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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

A Virgem do Sabá

Publicado em: 25/07/2014

Conto de horror, parte dos “Mythos Mineiros”, baseado, em linhas muito vagas, em uma sinopse inédita deixada por Clark Ashton Smith intitulada “The Queen of the Shabbat”.

Jovita embalava a menina nos braços e Jerônimo as contemplava, entre embevecido e desconfiado. Lembrou da noite em que a conhecera, não teve receios nem remorsos — sentiu-se, na verdade, cheio de orgulho de ter sido tão homem e recostou na cama, arfando o peito como se os pulmões inflassem dentro de uma estreita gaiola enferrujada e dezenas de navalhas subissem com a respiração. Fechou os olhos, ignorou o cheiro dos remédios e dos chás, e sentiu-​se de novo na noite da Serra dos Caramonos.

A noite era fresca e a mata conservava um silêncio agradável. Apenas ao longe, muito longe, ouvia-​se a passagem dos carros na distante curva de Camargo. Os faróis deles, luzindo no fim de uma distância imensa, como estrelas no fundo do céu, serviam como única prova de civilização naquele canto do mundo.

Mas logo Jerônimo ultrapassaria a crista do Pico dos Caramonos e deixaria para trás aquela pálida visão de atividade humana. Restaria diante de si apenas o ondular escuro das serras tão logo as cidades dormissem e restassem apenas suas constelações semeadas no lençol frio da terra e ele se sentiria seguro.

Pela quinta vez no ano Jerônimo invadia os limites da Fazenda Caramonos em busca de um ganho adicional, o que costumava fazer sempre que a renda do trabalho parecia pouca para o fim do mês. Isto era sempre à noite, não por receio de que os donos lhe fizessem qualquer mal, mas pela vergonha do próprio ato, filho que era de uma família de princípios, tricentenária e religiosa. Sua avó índia teria vergonha de vê-​lo invadir a mata sem cerimônias, correndo o risco de ser abatido pela seta de um curupira, para roubar palmito e negar vida a uma bela palmeira.

A fazenda estava abandonada desde antes de qualquer lembrança de sua infância. O proprietário vivia na cidade. Era parente de metade da família Rodrigues, fundadora do município de Itabaté, mas trabalhava a dia para os outros e nunca visitava mais as suas terras. Diziam que não voltara a pôr os pés nelas desde que enterrara do pai, morto viúvo e ainda jovem. Abandonara-a dizendo bobagens, temendo que ali houvesse algo que devorava a vida do homem, algo que extinguira o seu galho da família e que espreitaria quem lá fosse — e Jerônimo nunca esquecia esses boatos, mas mesmo os temendo sempre eles não o impediam de entrar mais uma vez, de até mesmo aventurar-se em torno da sede arruinada.

O abandono fora criando uma atmosfera fantástica no lugar. As cercas enferrujaram e apodreceram, o pasto se cobriu de ervas, de arbustos, e logo de árvores. A casa secular fora arrombada pelo gado e pelos animais da mata, as telhas foram reviradas por morcegos e tempestades, o madeirame apodreceu no tempo, ervas cresceram nas gretas dos pisos. No terreiro da sede o trator Fordson, dois caminhões International e uma caminhonete Studebaker foram entregues à ferrugem e estavam cobertos de ervas. Nos cinquenta anos desde a mudança de Rui Rodrigues para Itatinga crescera um pé de canela através da carroçaria da Studebaker, até romper pelo teto, e os dois International estavam tão verdes de ervas que pareciam monstrengos de um pântano assombrado. Na ausência do dono, o maior dos perigos fora, nas primeiras décadas, o gado bravio. Mas deste os ladrões de gado e as doenças deram cabo em pouco mais que uma geração. Bem, pelo menos era o que pensavam as pessoas racionais. Para as outras, porém, havia outros perigos lá, que não se deve mencionar. E reses de espécies inauditas que nenhum ladrão roubaria.

Havia décadas que Rui Rodrigues não dizia mais nada dos motivos de sua vinda para a cidade. Preferia perder a amizade a fazer uma confidência, e já as perdera quase todas. Restava à gente do lugar criar histórias sobre os seus motivos, e havia tantas quanto seus contadores. Essas teorias tinham de se basear nos murmúrios dos antigos e nas discutíveis lembranças que tinham sobre as palavras que Rui Rodrigues chegara deblaterando, com olhos vidrados, boca espumando pelos cantos, ressequida por longas horas de correr pelas estradas sem parar para tomar água.

Acostumado ao trajeto, Jerônimo já descia a trilha reta pela face do pico, em direção ao baixio onde o brejo se unia à mata virgem, e onde taboas e lírios ocultavam o tremedal, tornando perigosa a entrada de incautos, quando percebeu a luz incomum que tremeluzia no topo de uma colina baixa mais ou menos no meio daquela grota. O tremular da luz não era fogo fátuo e nem ilusão, e nem tampouco um princípio de incêndio causado por um raio. Na luz vermelha das labaredas ele pareceu divisar formas que dançavam. A pele eriçada de medo pareceu fazer-​se toda ouvidos e logo ele escutava distantes murmúrios trazidos pelo mesmo vento que lhe arrepiava os pelos das costas.

Mas a curiosidade era maior que o automatismo do medo, especialmente aconselhada pelo orgulho de caçador de tesouros e amigo do alheio. Caminhando com a suavidade dos que sempre viveram em contato com a mata, aproximou-​se da colina, sua conhecida, pensando em ocultar-​se por trás de uma grande pedra que havia à sombra de centenários jacarandás, e de lá observar o que acontecia. Enquanto se aproximava, deu-​se conta de que muitas vezes passara por aquele canto da floresta, ao pé daquela mesma colina, mas nunca a percorrera. Que espécie de receio subconsciente o detivera?

Lembrou mais uma vez da avó índia, com quem, por azar, não aprendera a falar. Ela aparecia diante de si, como em um sonho, lhe dizia palavras que ele mal compreendia, e ele afastava a visão, como a uma teia de aranha sobre seus olhos. Tinha de afastar a língua trancada dos mortos e viver entre os vivos.

Logo estava tão perto que finalmente pôde ter a certeza de que realmente havia gente a dançar e cantar em torno da fogueira, produzindo um alarido curiosamente baixo. Quando chegou ao fundo do vale, para contornar a colina, percebeu que as macegas e arbustos toldavam-​lhe a visão do topo, impediam antecipar o que ocorria em torno das labaredas. Teve de subir por outro barranco e mais outro, até alcançar, finalmente, um lugar que lhe permitia ver o que acontecia. Lá se instalou entre as pedras para olhar. Nesse momento teve, pela primeira vez, a dimensão de algo muito mais monstruoso do que supusera.

Em torno da fogueira que crepitava acima das vozes, havia um círculo de pessoas nuas, mulheres e homens de várias idades, dançando uma macabra ciranda e cantando versos incompreensíveis, mas versos, posto que rimados e ritmados como uma canção do inferno, na língua do próprio Belzebu. À esquerda de si, à margem da clareira que o machado e o frequente ritual tinham aberto entre as plantas, em um improvisado trono de pedra, estava um abjeto casal que presidia aquela cena digna de um pesadelo de inquisidor: um homem nu do peito para baixo, envolto em uma capa de pele e de face oculta por um elmo em formato de cabeça de bode. A sua mão esquerda segurava um báculo adereçado com inomináveis penduricalhos e a direita repousava sobre os ombros de sua consorte, uma jovem pálida, que parecia dopada ou em transe. A ciranda terrível girava em torno da fogueira, cantando aqueles versos tétricos e o cara-​de-​bode acariciava gentilmente, com as pontas dos dedos, os ombros nus da sua companheira.

Hipnotizado pelo ritmo simples dos versos e pelas figuras, algumas belas, que dançavam a encenação infernal, Jerônimo não conseguia perceber detalhes sutis. E assim ficou longos minutos, até que um ínfimo suspiro da jovem no trono de pedra o alertou novamente, e nesse instante ele notou o que lhe permanecera alheio até então: a moça ao lado do cara-​de-​bode era Jovita, filha de um vizinho rico, amor seu de infância, flor distante demais para ser colhida por suas brutas mãos. Mas ali estava, ao alcance de mão ainda pior e destino ainda mais brutal.

Esta percepção o atingiu como uma cólica, uma dor, um aperto profundo e longo, um abraço gelado que não o largaria. Seus olhos pareceram abrir-​se finalmente, e começou a enxergar coisas que antes surgiam borradas como uma cena vista entre lágrimas, como a visão de quem está detrás da cachoeira, como os morros distantes, azulando no calor da tarde sob as nuvens. Notou vozes familiares, corpos de talhe familiar, cicatrizes em braços, formatos de pés. Notou a blasfema ereção que o cara-​de-​bode ostentava a contemplar aquilo tudo: seu imenso, quase monstruoso pênis estava ereto e luzia como se lhe houvessem untado com algum tipo de unguento dos infernos. Uma raiva profunda começou a ferver em seu estômago. Subia como um arroto ou azia, mas era só ódio fermentado. Um ódio sem direção, sem esperança, que apenas borbulhava e queria explodir.

Os dançarinos interromperam a ciranda, beberam fartamente de canecos postos diante do trono de pedra e retomaram seus movimentos, que então pareciam desengonçados como o tropeçar de um animal bêbado. Até que finalmente ficou claro que estavam mesmo sob o efeito de algo da bebida, e começaram a cambalear e hesitar, e por fim se deitaram na grama baixa e se entregaram a toda sorte de hediondezas que ofendem a Deus e à natureza. E sempre o cara-de-bode acarinhava o ombro de Jovita enquanto sua verga acenava para frente e para trás, como se aprovasse tudo aquilo.

Quando o cara-​de-​bode se ergueu do trono, ostentando sua blasfêmia como um troféu diante do crescente que singrava o céu, a raiva explodiu. Jerônimo largou-​se de seu esconderijo e entrou na clareira, munido apenas do porrete com que se firmava pelas trilhas, e desferiu tantos e tamanhos golpes em tudo o que se movia diante de si que o respeitável pedaço de goiabeira se esfacelou — mas não antes de partir várias costelas, arrancar diversos dentes e instalar o pânico entre os presentes. Vendo-​se desarmado, tomou o próprio báculo do cara-​de-​bode e o desferiu num golpe circular que terminou de derrubar os últimos dançarinos que tentavam ainda se erguer para enfrentá-​lo. Nesse momento percebeu que o cara de bode, a quem já fustigara antes de roubar-​lhe a arma que portava, conseguira erguer-​se e recuperara uma arma de fogo dentre o amontoado de suas roupas.

— Pare, seu grande imbecil! Pare ou lhe ponho chumbo quente nos cornos!

Jerônimo então deixou cair o báculo e se conformou com o destino — imaginou-se morto, heroico, penetrando no céu em paz. O cara de bode lhe mandou ajoelhar-​se com as mãos à cabeça. Um dentre os dançarinos veio com uma corda e lhe amarrou os pulsos e os pés.

— Você estragou o nosso Sabá, ó miserável. Esperdiçou semanas e semanas de preparo. Devíamos matá-​lo aqui mesmo e seu sangue estaria sobre a sua própria cabeça!

Os outros também começaram a se erguer do torpor da beberagem e das porretadas, entre xingamentos inomináveis e gemidos de dor. O efeito dela parecia diminuir na ausência de música, ou de alguma outra energia mística que se rompera com os golpes da vara de goiabeira. Nem todos conseguiram se erguer, porém, pois os generosos golpes haviam deixado alguns bem estropiados. Havia sangue em profusão escorrendo de certos corpos, respingando pelas folhas de relva. Alguns gemiam, outros apenas vociferavam imprecações a todas as potestades dos nove círculos dos infernos.

— Esse é o cão que nos importunou! Vamos matá-​lo!

— Não, irmãos! Não basta derramar o sangue deste cachorro! Ele tem que consertar o que fez.
Um murmúrio de aprovação percorreu a multidão.

— Por hoje a noite é perdida! Nosso sacrifício não será mais propício. Vamos levar este cão conosco até a próxima lua crescente.

Puseram um saco de aniagem sobre a cabeça de Jerônimo e o atiraram em uma carroça puxada por dois bois. Os que não conseguiam caminhar por causa dos golpes de vara de goiabeira se sentaram sobre ela e os outros seguiram a pé. Obviamente não era possível saber para onde iam, mas Jerônimo, naquele momento, estava mais preocupado com os contínuos chutes, socos e mordidas que os passageiros lhe davam, conforme sua capacidade remanescente.

— Traste! Estrupício! — gritavam-​lhe.

A viagem foi assim sofrida, mas não demorou tanto quanto Jerônimo temera. A proximidade lhe sugeria uma preocupante possibilidade de que as vagas semelhanças não fossem mais que coincidências.

A escuridão não terminou depois que o carro parou. Ela se instalou como uma dor na cabeça e uma exaustão dos membros. Quando despertou, viu apenas paredes em torno de si. Paredes de pedra. Acima de sua cabeça, a uns três metros de altura, as tábuas de um assoalho. Passos de pessoas. Vozes confusas. Muita gente. Uma discussão em voz baixa. Fingiu ainda estar adormecido, até que finalmente o silêncio se instalou.

No calor do que devia ser o meio da tarde, um alçapão se abriu. Uma cara de bode se enfiou por ele. Aquela expressão animalesca parecia ainda mais grotesca na luz da tarde do que parecera sob a fraca lua crescente. O presidente do Sabá segurava a máscara com ambas as mãos.

— Está com fome, cão?

Jerônimo não respondeu. Não queria implorar nada que viesse daquelas mãos imundas que haviam tocado, mesmo que brevemente, o corpo de Jovita. E se não fossem somente as mão? Ó infernos!

— Vou lhe dar um pouco de ração, para que fique vivo até a próxima lua.

Dizendo isto o cara de bode soltou a mão direita da máscara e estendeu-​a para pegar alguma coisa que estava ao lado do alçapão. Atirou para baixo umas broas endurecidas, dois pedaços grandes de carne de panela e uma garrafa de metal cheia de água, cuja tampa de pressão se desprendeu quando caiu ao chão.

Jerônimo não deu atenção a nada do que caíra dentro de seu cubículo. A não ser quando notou que também caíra a máscara, num momento de descuido de seu dono quando lhe atirara a comida. Olhou para cima rapidamente, e teve tempo de ver, num relance, a cara nariguda e odiosa de João Ferraz, grande fazendeiro e grande filho da puta, dono de metade dos votos da cidade, para dá-​los a quem quisesse, e empregador dos melhores gatilhos num raio de dezenas de quilômetros.

A cara desapareceu da abertura do alçapão quase instantaneamente, deixando um resto de dúvida, destas que retinem na mente por muito tempo, porém Jerônimo se fixou na máscara, que o olhava obliquamente, caída no chão, como a decapitação dum demônio. Trouxe-​a para o trecho mais claro do alçapão e começou a contemplá-​la. Que estranha espécie de encanto aquele arremedo de cabeça de animal possuiria, para transformar pessoas comuns em animais que se acasalavam de um modo tão blasfemo sob o céu!

Enquanto contemplava os olhos oblíquos daquele arremedo tosco de um Bafomé alheio à América, distraiu-​se de tal forma que não percebeu a queda da tarde rumo a outra noite. Ouviu apenas a fome, que o obrigou a roer uma das broas, morder um naco da carne — que afinal estava saborosa — e lamentar a perda da maior parte da água. Parcialmente satisfeito, deitou de lado a máscara obscena e se reclinou na palha para tentar dormir, enquanto pensava num meio para sair daquela enrascada em que se metera por causa de seu amor a Jovita, nunca correspondido.

No dia seguinte notou que a máscara não estava mais na improvisada masmorra. Poderia haver alguma porta por onde alguém entrasse sem ser notado? Ou teria alguém descido ali durante seu sono para recuperá-​la? A segunda teoria era ridícula demais: não fazia sentido alguém descer por uma corda, com todo o ruído e o risco envolvido. Era mais provável haver uma porta secreta em alguma parede.

Teve muito tempo para pensar sobre isso, e sobre muito mais, ao longo dos tediosos dias seguintes. Isolado no escuro daquele cubículo, esperava, tenso e cheio de ira, pelo momento em que o levariam prisioneiro, para submetê-​lo a alguma suprema indignidade. Perdeu a conta dos dias que passou na masmorra improvisada de João Ferraz. Comeu pouco, para manter-​se vivo e alerta, mas comeu com repugnância aquela comida que talvez tivesse feitiços e eflúvios que não convinham a um homem de bem. Comeu-​a entre imprecações e rezas de exorcismo, lembrando o rosto enrugado da avó índia pega a laço no mato e as novenas em latim da avó portuguesa que o criara e lhe ensinara a falar.

Já estava quase pronto para abraçar seu destino quando despertou de sonhos intranquilos sentindo alguma coisa quente roçando sua pele. Virou-​se como quem teme a presença de um íncubo, mas percebeu que era só Jovita que se deitara ao seu lado durante o sono por algum motivo. Jerônimo se levantou como quem é tocado por uma serpente e ela se sentou rapidamente quando ele o fez. Lá estava ela, vestida com uma roupa caseira e calçada de chinelas baratas. Trazia os cabelos dourados caindo pelas costas e o pequeno rosto sardento parecia ainda mais delicado e adorável na penumbra da masmorra.

— Jovita!? O que faz aqui?

— Vim para ti. Sei que me desejas.

Jerônimo baixou os olhos e disse lentamente as palavras “você, Jovita?” Disse-o de uma maneira tão compungente que ela entendeu esse pronunciamento tão breve como um relato sobre toda a complexidade do universo. Existe um certo talento disso nas mulheres, uma coisa meio sobrenatural de ler mentes, de enxergar entrelinhas.

— Sacrifício de uma virgem, Jerônimo. Mas tu podes me salvar a vida, e tu me queres, sempre soube.

— Salvar a vida para perder a alma?

— A alma já está morta, Jerônimo. Sem esperança a não ser na misericórdia de Deus. Mas tu, tu podes salvar-te.

Ela então mostrou a corda que trouxera. Estava amarrada em algum lugar fora do alçapão e ficara escondida entre as sombras e entre as palhas durante a conversa.

— Vamos… Hoje é a noite do sacrifício. Tens de fugir, ou eles o matarão.

Mesmo não crendo na salvação, Jerônimo teve a esperança de pelo menos lutar. Não ficaria mais deitado como um porco na serva à espera do punhal. Subiu pela corda com a agilidade de um macaco e depois puxou-​a para cima. Ela então desamarrou a corda da parede e enrolou-​a em torno dos braços, puxando a manga do vestido sobre ela. Quem a visse teria a impressão de que tinha algum grave inchaço de um dos braços.

O alçapão ficava exatamente no meio da casa, sob uma espécie de salão central. Estavam, claro, na casa de João Ferraz. A casa estava deserta, ou parecia estar. Apenas os grilos soavam no mato, e raros vaga-​lumes passeavam nas trevas. Era fim de madrugada e a lua quase cheia já estava baixa no horizonte. O assoalho de tábuas rangia com os seus passos, gemendo como almas penadas. Não, não poderia mesmo haver ninguém na casa, ou estariam todos despertos àquela altura. Talvez fosse cedo, talvez estivessem ainda procurando por alguma coisa que faltasse.

— Aonde vamos?

— Espera!

Estavam próximos à porta da frente e tinham ouvido passos. Jerônimo estacou, já com um tambor de circo batendo doido dentro da boca, mas os passos continuaram em direção aos cômodos que ficavam mais abaixo na direção do rio, onde dormiam os empregados fixos da propriedade. Jovita então lhe entregou o rolo de cordas de algodão.

— Amarra-​me!

— Não vem comigo?

— Não posso, acredite-​me!

Movido mais pela vontade de salvar a própria pele do que por qualquer afeto humano, Jerônimo fez que entendeu o que ela queria dizer e deu de ombros, no conforto da covardia. Ela estaria salva, e ele ganharia algum tempo para fugir enquanto durasse a discussão.

Atada Jovita, descerrou o trinco simples da porta principal, desceu as escadas devagar, temendo que os degraus rangessem também, e tão logo se viu no terreiro, começou a correr, correr como jamais correra em toda a sua vida. Enquanto corria, a sua mente se nublou de terríveis pesadelos, movidos pela honra ferida e pelo remorso. Por fim a verdade venceu sua tentativa de desculpar a própria vergonha e compreendeu que Jovita se sacrificara por sua salvação. O maldito feiticeiro acharia alguma forma inominável de compensar o sacrilégio que Jerônimo cometera, uma semana antes, contra o tenebroso Amo.

O ar começou a lhe faltar, os pulmões ficaram duros como foles de couro, a respiração passava pelas suas narinas cortando a mucosa com um calor torturante e os nervos das pernas doeram. Parou para tomar fôlego, bebeu de uma nascente à beira da estrada, olhou em volta. Cada montanha parecia ter mil olhos. Era como se o mundo tivesse se transformado, todo, em uma grande masmorra ou, melhor, uma espécie de galé cujas grades eram povoadas de vigias sobrenaturais. E tudo isto o tensionou até estar tão rígido que se o tocassem soaria como um instrumento, em um acorde pegajoso de ira e medo.

Então se deu conta de que seguia no rumo aproximado da Serra dos Caramonos e da fatídica fazenda, onde estava a grota que tinha a colina onde encontrara Jovita, seu destino e perdição. Pensara em fugir, mas se atirava nos braços do futuro, inútil tentar enganar as Potestades Abissais. Suspirou, resignado, e quis cumprir o seu destino.

A mata da fazenda nunca parecera tão assombrada, mesmo na luz quente daquela manhã de verão. Cada capinzal se comportava como uma moita de navalhas e cada árvore parecia mover-​se sobre a terra para cercá-​lo. Se não fosse acostumado desde menino, e se não conhecesse de tantas vezes cada traição que habitava suas sombras, poderia ter se perdido. Mas esse não foi o seu fim.

A noite caía como um capuz sobre o mundo e ele se viu perdido, não muito longe do último lugar do mundo onde gostaria de estar. Teve fome, comeu das frutas da estação, limpas e seguras, mesmo naquele lugar encantado. Ao terminar de comer sentiu voltar-​lhe ao sangue sua força de homem, um calor que irritava os nervos e turvava os olhos. Ouviu a voz de sua avó índia, grave e pausada, cuspindo palavras na velha língua que não aprendera:

Okanhanga. Kunhãíté i îukápi rama.

Então teve um medo imenso, desses que enchem de coragem o coração dos homens. Ergueu o facão e cortou uma palmeira jovem, de caule ainda flexível. Lembrou-​se das histórias que a sua mãe mestiça lhe contava, dos tempos antes que os brancos chegassem. Sentiu crescer dentro de si o valor de uma raça antiga, pisada e humilhada. Manuseou o facão com agilidade, extraindo da palmeira a lasca adequada para um arco de guerra. Aplainou-​o com a faca de caça, preparando cunhas para prender a corda e então tirou do embornal um pedaço de linha de pesca da grossa para completar. O arco era de manejo trabalhoso, mas arremessaria uma flecha com a força de um projétil. Um arco de homens, não de meninos. Buscou um taquaral e escolheu galhos longos, finos e firmes. Cortou dez flechas que apontou em serra, para que os infelizes não as pudesse arrancar facilmente. Fez fogo usando galhos secos e o isqueiro, endureceu as pontas nas chamas até pararem de chiar. E para terminar sua obra, espetou cada uma delas em um sapo venenoso.

Com a noite já próxima, cobriu-se de lama da beira do rio e escondeu-se entre ramas e folhas, para andar por entre as moitas sem ser visto. Terminado o disfarce teve vontade de rir, lembrando do causo do Bicho Folharada, que a mãe contara uma vez, na varanda da casa grande, à luz do lampião. Jerônimo gostara, mas os filhos do fazendeiro haviam zombado da ingenuidade dele, da história tola e até de se sua mãe de olhos rasgados e rosto redondo. Então tivera ódio deles, mas também de si. Tivera vergonha. Mas naquela noite se sentia o próprio Bicho Folharada, pronto a aterrorizar meninos brancos crescidos sem respeito pela terra.

Com a noite enfim instalada, procurou um lugar de onde pudesse contemplar o topo da colina da fogueira. Escolheu outra colina mais alta, uns cem metros ao sul. Sobre ela, em uma formação rochosa, deitou-​se em tocaia sob as bênçãos de Iandé Iara e de Tupã Sy. Fez o sinal da cruz com a mão esquerda e começou a espera.

Os participantes do Sabá chegaram, pareciam restabelecidos da surra de vara de goiabeira. Possivelmente se passara um mês, pois a lua estava novamente começando o quarto crescente. Os recém chegados acenderam a fogueira e começaram a cozinhar as poções malditas, mas o trono de pedra seguia vago. João Ferraz só chegou muito tempo depois, trazendo Jovita pela mão asquerosa.

Com a ajuda de seus seguidores, despiu-​se e enfiou a cabeça na grotesca máscara de bode. Depois forçaram-​na a se despir também e a assentaram sobre o trono de pedra, coberto com um couro de animal peludo.

O ritual começou, a luz da fogueira iluminava claramente o trono. Jerônimo poderia, e deveria começar. Desceu da pedra e começou a se esgueirar por entre as macegas, sutil como um caçador índio na margem do rio, temeroso de espantar as garças.

Quando as bebidas pareciam ter efeito, e todos, como cães, já se refestelavam pelo chão, lambendo-​se, cheirando-​se e esfregando-​se em contorções abomináveis, quando a blasfêmia de Ferraz parecia evidente e a sua mão imunda tentou alcançar o corpo esguio de Jovita como da outra vez, Jerônimo lembrou-​se novamente da severidade da avó e se arrependeu de não ter aprendido a falar com ela. Envergonhado diante da natureza, apenas balbuciou, como criança: “Tupã me guie a mão e o coração.”

Disparou a flecha com a perícia que nem sabia ter. Ela assobiou pelo ar e penetrou o peito de João Ferraz como uma faca quente na manteiga. Ele levou às mãos instintivamente à flecha, num gesto de arrancá-​la, mas a ponta em serra se agarrou a ossos e entranhas de uma forma que não cederia, enquanto o veneno lentamente entrava.

Os dançarinos demoraram a ver o que ocorria, entretidos em abominações. Quando perceberam e se ergueram, Jerônimo flechou mais, produzindo cinco rápidos cadáveres. Duas erraram o alvo, as outras ele guardou para uma eventualidade. Os malditos, então, se assustaram como se as trombetas do Juízo tivessem sido sopradas, como no terrível quadro que pendia da parede da casa materna. A Onipresença de Deus se fizera entre eles, abatendo ereções e destruindo a ousadia dos canalhas.

Começaram a correr em todas as direções, correr por suas vidas, sem nem tentarem perceber de onde as flechas vinham. Jovita também correu, sem nem lembrar das roupas. Alguns dos dançarinos, sem muito conhecimento da terra, se embrenharam entre os lírios e taboas e foram tragados pelo lodaçal. Outros pegaram estradas que os levariam mais para dentro da mata e seus perigos — seria bom se Curupira existisse, pensou Jerônimo. Eram como os demônios da pintura tétrica que mostrava o Deus sisudo que condenada os pecadores às tormentas eternas. Apenas Jovita pareceu correr com mais calma, divergindo da sarabanda infernal de gritos, e tentava seguir na direção da Fazenda Ferraz. Mas não conseguia correr muito bem e nem parecia ter muito fôlego. Ele a alcançou facilmente.

— Pare de correr! Não tem mais perigo!

Ela se acalmou então, olhando com os olhos cheios de um amor que nunca estivera neles durante os tantos anos em que Jerônimo a sonhara.

— Oh, foi… foi você?

Ela se rendeu em seus braços e Jerônimo sentiu contra o peito os seus minúsculos seios, rijos como mãos fechadas, com mamilos pontiagudos como setas. Tentou abraçá-​la e suas mãos se perderam entre os cabelos que revoavam à brisa, emaranhando os fios nos calos de seus dedos.

A Fazenda Ferraz estava dormindo em paz quando chegaram. Jovita encontrou a chave escondida dentro de um vaso de flores no alpendre e abriu a porta sem fazer ruído. Dentro da casa reinava o silêncio precário. Logo algum dos capangas voltaria do mato e os dois sabiam que nem Deus os livraria. Principalmente depois que o resto da família, ou o resto da irmandade, soubesse do ocorrido.

Tudo que fizeram foi recolher alguma comida da despensa, o pouco dinheiro que puderam encontrar nas gavetas destrancadas e roupas para Jovita usar.

— Precisamos de um cavalo, querida!

— Precisamos de mais do que isso, querido! Nenhum cavalo nos salvará.

Ela então exibiu uma chave de carro que surrupiara do prego atrás da porta. Havia um Corcel estacionado num canto do terreiro:

— Sabe dirigir? Já dirigiu um desses?

— Sei não. Você sabe?

— Claro. Onde você viveu esses anos todos, Jerônimo?

Ele teve vergonha de responder, vergonha da vida miserável. Entraram no carro, ela o ligou e em três minutos ganhavam estrada, acelerando em direção ao sertão cada vez mais ignorado enquanto a lua se escondia entre gordas nuvens que prometiam tempestade. Perto do amanhecer, chegaram a um lugar de onde já viam o asfalto — e ainda não havia chovido. O motor do velho Corcel, de tão exigido, começava a engasgar.

— Melhor deixar esse carro e seguir de ônibus. Ele não vai durar muito. Desce que eu vou me livrar dele.

Jerônimo desceu, trazendo as trouxas que tinham. Ela fez um audacioso retorno em cavalo de pau e embicou o carro para o rio. Não havia cercas naquele trecho, só pedras a vencer. Ela deixou o carro em ponto morto em uma ribanceira e o viu cair desastradamente na água funda daquele remanso como um cadáver precoce. Olhando as marcas de pneus na poeira da estrada, Jerônimo e apenas em pensamento desejou que chovesse, que chovesse muito. Quase como se lesse sua mente ela disse a mesma coisa.
Cerca de duzentos metros depois entrariam na estrada principal. Tomariam o primeiro ônibus, para qualquer lugar. Jerônimo ainda tinha dinheiro em seus bolsos. Só tinha medo de sua aparência horrível, coberto ainda de lama e de folhas.

— Tenho de me limpar, Jovita.

Ela finalmente se deu conta do estado lastimável dele.

— Você até parece o Bicho Folharada…

O comentário doeu em sua memória, mas Jerônimo não disse nada que denunciasse mágoas de um passado que talvez ela nem lembrasse.

Depois de se banhar na água do mesmo rio que engolira o carro, e depois, de novo, na chuva torrencial que caiu, Jerônimo finalmente parecia até um pobre pescador surpreendido no temporal. Só Jovita conseguia luzir diferente, e estranhamente. Mas ela não se incomodava com a escuridão que voejava em torno da cabeça confusa dele. Quando finalmente se sentaram no banco de trás do ônibus, deitou a cabeça em seu ombro e sorriu para o homem bem-vestido que os olhava com surpresa e asco no rosto.

O ônibus lagarteou pela estrada e ninguém o perseguiu. Em algum lugar o rastro se perdera, ninguém os queria mais, ninguém os esperava. A manhã acalmou a tensão da noite e Jerônimo teve uma rara e agradável sensação de esperança. O calor aumentou porém, o peito começou a pesar e o choro da menina o despertou das lembranças doces de um ano antes. Estava novamente doente, deitado em sua cama, ardendo em febre. Jovita o contemplava aparentando um distanciamento quase desagradável, fixa que estava nas feições da menina que mamava. “É natural que uma mãe se dedique à criança” — ele pensava, entre calafrios de febre e pontadas de dor. “Mas que amanheça logo, pelo amor de Deus.”

— Devíamos batizar logo a menina, Jovita. Já está grandinha, e há muitos perigos debaixo do céu.

Jovita resmungava alguma coisa que ele não entendia, e não lhe deu atenção. Ele adormeceu de novo, sono entrecortado de muitos pesadelos. Às vezes pesado, às vezes uma pluma, flutuou ou se espalhou sobre a cama. Em alguns momentos via o impossível, mas pensava estar bem desperto. Em outros, sonhava o cenário material do quarto, normal e pobre. A menina não conseguia dormir por causa do vento nas telhas, a tempestade ribombava à distância, mas parecia não chegar nunca.

Em um momento de sonho, ou talvez delírio, ou talvez verdade, ele sentiu um calafrio que não era de febre, mas um produto de seus nervos ao escutar, incrédulo, a cantiga de ninar que Jovita cantava para a menina, tão parecida com outras, que outras pessoas cantaram em outros dias:

Eu invoco a ti, espírito luzente,
Vem ante nós, teu povo, tua gente.
Eu invoco a ti, em forma natural,
Visível e tangível, humana e integral;
— Modesto servo do Senhor.

Eu invoco a ti, espírito potente,
Para nos guiar rumo ao poente.
Eu invoco a ti, soberano antigo
Venha, luz das trevas, amigo;
Sê benfazejo e leva-​o contigo
— Modesto servo do Senhor.

No fundo de seus sonhos estava Jovita nua no meio da pequena sala, um círculo de sal e cera de vela desenhado em torno do berço e outro em torno de si. Velas queimavam sobre os móveis, dando um ar lúgubre a todo o quarto. Ela parou de cantar e sussurrou baixinho:

Vem, senhor oculto,
Com calma e paciência,
Sem dano nem tumulto.
Vem, apossa-​te dos corpos.
Vem habitar as almas.
Pelos vivos, pelos mortos.
Mas não nos cegues,
Não nos emudeças,
Não nos ensurdeças
E nunca nos renegues.

Vem, senhor, conforme te chamo,
Sem trovejar e sem relâmpago.
Vem, senhor, conforme o intento,
Sem granizo e sem vento.
Vem, senhor, pisa minha casa
Com teus pés de ferro em brasa
E busca de nós o que é nosso dever
E leva o que é certo conceder.

Os olhos de Jerônimo ficaram pesados, pesados, e ele então se lembrou da velha avó que lhe dava conselhos de cuidados. Ela apareceu diante de si, na dignidade de seus noventa anos, e fez menção de dizer mais alguma coisa, mas para quê, se ele não entenderia. Por que não aprendera com ela a falar? Mas ela não falou, nem ele ouviu, mas ambos se entenderam, na língua dos espíritos. E não havia severidade, mas amor e dor nos olhos da velha índia, que não conseguira alertá-​lo, e agora apenas podia recebê-​lo no seio da morte.

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