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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

A Noiva Liberdade

Publicado em: 26/01/2014

O sono agora mesmo começou!
Não lhe toques no leito de noivado, Há pouco a liberdade o desposou.
— Castro Alves, “A Cruz da Estrada”

Padeço de uma condição sutil chamada compaixão. Talvez por isso tenha sido reduzido à miséria de, já na tarde da vida, habitar um apartamento de solteiro em bairro pobre, com uma vista invejável para o cemitério. Meu trabalho não me permite pagar mais, nem sofrer menos. Como o que é possível e reservo o resto para a medicina, esta voraz benfeitora da humanidade.

Ultimamente tenho medo de perder até mesmo este conforto pouco que ainda pago: tantas cólicas e cálculos mal feitos têm me dado ânsias e desmaios e motivos para perder dias de trabalho. Às vezes tenho de passar a tarde neste caixote de cimento em que me escondo, convalescendo de minhas dores, tratado pela sorte, pelo tempo e algum remédio inócuo adquirido a custo, depois de uma consulta rápida, que me custa tanto quanto o táxi que me traz.

Nesses dias eu sinto particularmente aguda a sensação na alma de que eu definitivamente fracassei. No deserto deste lugar que não é lar, que só fica espaçoso porque me faltam móveis, aqui me lembro que não tenho companhia para remédio, e ironicamente a minha melhor janela dá para um cemitério.

Numa dessas tantas vezes percebi uma cena inusitada ocorrendo lá onde ninguém normal da mente vai: entre tantos túmulos lembrados somente em Finados ou enterros, há uma maioria imensa de abandonados, alguns com flores mercenárias, entregues regularmente pelas funerárias, a mando de quem não quer trabalho de chorar, e há outros que ostentam despachos. Mas há um que parece ter visitas cada dia, e flores sempre frescar ornamentando a lápide. Eu já sabia há muito tempo dessa condição particular daquela tumba, mas somente o ócio da doença permitiu que eu visse a origem do portento: um homem sempre de azul que percorre aquela alameda inclemente, onde não há espaço para árvores, e rigorosamente sempre deposita um ramalhete farto sobre aquela específica laje.

Da primeira vez que o vi nessa tarefa, imaginei que era um rico excêntrico, enviuvado depois de muito tempo, ou lamentando recente tragédia com um filho. Teria terminado aí a curiosidade, pois não sou do tipo que aprecia a morte como assunto, talvez pela proximidade com que a sinto em cada junta.

Sim, eu a pressinto. Hoje mais que nunca. Todo jovem nasce convencido da imortalidade, todo passamento é acidente, ou coisa que acontece a centenários — e quando se tem quatorze anos, a palavra “século” soa vaga, sinônima de milênio ou de era, talvez até num sentido geológico. Mas depois que a areia da ampulheta já correu pela metade, surge o dilema, de que possa haver um grão maior que entupa a passagem e pare o fluxo, antes que se esgote o tempo. Aí o século soa como se falássemos em “dia”, e é um terror tremendo pensar-se tendo “meio século”.

Dizia, porém, que não teria dado trela ao caso das flores, não fosse o acaso que me fez, um dia, estar bem perto do homem de azul que as levava.

Deixara o trabalho três horas mais cedo para ir a outro médico, um que prometiam que me curaria, ou pelo menos me deixaria morrer do mesmo jeito, mas com a vantagem de ainda deixar herança aos meus sobrinhos. Para sorte minha ele não estava, ninguém me disse onde fora. Perdi a hora e vim para casa, suando bicas sob um sol de fritar ovo.

Passando diante do cemitério, a caminho do edifício feio em que morro, pela primeira vez eu vi o indivíduo de perto: um rapaz mais novo do que eu imaginara, magro e meio cadavérico, apesar da cor escura de sua pele. A roupa azul não era senão o uniforme de brim grosso com que os funcionários municipais se penitenciavam da pobreza sob o sol ardente.

Era provavelmente um coveiro. Somente essa razão explicava que ficasse tanto tempo naquele lugar onde nem as corujas gostam. Minha primeira impressão se confirmou quando o vi, depois de entrar levando seu fardo colorido, entrar no pequeno escritório da entrada e bater o ponto.

Naquela hora exata eu me lembrei que nunca visitara a tumba do meu falecido avô. Não haveria pior hora para isso: eram três da tarde e o sol de janeiro castigava tudo, fervia a água das poças que sobravam da chuva recente, entontecia até as moscas. Tampouco eu confiava em minha saúde para isso, mas talvez já quisesse mesmo me propiciar a sorte de um acidente, menos doloroso e mais barato que uma internação.

Ninguém me deteve na entrada. Este é um cemitério simples: não há nada de valor que ainda se possa roubar de quem aqui jaz, tão simples, na verdade, que ninguém pensou que eu pudesse ser uma ameça, no máximo, um freguês futuro avaliando o serviço.

De dentro o cemitério ainda parecia mais lotado do que de longe. As sepulturas, covas e carneiros se distribuíam sem intervalos. As ruas eram estreitas, muitos jazigos, inacessíveis, e muito enterro deve ter passado sobre lápides alheias. Pensei comigo: “fazem isso porque somente neste condomínio os moradores são refratários aos ruídos”.

Outra impressão que me agradou, na qualidade de cliente perspectivo, foi justamente este excesso de ruído, motivado pelo bairro próximo, habitado por gente que educadamente compartilha sua música e seus dramas familiares, e pelas avenidas que o ladeiam, infernais, com um trânsito de caminhões que nunca dorme.

Segui o homem até o lugar aonde ele sempre ia. Acompanhei, fingindo ver uma outra cova, o gesto simples com que homenageou a vida extinta da tumba número 10012.

Ele demorou como o costume, balbuciando frases curtas, coisas vagas, numa língua que quase me parecia estrangeira.

Quando terminou e foi embora, de relance li o nome da defunta: “Carla da Silva de Jesus”. Um nome tão pobre quanto o semblante do coveiro que ali deitara um buquê de rosas amarelas. Na foto borrada, uma mulher jovem, não exatamente bela, vestida de uma forma que não lembrava nada uma herdeira rica ou uma esposa nobre. Difícil imaginar que alguém rico financiava tantas flores para ela.

Nos dias seguintes continuei acompanhando, na medida do possível, o ritual rigoroso do coveiro, sempre ao entrar no início do turno vespertino, sob um sol que assustava até as vacas.

Mas sarei um pouco, recomecei meu dia a dia de blasfêmias e trabalho, e não pude mais usar a visão conveniente de meu apartamento para contemplar seu ato. Sempre que chegava do serviço, a fresca da tarde começava, eu olhava pela janela e todas as tumbas pareciam idênticas na luz baça do crepúsculo. E tantas tinham flores, por tantos motivos diferentes. Mas o rosto daquele pobre homem eu nunca esqueci.

Um dia, retornando do serviço excepcionalmente tarde, de um serão que prometera destruir meu resto de semana, reparei que a capela popular estava iluminada, o que significava que ali velavam algum pobre defunto, custeado pela caridade e pelo imposto público. Olhei para a dentro, quase por acaso, e vi ao lado do caixão um rosto magro que parecia o do coveiro.

Essa solidariedade estranha que me aparece nas horas esquisitas me impeliu a entrar naquele funeral. Dentro de um caixão sem brilho, sem quase flores, com um véu rasgado e barato que nem continha as moscas, estava uma menina feia, de seus dezessete ou dezoito anos, tão parecida com o pai quanto com a mãe. Digo isso porque nela eu reconheci de imediato os ossos faciais de um e os traços afilados do outro.

Estava diante de uma minúscula tragédia que a cidade não conhece. Diante de mim estava o coveiro, este pobre homem brutalizado pela morte. E ele teria de se acostumar a depositar mais flores, pois outra gaveta se abriria naquele jazigo onde Carla da Silva de Jesus dormia esperando pelo Juízo.

Entrei e o vi diante do caixão, sentado a contemplá-lo como quem assiste um naufrágio. Meu espanto me parou diante da entrada, mas a minha presença projetava sombras, mas a minha respiração de quem chegou andando produziu tanto ruído naquela capela mínima que parecia imensa, que o homem me viu, e me viu longamente.

Naquela hora o meu padecimento pareceu tão diminuto, minha solidão, algo até de se invejar. Mesmo que morresse cedo e só, não teria vivido com a tristeza de enterrar alguém. A morte é algo que sobrevém aos centenários, e “século” é uma palavra com aspectos geológicos.

Em silêncio tratei de assinar o livro de condolências. Abismado percebi que, embora cada página coubesse mais de trinta, a minha garranchosa firma era somente a quinta. As duas eu primeiras eu facilmente identifiquei como políticos, presenças de cortesia, provavelmente breves.

Não disse nada. Já sou mau com as palavras quando nem quero. Mas minha presença já bastava. Eu já podia simplesmente dar a meia volta e seguir para o refúgio de meu próprio infortúnio.

Nada disso aconteceu, porém, pois minha presença inesperada parecia ter sido muito ansiada. Se não a minha, a de qualquer ser humano com ouvidos. O homem se levantou, veio com um cumprimento ossudo e cheio de calos e puxou para fora.


— Obrigado por ter vindo, seja quem for.

— Sou seu vizinho.

— Como? Nunca te vi lá no meu bairro.

— Não, não falo do bairro onde você mora. Falo deste bairro aqui — e lhe apontei o edifício feio onde eu me internava cada tarde.

O coveiro preservou silêncio. Era uma bobagem estranha o que eu dizia, mas ele não quereria me ofender de forma alguma. Naquela poça de solidão eu era uma companhia.

— Aceita um café?

O pobre homem tinha se prevenido para a vinda de muita família. Havia uma garrafa de café, pães de queijo, um desses galões de água mineral. Tudo em uma cozinha ao lado da capela, um lugar limpo e com torneira para a higiene dos carpidores. Mas toda essa precaução parecia despropósito, todo o lugar parecia uma quimera. Ali estava um homem pobre enterrando sua filha, anos depois de ter enterrado a esposa. E nenhuma família, sua ou dela, viera em testemunho.

— Obrigado pelo café, ainda está quente — eu lhe agradeci sinceramente, pois como solteiro que sou não tenho bebido bom café há décadas.

— Não há de que. Olha, não se avexe, meu amigo, mas foi uma boa coisa ter vindo cá.

Pelo falar eu percebi que o homem nascera em outra terra, mas não lhe perguntei nada. Na dor da morte não há forasteiros.

— Que tragédia.

— Deus dá, Deus tira — ele disse, com esse conformismo despedaçante que o sofrimento ensina.

Pus-lhe a mão no ombro, fraternalmente. O pobre coveiro se encostou na parede, em um silêncio que me ensurdecia. Depois, com os olhos afogados, me fitou e disse:

— Ela descansou, meu amigo. Melhor assim. Melhor assim que uma vida inteira entrevada, como haveria de ser.

— Tem razão, meu amigo, a morte é uma forma de liberdade, quando não há mais esperança. Seja forte, siga em frente.

— Não, não vou seguir.

Fiquei mudo de espanto:

— Vai se matar?

— Não sei ainda, mas não vou seguir. Olhe para mim: já tenho mais de quarenta anos, passou minha saúde, passou minha juventude, passou minha força de homem, morreu minha mulher, morreu minha filha única. Sobrei sozinho e pobre, a dois mil quilômetros de casa. Nem minha família pôde vir. Por que seguir?

— Solidão, meu amigo, é algo com que a gente se acostuma.

Era mentira, eu sabia. Mas era melhor dizer isso do que concordar com ele que era melhor meter logo uma bala no crânio. E eu concordava, mas tinha medo.

— Como você decidiu entrar? Por que nesse velório?

— Olha, não sei. Acho que é porque eu tinha reparado que você levava flores, todo dia, a um mesmo túmulo. Por causa disso eu prestei atenção em você, lembrei da sua cara. Daí passei e te vi ao lado de um caixão na capela vazia. Foi isso. Não foi por coerência, foi loucura mesmo.

Ele me olhou longamente, tentando decifrar minhas palavras de poeta, tão distantes de sua realidade dura, e por fim disse o que podia dizer, dadas as circunstâncias:

— Meu nome é Antônio. Antônio Malaquias de Jesus. Obrigado por ter vindo, Celso.

— Como sabe o meu nome?

Ele nem chegou a me responder, porque instintivamente levei a mão ao peito e me dei conta de que, outra vez, esquecera de tirar o crachá antes de sair do serviço. Esses esquecimentos eram cada vez mais frequentes, preocupantes.


Na manhã seguinte, antes de seguir para o trabalho, passei na capela para o último cumprimento no meu novo amigo. O sepultamento estava previsto para as sete da manhã, evitando o calor nojento do dia.

Lá estava o pai fechando as travas do caixão da filha, ajudado por dois outros funcionários. Fui a quarta mão para empurrar aquele carrinho tão leve. A menina parecia pesar menos que palha.

Diante do jazigo estava aberta uma segunda gaveta, já atapetada em cal viva. Rapidamente o caixão foi depositado nela, e começaram a assentar tijolos na entrada. Terminada a sina, Antônio e eu saímos para o primeiro bar e dividimos uma garrafa de cerveja.

— A essa hora da manhã. Mas é preciso lavar da garganta tudo isso que foi ficando atolado com o tempo, Antônio.

— Não me importa, Celso. Não tenho nenhum parente e nenhum amigo que possa ficar espantado por eu beber a essa hora, no dia do enterro da minha filha. A solidão é um tipo de liberdade, você tinha razão mesmo.

— Já decidiu o que vai ser? — eu tentava ajudar a planejar, fosse com balas, veneno ou uma corda.

— Já decidi. Mas ainda preciso pensar em quando.

— Aparece lá em casa hoje à noite. Vamos jogar um baralho e pensar nisso.

— Vou lhe contar uma coisa, homem. Quando minha mulher morreu eu não tinha dinheiro para pagar a sepultura. Foi posta na terra, e ali teria ficado se logo depois eu não tivesse feito o concurso público da prefeitura e sido aceito. Foi meio que por acidente que eu me tornei coveiro, mas eu gostei da coincidência, porque com ela eu consegui salvar minha querida Carlinha de ser jogada na vala comum do ossuário. Gastei muito dinheiro, passei muitos apertos.

— Mas valeu a pena.

— Valeu nada. O dinheiro que gastei nesse túmulo bonito e em tanta flor, esse dinheiro bem dava para ter tratado mais da minha filha, coitadinha.

— O que aconteceu com ela?

— Deu uma doença ruim, você sabe. Soube tarde, não tinha mais remédio.

— Então era inevitável.

— Eu podia ter percebido antes, se não tivesse cabeça só para pensar na Carlinha. Agora nem tenho uma e nem a outra.

— E vai se matar por isso? — perguntei-lhe, sentindo-me seguro porque já estávamos na rua, longe do bar e de ouvidos curiosos?

— Não, não vou me matar por isso só. Vou me matar porque a morte é um tipo de liberdade.


Na hora exata em que ele disse isso, não me pareceu nada mais do que uma justificativa qualquer de homem desesperado. Disse-lhe algumas palavras de conforto, bati-lhe no ombro como amigo, e fui trabalhar achando que, passados os cinco dias de luto permitidos pela lei, lá estaria ele de novo, com seus buquês coloridos indo render homenagem a amores falecidos.

Mas não foi assim. Quando voltei de tarde havia outro velório solitário, desta vez o de Antônio Malaquias de Jesus, que não suportara a culpa e nem queria a dor. Desta vez o enterro tivera mais que quatro nomes, o meu ficou depois do décimo. Uma mulher, que parecia a imagem feminina do esqueleto dele, era a única figura naquela capela, e outra que também parecia estar morta.

Antônio parecia estar em paz, tanto quanto se pode parecer assim depois de uma queda de oito andares. Assinei o livro de presenças e saí rapidamente, aproveitando-me que o pudor daquela mulher a impedira de me abordar.

Na solidão de meu quarto, mobiliado apenas por meu colchão ortopédico, fui dormir outra noite miserável.

Já deitado, contando moscas no teto, por falta de carneirinhos, me sobreveio a constatação: ele não se matara por coisa qualquer. A morte é uma forma de liberdade, esta ideia originalmente fora minha, que a surrupiara de Castro Alves, tão baiano quanto Antônio, mas afastado dele pela instrução escassa que em vida ele tivera.

Meu coração acelerou como nunca: eu me tornara um assassino. Em vez puxar gatilhos, lançar dardos ou brandir punhais eu expelia vocábulos venenosos que impeliam corpos para além de beiras de abismos. Era isso que me restava, era isso a que fora reduzido. Era o meu final, embora não fosse o que esperava. Não seria pela doença do corpo, mas pelo verme que devora a alma.

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