Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Depois de Ler Draccon, Reli “O Alquimista” e Achei Bom

Publicado em: 05/08/2014

Muitas vezes eu lia textos de jovens autores nas comunidades do Orkut, e mais tarde aqui no Face, e ficava espantado com o baixo nível de domínio da norma culta. Com o tempo me acostumei com a ideia de que a escola inclusiva e universal que existe hoje não consegue formar um usuário pleno do idioma no mesmo tempo de antes, em troca, ela leva mais gente ao fim do caminho. Respirei fundo e me conformei com isso, mesmo suspeitando que algo não somava 100% nessa “conta de chegar”.

Mas ainda me incomodava ver tanta gente boa sendo ignorada, sem ter chance de mostrar seu trabalho. Me refiro a gente como o Srgio Ferrari, o Ronaldo Brito Roque, a Ilka Canavarro, o Felipe Holloway e outros amigos que trago desde os tempos de meus primeiros passos no Orkut. Era difícil entender que não houvesse como vingarem autores prontos e acabados, como o Holloway, que tem um estilo irônico impagável, ou a Ilka, com suas descrições perfeitas e exasperantes, ou o Ronaldo com sua narrativa coloquial nihilista, ou o surrealismo do Srgio Ferrari, que transitava entre a literatura de ficção científica, o dadaísmo e Monteiro Lobato.

Mas com o tempo as visões se foram clareando nas patas do meu cavalo, como dizia o meu xará Vandré…

Acabei de crer que não há mais espaço para bons autores, tal como não há para bons músicos. Autores que sabem escrever NÃO SERÃO LIDOS. Ou, como radicalmente disse ao Roque: ninguém será lido, mas muitos serão vendidos (saquem o duplo sentido).

E a razão para isso é simples: “eles” chegaram ao poder. Eu diria incompetentes, mas eles são competentes em muitas coisas (ainda que não o sejam em literatura): criação de redes, cultivo de amizades úteis, publicidade, marketing, etc. Houve um tempo em que os editores tapavam o nariz e publicavam Paulo Coelho, porque ele vendia e as editoras precisavam da grana. Com o tempo o mercado editorial foi se enchendo de paulo-coelhos e eles estão substituindo os editores porque conseguem publicar melhor os livros que vendem, já que não precisam tapar o nariz para se aproximarem deles.

Estou lendo uma obra de um famoso autor, que também é editor e é também uma pessoa poderosa e influente, que começou em editora pequena e agora está em uma das maiores casas editoras do país, editando e “dando a sua cara” a toda uma série de obras. E a leitura desta obra me deixa estarrecido e me fez crer que a minha ironia dita ao Roque era até otimista.

O cara escreve pior do que muitos membros dos grupos literários amadores do Facebook. Seu texto é confuso, didático, repetitivo, palavroso, sem ritmo e sem beleza. Apesar de escrever “fantasia” ele não deixa espaço à imaginação do leitor, ele “castra” o leitor.

Dizer que seu texto e confuso é ser eufemístico. Ele perde um parágrafo quase inteiro discutindo se afinal existem deuses ou não. Primeiro diz que não, depois diz que sim, depois diz que não se tem certeza, depois diz que sim, existem, mas não são cultuados. Toda uma masturbação mental que poderia ser dita numa frase: “Os deuses de — não recebem orações, o povo se lembra somente dos heróis”. Não ficou nem mais difícil e nem mais pedante, só ficou mais claro e mais curto. Acho que isto explica porque os livros da moda têm tantas páginas. Não é que tenham assunto.

Dizer que seu texto é repetitivo é fácil de provar. Em qualquer página do livro pode-se contar a mesma palavra várias vezes. Não falo de preposições ou verbos de ligação, estou falando de substantivos e adjetivos.

Ele é também palavroso. Diz que o autor deve praticar uma literatura simples, mas o tamanho de sua obra poderia ser reduzida em mais de 40% se fossem removidas as repetições e as locuções. Um exemplo, até hilário, é onde o seu herói diz que “não dará ênfase ao fraquejo” (que poha é essa?) em vez de dizer que “não hesitará” ou “não fraquejará”. Gasta vinte e cinco bytes para dizer o que poderia ser dito em 12. E esta é a regra de seu texto: perder tempo com minúcias que não servem para nada e deixar de descrever o cenário para não “cansar o leitor com descrições”. Ao mesmo tempo, devassar os pensamentos de cada personagem, sem dar ao leitor a chance de tentar imaginá-los e surpreender-se com eles, e ao mesmo tempo usar cenários vagos para “deixar espaço à imaginação do leitor.”

Quanto mais eu leio a obra de Raphael Draccon, mais encontro motivos para me arrepiar os cabelos. Pobres jovens que leem estes livros burros, e não aprendem caminhos para apreciar obras de qualidade do passado E MESMO DO PRESENTE. Pobres de nós autores, que temos de submeter nosso trabalho a autores de fantasia medieval que fazem seus reis segurarem “bastões de ouro” em vez de cetros! Isso, claro, depois de serem “lançados” ao trono (mentalmente imagino o rei seguro pelos braços e pernas e atirado por seus pajens em cima de um imenso sofá).

Além de tudo isto ele é mal informado. Tenta incluir tudo quanto é criatura exótica e esdrúxula em sua obra, mas chega a escrever errado os nomes destas (exemplo: “linche” em vez de “lich”, o que equivale a escrever “lebrechaum” em vez de “leprechaun”). Aparentemente o autor NÃO LEU, de fato, as obras que tenta citar e imitar, apenas lhes passou o olho ou leu o artigo da Wikipédia. Isso lhe dá uma pseudocultura, que não combina com o vocabulário raso do texto em geral, como no citado caso do “bastão de ouro”.

Outra coisa que me deixou espantado é que esse autor, ídolo de tantos jovens que me chamam de arrogante e convencido, escreve em um tom de livro didático. Sempre que introduz uma palavra diferente, ele a põe em negrito e/ou dar um jeito de explicar. Pode parecer incrível, mas ele se deu ao trabalho de explicar aos leitores o que é “outono” e qual a sua simbologia.

O autor, aparentemente, acha que “Prólogo” é uma dissertação sobre o livro. Coisa, talvez, de quem só leu Tolkien, e olhe lá. Normalmente o prólogo é um pedaço de história que não faz parte da narrativa principal mas a antecede e ajuda a explicar. No livro dele, o prólogo é um aritgo da Wikipédia explicando como é o mundo que ele inventou. Eu já disse que ele não deixa o leitor pensar e muito menos imaginar? E isso é literatura “de fantasia”, gente!

Dizer que o seu texto é sem ritmo e sem beleza é chover no molhado. Sua narrativa é um amontoado de lugares comuns que vão além do ridículo. Como dizer que uma personagem “assistiu de camarote” um lobo devorar a sua avó. Bem, digamos que o uso desta metáfora desgastada era totalmente inapropriado ao clima, assim como é impróprio em uma história de fantasia medieval em que não existe ou existiria ciência, falar que a personagem era hipocondríaca. Aliás, personagens não precisam de rótulos nem diagnósticos, precisam de ser mostrados em palavras. “Show, don’t tell”.

Uma marca indefectível dos autores que só leem traduções porcas de originais americanos ou ingleses é a dificuldade para diferenciar os três pretéritos — e o referido autor manifesta isso em cada parágrafo. De tal forma que fica difícil saber se algo aconteceu antes ou durante outra coisa no passado. Mas a mistura de tempo verbal vai além, misturando presente e pretérito em uma mesma frase e logo depois saltando ao futuro. É de fazer o cérebro rodopiar, e claro que isso “simplifica” a leitura, não é mesmo?

Enfim, a referida obra não é um livro “simples” para jovens adultos iniciantes na leitura. É um livro mal escrito, de autoria de uma pessoa sem cultura, que se estende muito mais do que o necessário por culpa de uma linguagem palavrosa demais e por um estilo narrativo que se incha com minúcias sem sentido, ao mesmo tempo em que sonega ao leitor informações relevantes. É um livro tóxico, que presenta tudo que há de ruim em nossa literatura e faz Paulo Coelho parecer bom (e um livro de PC, bem revisado, é bastante legível, porque o Mago, apesar de escrever mal, tem boa noção da estrutura narrativa, pelo menos melhor do que a desse Draccon superstar).

E o autor deste calhamaço, que os ianques tão apropriadamente descrevem com o termo doorstopper (segurador de porta), é quem decide quem é ou não publicado pela editora em que foi trabalhar. Ele é a régua que nos mede. Estamos todos perdidos.

Ora, dirão, você está com inveja porque ele ganha muito dinheiro escrevendo! Em primeiro lugar: não sei não. Em segundo lugar: se ganhar dinheiro justificasse tudo nossos heróis seriam Judas e Silvério dos Reis, não Jesus e Tiradentes.

Arquivado em: critica