a exibir novamente um padrão de charcos e arvorezinhas de folhinhas redondas.

— Devo ter errado algum cruzamento, estamos voltando para o litoral.

Minha mulher demorou a acreditar, mesmo depois que passamos pelo distrito industrial de Rio das Ostras, em um momento em que, pela distância percorrida, já deveríamos estar começando a subir a serra. Mais alguns quilômetros e chegamos a um posto de polícia em uma interseção com duas indicações: à direita, “Rio das Ostras”, à esquerda, “Macaé”. Tomei a direção de Macaé e, poucos quilômetros à frente, em uma barreira da polícia feita para ajudar no socorro às vítimas de um acidente, perguntei ao inútil soprador de apito para onde era Cantagalo e ele, solicitamente, me disse que era seguir em frente, pois ainda estava longe.

Tenho por hábito confiar nas indicações dadas pela polícia, e foi por isso que me dei mal naquele dia: fui seguindo sempre em frente, como mandara o guarda, e quando dei por mim, já bem dentro de Macaé, estava no estacionamento da Petrobrás. Tive de manobrar e retornar, com muita dificuldade, através de cruzamentos desconhecidos. Aproveitei para abastecer uma gasolina contendo ouro liquefeito, de um tipo que só deve existir a poucos metros de instalações da petrolífera. Foi com essa gasolina que cheguei em casa, horas mais tarde.

Porque depois de ter sofrido esse revés, resolvi deixar de lado todo plano de atalho ou abreviação e voltar pelo caminho conhecido. A mudança seria que, uma vez em Nova Friburgo, tomaria a estrada para Cordeiro e Cantagalo, de lá passando a Além Paraíba e finalmente às terras por onde me reconheço. Para isso, teria que voltar até Rio das Ostras, atravessar toda a cidade e pegar a estrada Serramar, rumo a Casimiro de Abreu

Quando estava, finalmente, passando em frente ao cruzamento que levava ao hotel onde nos hospedáramos, olhei o relógio e constatei que eram nove horas da manhã. Havíamos perdido cem minutos de viagem. Em condições normais, já deveríamos estar quase no alto da serra, mas ainda estávamos saindo, queimando uma gasolina que devia limpar o ar em vez de poluir.

A subida para Friburgo, passando por fora de Casimiro de Abreu, nos permitiu reencontrar a estrada RJ 142, através da reserva biológica de Macaé de Cima. Foi quando tivemos a oportunidade de verificar que a paisagem é bem menos bonita do que parece quando está escondida pela névoa. Na verdade há muito de biológico a se reservar por ali: na maior do tempo o que vemos são pastos sujos intercalados por moitas retorcidas e pequenos trechos de mata. Alguns lugares até chegam a ser bonitos, mas é difícil entender porque criaram a reserva somente depois de terem praticamente destruído o lugar

Até passarmos por Friburgo a viagem transcorreu sem grandes sustos, incluindo um almoço muito bom e inacreditavelmente barato em um restaurante familiar no distrito de Lumiar. Não sei se é a mesma Lumiar que inspirou Beto Guedes a escrever seu clássico, mas a música não me saiu da cabeça por semanas.

A viagem voltou a ficar interessante quando, a meio caminho entre Friburgo e Cordeiro, minha mulher viu uma placa indicando uma saída à esquerda para “Além Paraíba” a 56 quilômetros. Como eu já havia cometido muita barbeiragem durante todo o passeio, estava meio desmoralizado para resistir quando ela insistiu que tomássemos aquele caminho. Tudo que consegui foi barganhar com ela para perguntarmos a um grupo de estudantes se toda a estrada estava asfaltada. Os estudantes, cariocamente, nos garantiram que sim, e lá fui eu a caminho de Duas Barras.

A estrada para Duas Barras passa por alguns dos lugares mais bonitos que já vi em minha vida. Fazendas centenárias ou bicentenárias, árvores gigantescas, alamedas em torno da estrada, cercas pintadas, muita limpeza e ordem. A cidade propriamente dita não é grande coisa, nem em tamanho e nem em beleza. Deve ser por isso que Martinho da Vila quase não fala dela em sua música.

Na praça central vimos uma plaquinha indicando “Carmo” e encontramos o primeiro nome familiar em nossa volta. O município de Carmo fica junto à divisa, banhado pelos rios Paquequer e Paraíba do Sul. Quando se atravessa, em Além Paraíba, a ponten Engenheiro Régis Bittencourt, há uma placa indicando a direção, então imaginei, aliviado, que deveríamos estar bem perto de casa. Era já por volta de meio dia e meia. E para nossa alegria a estrada, apesar de não sinalizada e cheia de curvas como um novelo de linha que você joga fora, era asfaltada.

Os primeiros oito ou nove quilômetros foram de pura felicidade, apesar de as curvas e a má qualidade do asfalto nunca permitirem mais que cinquenta quilômetros por hora. Tínhamos esperança de chegar a Além Paraíba ainda com o sol quente. E ele estava já bem quente. O problema foi que, de repente, na saída de uma curva, o asfalto acabou e nos deparamos com uma estrada de cascalho que foi ficando sempre mais estreita e com menos cascalho até que, para nossa tristeza, começou uma descida cinematográfica por uma estrada que serpenteava morro abaixo em uma serra portentosa. Não se via sinal de povoação no horizonte, e nem de Rio Paraíba.

A descida foi uma desgraça. O carro derrapava praticamente em cada curva, sobre um barro arenoso já meio seco, escavado pelas rodas dos muitos veículos que haviam passado desde a última chuva. Era preciso descer de segunda marcha e com o pé no freio, sem tempo de enxergar a beleza da paisagem. Quando, meia hora depois, chegamos a um lugar mais ou menos plano, olhei para trás e vi, azulando na distância, o começo da descida que acabara. A estrada estreita desaparecia entre o capim alto e as árvores que sujavam os pastos.

Então, finalmente, contemplamos Carmo, marcada por um CIEP no alto de um morro. A cidade, meio confusa e me parecendo ser bem pequena e bem pouco desenvolvida, tinha um calçamento irregular e era ligada a Além Paraíba por uma estrada em péssimo estado de conservação, a RJ 144. Mas, se considerarmos que a trilha de bodes pela qual chegáramos a Carmo também era marcada no mapa como “RJ 144”, até que tínhamos sorte. Com um pouco mais de azar teríamos sido indicados pelo Google Maps a uma estrada virtual, como a que liga Los Angeles a Tóquio.

Quando, finalmente, passamos pelo “Trevo de Carmo” a viagem acabou. Sim, porque não havia mais, a partir daquele marco mágico do mundo real a que estou acostumado, nenhuma surpresa que me pudesse atrasar. Pelo menos enquanto meu valente Fiat Uno não abrisse o bico (mas ele estava abrindo). Minhas mulher até pensou em passarmos na casa de sua mãe para botar as fofocas em dia, mas ela pensara isso quando ainda estávamos em Friburgo: quando chegamos ao trevo de Leopoldina, já pelas três e meia da tarde, ela queria que o mundo acabasse em colchão para ela terminar dormindo. E para mal dos pecados o trecho final da viagem foi marcado pelo medo de que o carro não conseguisse subir mais nenhum morro, de tão fraco que estava. Quando finalmente o estacionei dentro da garagem e pisei de novo, aliviado, o bom solo mineiro, percebi que teria que me livrar do Xinxinho (apelido do meu Fiat, devido a ter sido comprado de um cara que tem o apelido de Xinxão) porque ele estava doentinho e eu não queria gastar com ele. Mas isso já é outra história.

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