Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Desencontro Marcado

Publicado em: 04/01/2014

Um dos mais antigos contos meus, datado de 2000 ou 2001 e recuperado de um arquivo perdido numa pasta esquecida de um HD que eu nem sabia que tinha mais. Um conto escrito para uma pessoa que nunca mais verei (a moça da banca de jornais é alguém que conheci, há muito tempo, em uma praça que não existe mais, em São João Nepomuceno).

Fiz as malas à noite, enquanto todos dormiam, para a definitiva volta para casa. A noite de sexta não fora como de costume, mas o mesmo gosto de sempre estava em minha boca, aquele amargo metálico que antecede a azia, aquela sensação de secura nos dentes que fica depois da bebedeira. A única janela de meu quarto dava para uma área interna onde estendiam as roupas lavadas. Os lençóis brancos eram uma paisagem calma e as calças e camisas de todos os hóspedes me acenavam simplesmente sem simpatia.

Quando amanheceu depois de um sono difícil, desci as escadas carregando malas grandes e uma tentativa de sorriso: nunca é fácil voltar para casa, nem mesmo como vencedor. À mesa para o café, tentei não dar notícia dos meus arrependimentos – pretendia esquecer definitivamente tudo quando, definitivamente, estivesse em casa. Despido de maiores emoções, sofri outro e me pus na rua antes que a chuva eliminasse minha capacidade de sair.

Uma chuva e fria que escorria pelo calçamento de pedras negras embaçando os meus óculos e me fazendo franzir a testa. Em algum lugar por perto alguém deixara um hino evangélico rodando num toca-discos, ou talvez alguma coisa irreconhecível dos anos setenta. A luz rala do sol varava as nuvens e cintilava nas enxurradas.

Descansei as malas num banco da praça patriarcal cercada de lojas sem graça e cheia de homens velhos com suas calças de tecido fino com furos de brasas de cigarros de palha, de mulheres gordas e precocemente envelhecidas arrastando crianças , de meninas desengonçadas tentando imitar a moda do Rio de Janeiro, de homens de dentes podres usando roupas sujas e exibindo sorrisos grossos diante de mulheres fúteis que fingiam não vê-los. É uma aparência de morte esta das cidades do interior nos dias de chuva, sobretudo quando se chega, mas também quando se está indo embora.

Um casal de mãos dadas vinha pelo calçamento e levemente me cumprimentou: conhecidos em vias de esquecimento já sumindo no ar, ao vivo, diante de mim.

Flávia me aguardava com o seu sorriso gradeado por um aparelho. Outra vez fugiram as palavras. Como falar da falta que ficaria? E as poucas frases que eu consegui soaram como discursos, incapazes de sentimento. Eu via mágoa nela a turvar sensivelmente o sorriso comercial que apresentava-me. Com que desculpa ia embora? Com que coragem ficaria? Depois de tudo que dissera eu me sentia o mesmo menino desastrado que quebrara a louça portuguesa da avó.

Abriria inúmeras vezes a minha boca sem conseguir corresponder à necessidade do instante. Portanto não ousei tentar coisa alguma. Subitamente veio me tomando a repulsa que me ordenara fugir. Apesar disso, pleno de boas intenções, tentei lhe dar meu último sorriso, que falhou e soube, então, que jamais se sabe como dar adeus: um nó formou-se na garganta que em vão tentara desculpar-se, e o calor subiu-me ao rosto porque os olhos dela eram enormes, negros e úmidos. Engoli em seco e olhei o solo, mais envergonhado e só do que jamais houvera sido.

Era tudo muito simples. A vida me tocava em frente e eu não tinha autonomia para ficar.

Mordi o nó de um dedo, olhei para cima e para os lados… o mundo pareceu ser tão subitamente maior que tudo que eu era… Por isso carreguei do chão as minhas malas, murmurei um ineficiente consolo enquanto prometi voltar sempre e segui pela calçada de pedrinhas. Não, não era preciso que eu dissesse coisa alguma.

Meus sapatos batendo contra o chão, eu os ouvia como se o som passasse por dentro de mim para chegar aos meus ouvidos, meus cabelos iam sendo aos poucos acamados pela água rala da pouca chuva que restava. Sob a grande amendoeira da outra praça alguém varria folhas secas e não havia por perto conhecidos e muitos menos algum bar aberto onde eu pudesse embriagar minha razão até passar a ânsia de gritar que eu sentia.

Desconfortavelmente sentado em um banco de rodoviária, esperando pela última vez o meu ônibus, perguntei que dose letal de álcool me fizera perder meu resto de juízo e que benefício adviria daquela maldade que eu fazia a quem só me queria ter. Os passarinhos das árvores cantavam estranho, como se sempre tivessem estado nelas esperando pela minha chegada e a crueldade intensa do silêncio matinal foi rompida finalmente pelo resfolegar do primeiro carro que agrediu os meus ouvidos com sua partida seca e hesitante. Então o ônibus chegou devagar, soltando ar dos freios como se tossisse. Entrei e o cobrador me desejou bom-dia.

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