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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em: 15/04/2021 DESDE 2010

Lobato: Um Racista

Publicado em: 22/01/2021

Uma tentativa de analisar os aspectos problemáticos da obra de Monteiro Lobato, com o objetivo de demonstrar que o autor não era somente um racista em suas convicções e formação, mas que, também, fez de sua obra um instrumento de proselitismo de suas ideias. Não se trata de uma proposta de censura à sua obra, mas uma reavaliação de sua relevância e de sua utilidade para a compreensão da brasilidade.

Este artigo é a conclusão de uma longa e madura análise que empreendi a partir da releitura da obra de Monteiro Lobato desde 2020, quando me propus a fazê-la.

Introdução

Monteiro Lobato é considerado um dos grandes ficcionistas brasileiros e reverenciado como um dos reponsáveis pelo desenvolvimento da literatura infantil no Brasil. Também é um autor cuja obra não envelheceu bem — apesar de ainda na memória afetiva de gerações.

Reler Lobato na idade adulta é um desafio que envolve o confronto com aspectos da obra que a infância não percebeu ou que foram dela ocultados propositalmente. Monteiro Lobato, sobre quem já escrevi tantas vezes (links ao final) é um desses autores que recentemente entraram em domínio público, o que ensejou um novo debate sobre sua relevância para a nossa literatura.

Cartum do Ziraldo ironizando a acusação de racismo contra Monteiro Lobato Por décadas, a reputação de Lobato como patriota e formador do caráter nacional contribuiu para que sua obra permanecesse acima de críticas. Foi somente a partir do início do século XXI que as críticas foram levadas mais a sério.

Quando as primeiras críticas surgiram, em 2011, muitos nomes famosos se levantaram em defesa de Lobato, como o cartunista Ziraldo, que fê-lo abraçar uma mulata e pôs um de seus personagens pronto a defender o escritor, com um tacape. O debate sobre o racismo de Lobato teve de evoluir gradualmente, mas por muito temo o racismo do autor só podia ser conhecido através de pequenas passagens isoladas, porque os direitos autorais impediam citações mais extensas.

Este artigo aqui pretende demonstrar esse racismo de maneira mais inequívoca, apresentando citações longas o suficiente para dar contexto. As citações originariamente em língua estrangeira foram traduzidas ao português porque não foi a minha intenção criar dificuldades para que o leitor brasileiro médio, que não fala outros idiomas, pudesse compreender este artigo.

Os Anos Formativos e a Carreira de Editor

Lobato se dedicava a atividades diversas simultaneamente: desde o começo de sua carreira na literatura; foi cronista, crítico de arte, jornalista, editor, contista e e romancista. Mas tudo isso se tornou possível em razão de ter sido, antes disso, membro da aristocracia agrária, promotor público e fazendeiro de café. O dinheiro da venda da grande fazenda herdada do avô lhe permitiu estabelecer-se como editor em 1918, quando comprou a “Revista do Brasil”, fundada dois anos antes por Júlio de Mesquita.

Na qualidade de editor da Revista foi que Lobato se tornou editor de livros, principalmente os próprios. É preciso enfatizar que ao se tornar editor de uma revista de grande circulação em São Paulo e implementar métodos revolucionários de marketing, Lobato se tornou uma figura central da cultura nacional, sobre a qual passou a ter grande influência. Os jovens autores desejavam ser publicados por Lobato porque supunham que isso lhes daria mais alcance no país. Desta forma, o Lobato editor tinha muitos talentos que se voluntariavam a contribuir para a sua revista e assim determinava os rumos do debate cultural no país. Mais tarde, muitos desses autores que começaram a publicar com Lobato contribuiram para construir seu mito.

Esse poder de “classificação” dos talentos literários não era, no entanto, fruto somente de seu lado de homem de negócios bem-sucedido. Dizer isso seria injusto: os livros publicados por Lobato entre 1916 e 1920 foram grandes sucessos de público e de crítica, dando-lhe credenciais para se apresentar como tutor da literatura nacional.

No contexto da evolução literária do Brasil, Lobato foi um reacionário. Ele poderia ter abraçado o papel de precursor do modernismo, mas preferiu ser adversário da Semana de Arte Moderna e retardatário defensor do conservadorismo. Parte do seu “desgosto” com o mundo adulto nasceu precisamente do triunfo das ideias modernistas, contra as quais ele foi um combatente de primeira hora. Por causa dessa posição foi que os modernistas o elegeram como um dos ídolos a derrubar — e isso ajuda a explicar suas dificuldades a partir de 1930, quando o pêndulo começou, com mais de trinta anos de atraso, a pender em favor dos modernistas.

Quando ainda era fazendeiro de café, Lobato enviou ao jornal “O Estado de São Paulo” uma carta em que tecia críticas ferozes ao modo de vida do caboclo paulista. Elevada à condição de artigo do suplemento vespertino do periódico e intitulada “Velha Praga”, esta carta foi uma das primeiras obras que publicou e seria depis a semente de seu primeiro livro de ficção, “Urupês”, de 1918, em que reelabora sua crítica, na crônica que dá título à obra, criando a figura do Jeca Tatu — arquétipo do colono mestiço indolente e depredador da natureza.

Nestas obras está claramente expresso um viéis higienista que ecoa o racismo científico de Gobineau. A modernização do Brasil, sonhada por nacionalistas conservadores como Lobato, teria de incluir modernizar o povo, ou melhor, aplicar o programa de “Branqueamento” que era política oficial da República Velha. O Brasil do futuro seria um país para os brasileiros do futuro: nem a carne e nem o sangue do brasil real e mestiço do começo do século XX poderiam herdar esse futuro.

folha de índice de “Urupês” A folha de índice da primeira edição de “Urupês” (1918). Dos contos aqui presentes, somente “O Mata-Pau” costuma ser antologizado ou incluído em livros didáticos.

Esse mesmo autor de “Urupês” e “Velha Praga” também escreveu “Negrinha” (1920), um volume de contos em que expressa certa simpatia pelos negros e sua escravização, e de todo o “Sítio do Picapau Amerelo”, cuja obra inicial, “A Menina do Narizinho Arrebitado”, saiu dois anos depois de “Urupês”. Seis anos depois de ter inaugurado o “Sítio”, e tendo já escrito nove obras deste, foi que Lobato escreveu e publicou o infame “O Presidente Negro”, cuja tentativa de publicar na Alemanha e nos EUA foi a responsável maior pela falência da Companhia Editora Nacional e pelo “desgosto” de Lobato com os adultos.

Uma das razões do sucesso de Lobato como editor, ademais de escritor, era que seus livros não vendiam meramente pelo apelo nacionalista de serem editados e impressos no Brasil. Ele exigia que a composição tipográfica fosse impecável, frequentemente empregando letras grandes, mais fáceis de ler por gente pouco afeita a livros, e as capas tinham um estilo art-déco de muito bom gosto. Seus livros eram diferenciados.

Outra razão era a facilidade com que se aproveitava de conexões políticas e comerciais. Quando fez a Revista do Brasil passar a editora de livros, fê-lo somente depois de ter escrito a todas as agências postais do país e perguntado se os agentes não conheciam algum comerciante na cidade que estivesse interessado em vender livros. De maneira surpreendente, todos responderam e assim Lobato conquistou uma rede de distribuidores por todo o país. Esta penetração nos rincões do país, empregando todo o potencial dos correios, foi o que o tornou rapidamente uma figura relevante no cenário cultural. Publicar pela Revista do Brasil, e mais tarde pela Monteiro Lobato & Cia., tinha o potencial de transformar o autor em uma celebridade nacional.

Outro grande golpe publicitário de Lobato foi imprimir quinhentos exemplares de “A Menina do Narizinho Arrebitado”, seu primeiro livro infantil, e que daria origem ao “Sítio do Picapau Amarelo” e distribuí-lo gratuitamente nas escolas de São Paulo. Assim Lobato cativou alunos e professores e praticamente inventou a partir do zero o mercado nacional de livros infantis.

O Ideário Lobatiano e as Ideologias do Século XX

Mais do que meramente dar nomes a essa ideologia, é preciso defini-las melhor e entender de onde foi que Lobato as tirou. Algumas estavam “no ar” no começo do século XX, mas outras eram específicas e não faziam parte do imaginário comum. Julgando-se um progressista, Lobato foi atrás de novas ideias para o desenvolvimento do país. Em sua época, essas ideias tinham forte ranço racista e fascista, mesmo quando não aderiam ou até quando se opunham aos extremismos de direita.

No contexto do Pré-Modernismo, Monteiro Lobato defendeu uma mescla de academicismo e modernidade que se parece muito com o ideal estético fascista (e, paradoxalmente, com o “realismo socialista”). No âmbito da política, propunha o que mais tarde seria chamado “modernização conservadora”, ou seja, a tese de que as reformas necessárias para o desenvolvimento econômico deveriam ser feitas sem alterar significativamente a estrutura social, cultural e política, o que se faz através de um pacto entre a elite pré-industrial e as novas forças de desenvolvimento. Essa orientação ideológica não é surpreendente, considerando a sua origem social, e não fica nada escondida, quando observamos a reprodução da estrutura social e política do Brasil da República Velha no “Sítio do Picapau Amarelo”.

Em relação à arte, como vemos na sua famosa crítica a Anita Malfatti, Lobato propunha a divisão desta em duas vertentes, uma praticada por pessoas normais, que produzem uma arte “pura” e outra praticada por pessoas “anormais”, que produzem uma arte teratológica e decadente. Nas palavras do próprio Lobato:

Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura, guardados os eternos rythmos da vida, e adoptados para a concretização das emoções estheticas, os processos clássicos dos grandes mestres. […] A outra especie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na á luz de theorias efêmeras, sob a sugestão estrabica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São productos de cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadencia; são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrellas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz de escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. Embora elles se dêem como novos precursores duma arte a vir, nada é mais velho de que a arte anormal ou teratologica: nasceu com a paranóia e com a mystificação. De ha muito já que a estudam os psychiatras em seus tratados, documentando-se nos innumerosos desenhos que ornam as paredes internas dos manicomios. A unica differença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, producto ilogico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psychoses; e fóra delles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por americanos malucos, não ha sinceridade nenhuma, nem nenhuma logica, sendo mystificação pura.

Se estas palavras lhe soam familiares, é porque são e o leitor certamente as terá encontrado em uma fonte menos reputável: a “guerra cultural” do nazismo. Mesmo o uso de termos oriundos da medicina e da psiquiatria parte das mesmas origens do conceito abertamente nazista de “arte degenerada”, que se inspirou em autores como Gobineau (1915, p. 25):

A palavra “degenerado”, quando aplicada a um povo, significa (como deveria significar) que esse povo não possui mais o mesmo valor intrínseco que teve antes porque não tem mais o mesmo sangue em suas veias, eis que adulterações contínuas gradualmente afetaram a qualidade desse sangue. Em outras palavras, embora a nação ainda conserve o nome que lhe deram os seus fundadores, o nome já não significa a mesma raça; de fato, o homem de uma época decadente, o homem degenerado propriamente dito, é um ser diferente, do ponto de vista racial, em relação aos heróis dos grandes tempos.

A associação entre “anormalidade” e degeneração surge com força em Lombroso, que, conforme Balera & Diniz (2013, p. 539), afirmava que o indivíduo que cometia crimes não era um ser humano normal, mas uma anomalia causada pela deficiência de senso moral. Desta forma, Lombroso seria um “Rousseau inverso”, que afirmava que o homem nasce mau e é melhorado pela sociedade:

O homem nasceria mau e a sociedade civilizada inculcaria noções de bem e mal, aniquilando os traços do atavismo e selvageria que o poderiam tornar um “primitivo sanguinário”. Em suma, o comportamento do criminoso nato é resultado de sua degenerescência, bem como da interrupção do desenvolvimento do indivíduo ainda no estágio infantil.

O discurso de Lobato também ecoa Max Nordau, crítico alemão que propôs o conceito de Entartung (versão alemã da “degeneração” de Gobineau) e dedicou sua obra a Lombroso. Nordau vai além e “diagnostica” as tendências artísticas do fin-de-siècle como condições psiquiátricas:

Na disposição do fin-de-siècle; nas tendências da arte e da poesia contemporâneas; na vida e na conduta dos homens que escrevem trabalhos místicos, simbólicos e “decadentes”; e na atitude assumida por seus admiradores em relação dos gostos e instintos estéticos da sociedade da moda, vê-se a confluência de duas condições patológicas bem definidas, com as quais ele [o médico] está bem familiarizado, ou seja, a degeneração e a histeria, de que os estágios iniciais são designados como neurastenia.

Para Nordau, autores como Henrik Ibsen, Friedrich Nietzsche e Oscar Wilde seriam exemplares dessa degeneração, que resulta de um processo natural na evolução das sociedades humanas, mas que é acelerado ou retardado, e de qualquer maneira influenciado, pela arte.

Estes conceitos; apesar de Nordau e Lombroso terem sido, ambos, judeus; acabaram apropriados pelo fascismo italiano e, mais notoriamente, pelo nazismo. Foi um nazista, Alfred Rosenberg, que levou o conceito de “arte degenerada” à sua epítome, foram os nazistas que organizaram uma “exposição de arte degenerada” (com fins propagandísticos) e organizaram o confisco e a queima de tais obras.

O que estou querendo dizer aqui é que o ideário expresso por Lobato em “Paranoia e Mistificação” é praticamente idêntico ao conceito nazista de “arte degenerada”. Na verdade, quaisquer pequenas divergências (de terminologia ou de conceituação) se devem mais ao fato de os nazistas terem expandido e modificado a linha de pensamento à qual Lobato subscrevia. Mais tarde, nessa análise, você perceberá que as ideias de Gobineau e Lombroso (não só esta sobre arte) se transferem de maneira quase automática entre a obra adulta e infantil de Lobato. Se alguma dúvida resta, Lobato publicou através de sua editora os “Annaes de Eugenia”, organizados por Renato Kehl, evidenciando seu compromisso de longo prazo com esta.

Por esses e outros motivos, os livros do Sítio deveriam ser substituídos por obras mais adequadas à leitura em classe e passar a ser usados como objeto de estudo em aulas de Ciências Sociais, justamente por serem relevantes para entender o pensamento predominante no Brasil do século XX —que naturalizava e até idolatrava um autor que, de fato, detestava o Brasil e todos os aspectos da brasilidade.

Urupês e a Política de Branqueamento

As origens do livro de estreia de Monteiro Lobato, “Urupês”, se encontram em uma carta por ele enviada ao “Estado de São Paulo” em 1914, na qual expressou desgosto pelo modo de vida dos caipiras paulistas, que comparou a parasitas e a quem culpou pela degradação ambiental:

A nossa montanha é victima de um parasita, piolho da terra, peculiar ao solo brasílio como o Argas aos gallinheiros, o “Sarcoptes mutans” á perna das aves domesticas. […] Este funesto parasita da terra é o caboclo, especie de homem baldio, semi-nomade, inadaptável á civilização, mas que vive á beira della, na penumbra das zonas fronteiriças. Á medida que o progresso vem chegando, com a via ferrea, o italiano, o arado, a valorisação das terras vae elle refugindo em silencio, […] de modo a sempre conservar-se fronteiriço, mudo e sorna. Encoscorado em uma rotina de pedra, recúa mas não se adapta.

É de vêl-o abordar a um sitio novo para nelle armar a sua arapuca de “aggregado”; nomade, por força de vagos atavismos, não se liga á terra, como o camponio europeu, “aggrega-se-lhe”, tal qual o “sarcoptes”, pelo tempo necessario á completa sucção da seiva convizinha; feito o que, salta para adiante com a mesma bagagem com que ali chegou.

Vem de um sapesal para criar outro. Coexistem em intima symbiose: sapé e caboclo são idéas associadas. Este inventou aquelle e lhe dilata os dominios; em troca disso o sapé lhe cobre a choça e lhe fornece fachos para queimar a comeia das pobres abelhas.

Chegam silenciosamente, elle e a “sarcopta” esposa, com um filhote no utero, outro ao peito, outro á ourela da saia, já de pito na bocca e faca á cinta. Completa o rancho um cachorro sarnento, — Brinquinho, a foice, a enxada, a pica-páu, o pilãosinho de sal, a panela de barro, um santo encardido, tres gallinhas pévas e um gallo indio. Com estes simples ingredientes o fazedor de sapeseiros perpetua a especie e a obra de esterilisação iniciada pelos remotissimos avós.

[…]

Em tres dias uma choça, que por euphemisco chamam de casa, brota da terra como um urupê. Tirou tudo do lugar: esteios, caibros, ripas, barrotes, o cipó que os liga, o barro das paredes, a palha do tecto. Tão intima é a communhão dessas palhoças com a terra local, que dariam idéa de tortulho nascido do chão por obra espontanea da natureza, — se a natureza fosse capaz de coisas inestheticas.

Barreada a casa, pendurado o santo, está lavrada a sentença de morte das redondezas. […] Com a pica-páu limpa a floresta da volataria incauta. Polvora e chumbo adquire-os vendendo palmito no povoado visinho. Quando o palmito escasseia, rareiam os tiros, só a caça grande merecendo a sua carga de chumbo; se o palmital se extingue, exultam as peças; está encerrado o ciclo venatorio.

Depois ataca a floresta. Roça e derruba, não perdoando ao mais bello páu. […] Prompto o roçado, chegando o tempo da queima, entra em funcções o isqueiro.

[…]

Quem foi o incendiario? Donde partiu o fogo? Indaga-se, descobre-se o Nero: é um urumbeva de barba rala, amoitado n’um litro de terra litigiosa.

[…]

No vazio de sua vida semi-selvagem, em que os incidentes são um jacú abatido, uma paca fisgada n’agua e o filho novimensal, a queimada é o grande espectaculo do anno, supremo regalo d’olhos e ouvidos.

Entrado Setembro, o caboclo planta na terra em cinzas um boccado de milho, feijão e arroz; mas o valor da sua producção annual é nenhum diante dos males que para preparar uma quarta de chão elle semeou.

O caboclo é uma quantidade negativa.

[…]

Quando se exhaure a terra, o aggregado muda de sitio.

No lugar fica a tapera e o sapeseiro. Um anno que passe e só este attestará a sua estadia alli; o mais se apaga como por encanto. A terra reabsorve os frageis materiaes da choça, e como nem sequer uma laranjeira foi plantada, nada mais lembra a passagem do Manoel Peroba, Chico Marimbondo, Geca Tatú e outros sons ignaros de dolorosa memoria á natureza circumvisinha.

Atente o leitor o aspecto nitidamente racial desta caracterização, através da utilização de um tupinismo (“urumbeva”) e da explicitação de que se trata de um homem de barba rala — sendo esta uma característica dos ameríndios e dos mestiços. Ademais, a vida do italiano é aqui citada como um dos fatores do progresso, entre outros (aqui temos de lembrar que a atração de imigrantes italianos fazia parte da política de “branqueamento” da população brasileira).

Anos depois este texto resultaria em uma tese mais evoluída, expressa na crônica “Urupês”, que dá título ao livro que Lobato publicou em 1918. É significativo que Lobato tenha se ocupado não somente de publicar em livro o que um dia fora somente um artigo de jornal, como se deu ao trabalho de reelaborar o conceito, para que ficasse ainda mais claro.

Porque a verdade núa manda dizer que entre as raças de variado matiz formadoras de nossa nacionalidade, e mettidas entre o estrangeiro voraz que tudo invade e o aborigene de taboinha no beiço, uma existe a vegetar de cocoras, incapaz de evolução, impenetravel ao progresso. Feia e sorna, nada a põe de pé.

Não há meias palavras aqui: ecoando o racismo científico de Gobineau, Monteiro Lobato afirma sem rodeios que o mestiço brasileiro (o “caboclo”) é uma criatura inferior e incapaz de se elevar, limitado pela preguiça. No conto “Urupês”, Lobato descreve em detalhe o “Geca Tatú”, que se tornaria o arquétipo do caboclo brasileiro e inspiraria Mazzaropi a desenvolver o personagem de seus filmes (tal foi o impacto desta descrição):

Quando comparece ás feiras, todo o mundo logo adivinha o que elle traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo matto e ao homem custa apenas o trabalho de espichar o braço e colher — cocos de tuncum e jissára, guabirobas, bacuparis, maracujás, jatahys, pinhões, orchideas; ou artefactos de taquara póca — peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador; ou utensilios de madeira molle — gamellas, pilõesinhos, colheres de páu. Nada mais.

Seu grande cuidado é espremer todas as consequencias da lei do menor esforço, e nisto vae longe. Começa a applicação da lei na moradia. Sua casa de sapé e lama faz rir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao João de barro. Pura biboca de boschimano.

Mobilia nenhuma. A cama é uma espipada esteira de pery posta sobre o chão batido.

Ás vezes dá-se ao luxo d’um banquinho de tres pernas — para os hospedes. Tres pernas dão equilibrio: inutil, portanto, metter a quarta, o que obrigaria ainda a nivelar o pavimento. Para que assentos, se a natureza os dotou de solidos, rachados calcanhares?

Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo, colher, garfo e faca a um tempo? No mais, umas cuias, gamellinhas, um pote esbeiçado, a pichorra e a panella de feijão.

Nada de armarios ou bahús. A roupa guarda-a o corpo. Só tem dois parelhos; um que traz em uso e outro na barrela.

Os mantimentos apaióla nos cantos da casa.

Inventou um cipó preso á cumieira, com um gancho na extremidade e um disco de lata no alto: ali pendura o toicinho a salvo de gatos e ratos.

Da parede pende a espingarda pica-páu, o polvarinho de chifre, o São Benedicto defumado, o rabo de tatú e as palmas bentas de queimar durnate as fortes trovoadas.

Servem de gavetas os buracos da parede.

Seus remotos avós não gozaram de maiores commodidades. Seus netos não metterão a quarta perna ao banco. Para que? Vive-se bem sem ella.

Se pelotas de barro cahem, abrindo setteiras na parede, Geca não se move a repol-as. Ficam as janellinhas abertas para o resto da vida, a entremostrar nesgas de céu.

Se a palha do tecto, apodrecida, gréta em fistulas, por onde pinga a agua da chuva, Geca, em vez de remendar a tortura, limita-se a cada vez que chove, a aparar numa gamellinha a agua gottejante.

Remendos… para que? Se uma casa dura dez annos e faltam “apenas” oito para abandonar aquella?

Esta philosophia economisa reparos.

[…]

Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O matto beira com elle. Nem arvores fructiferas, nem horta e nem flôres — nada revelador de permanencia.

Ha mil razões para isso: porque não é sua a terra; porque se o “tocarem” não ficará nada que a outrem aproveite; porque para fructas ha o matto; porque a “criação” estraga, porque…

[…]

— Não paga a pena.

Todo o inconsciente philosophar da raça grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem culturas, nem commodidades. De todo o geito se vive.

O racismo de Lobato volta com força, ao comparar a choupana do caboclo às dos bosquímanos da África meridional e a sua cama às esteiras dos indígenas, caricaturados na figura de “Pery”, o protagonista do romance de José de Alencar.

Essas ideias negativas sobre o caboclo paulista não são todas originárias de sua mera observação do modo de vida dos “jecas”: derivam em grande parte das convicções pessoais que o autor tinha muito antes de herdar a fazenda do avô e ter problemas com as queimadas provocadas pelos jecas. Vemos a opinião de Lobato sobre os mestiços em uma carta sua a Godofredo Rangel, datada de 1908:

Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral — e no físico, que feiura! Num desfile, à tarde, pela horrível rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas (sic) humanas — todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível — amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde.

Nada da brasilidade tem valor porque, na visão do autor, tudo que surge do Brasil induz à “lombeira”. Nos parágrafos seguintes, Lobato se encarrega de culpar a mandioca por grande parte do atraso mental do Jeca. Chamando-a de “um pão já amassado pela natureza” e que não precisa ser plantado, nem adubado, nem colhido e nem armazenado; Lobato diz que, se ela não existisse, talvez assim o caipira se pusesse de pé e andasse. Conclusão necessária: exterminar a mandioca contribuiria para nosso progresso. Curioso que o autor ache mau que o caipira destrua a natureza: dessa destruição pelo fogo, desse deserto que o caipira cria, certamente teria de nascer um ambiente hostil, capaz de induzir o povo a superar sua “lombeira”.

Na superficialidade da análise de Lobato, que busca culpar o pobre pela sua pobreza, não sobra espaço para perceber outras causas para além das raciais. Isto o autor poderia ter feito ao mencionar o vizinho do Jeca:

Todavia, “est modus in rebus”, e assim como ao lado do rastolho cresce o viçoso pé de milho, contrasta com a christianissima simplicidade do Geca a opulencia de um seu visinho e compadre que “está muito bem”.

A terra onde móra é sua. Possue ainda uma egua, um monjolo e uma espingarda de dois canos. Pesa nos destinos politicos do paiz com o seu voto e o polvilho azedo de que é fabricante…

[…]

Representa este o typo classico do sitiante já com um pé fora da classe.

O próprio Lobato havia mencionado a respeito do caboclo que ele é um mero posseiro e que suas escolhas de não lavrar a terra partem da precariedade desse status. Aqui o mesmo Lobato reconhece que o vizinho do Jeca é um pequeno proprietário e que isto lhe permite ter “um pé fora da classe”. Mas em momento algum Lobato faz a ilação necessária de que é a propriedade da terra que fez a diferença no modo de vida dos dois caipiras. Em vez disso, logo a seguir Lobato volta a culpar ao caboclo por suas dificuldades:

Geca por dentro rivalisa com Geca por fóra. O mobiliario cerebral, á parte o succulento recheio de superstições, vale o do casebre. O banquinho de tres pés, as cuias, o gancho de toucinho, as gamellas reeditam-se dentro do seu caco sob a fórma de idéas: são as noções praticas da vida, que recebeu do pae e que, intactas, transmittirá aos filhos.

O sentimento de patria lhe é desconhecido. Não tem sequer a noção do paiz. Sabe que o mundo é grande, que ha sempre terras para adiante, que muito longe está a côrte com os graúdos e mais distante ainda a Bahia, donde chegando bahianos pernosticos, e cocos.

Depois de enumerar exemplos da arte popular dos camponeses europeus, Lobato menciona a precária arte dos pré-históricos e daí denuncia que o Geca, “egresso á regra”, não tem nenhum traço remoto de sentimento artístico, algo que o tinham mesmo os trogloditas. A conclusão, não verbalizada, é a de que o caboclo está abaixo do nível cultural dos homens das cavernas.

Mesmo a música caipira, já universalmente associada à cultura cabocla, Lobato faz questão de atribuir a outros pais:

A modinha, como as demais manifestações de arte popular existentes no paiz, é obra exclusiva do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estheticos, borbulha de mistura com o sangue selvagem, alegre e são do negro.

O caboclo é soturno.

Não canta senão rezas lugubres.

Não dança senão o catêrêtê aladainhado.

Não esculpe o cabo da faca como o kabyla.

Não compõe sua canção como o fellah do Egypto.

Triste como o curiango, nem sequer assobia.

Essa inesperada menção positiva aos mulatos contrasta com a opinião que o próprio Lobato teve dos mulatos reais quando os encontrou pelas ruas do Rio de Janeiro (citada na carta a Rangel). Lobato finalmente argumenta que o Jeca, ou seja, o caboclo, é um elemento estranho ao Brasil (este país ideal e branqueado), apesar de ser um dos elementos peculiares de nossa composição étnica:

No meio da natureza brasilica, tão rica de formas e côres, onde os ipés floridos derramam feitiços no ambiente, e a infolhescencia dos cedros, ás primeiras chuvas de Setembro, abre a dança dos tangarás, onde ha abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, côr, perfume, vida dionisiaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de páu podre, a modorrar silencioso no recesso das grotas.

Só elle não fala, não canta, não ri, não ama.

Só elle, no meio de tanta vida, não vive.

Tendo desumanizado o caboclo de uma maneira tão cruel, faltou pouco para o autor recomendar o seu extermínio, para o progresso do país. Não à toa Lobato o chamara de “Velha Praga” e o comparara a tantos seres nocivos. De fato, Lobato chega a propor o extermínio, apenas o faz em sua correspondência privada, em vez de fazê-lo abertamente, em sua literatura:

País de mestiços, onde branco não tem força para organizar uma Kux-Klan (sic), é país perdido para altos destinos. […] Um dia se fará justiça ao Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa desta ordem, que mantém o negro em seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca — mulatinho fazendo jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva.

Um ano antes da publicação desta carta, em sua memória política, intitulada “Minha Luta”, Adolf Hitler já defendia que o negro tinha cumprido o seu papel histórico e já era hora de ser retirado do palco.

A Reumanização do Jeca

Podemos dizer que Monteiro Lobato deve sua carreira ao Jeca Tatu, mesmo antes de lhe dar esse nome pitoresco. Foi criticando o Jeca e seus hábitos, inicialmente em “Velha Praga”, depois em “Urupês”, que Lobato chamou a atenção da crítica e dos leitores, transformando uma crítica social em um sucesso literário. Seria, porém, injusto, afirmar que Lobato nunca revisou sua posição a respeito do Jeca, porque ele o fez. A questão não é se ele teve a capacidade de se reaproximar do personagem e de enxergar nele os valores que não viu de início, a questão é quais foram os motivos desta reaproximação e quão profundamente ela transformou os valores e o discurso do autor. Ou seja: se Lobato o fez espontaneamente e se não voltou a cometer as mesmas acusações em outros momentos. O processo de revisão da figura do Jeca Tatu tem um contexto e devemos perguntar quais foram seus desdobramentos de longo prazo.

A notoriedade obtida com “Urupês”, principalmente, resultou em grandes reações. Políticos e homens de letras reagiram com horror à republicação de “Velha Praga”. Acusavam Lobato de vilipendiar o povo brasileiro. O folclorista Cornélio Pires foi um dos que saíram em defesa do caipira, ressaltando que era injusto atribuir aos pobres ignorantes a causa dos problemas do país e que, ademais, o tipo criticado por Lobato correspondia apenas ao caipira caboclo, mas não ao caipira em geral. Mas, conforme Éder Silveira, Lobato estava convencido de que raça e meio eram os elementos condicionantes do caráter do Jeca (SILVEIRA, 2005, p. 191). O primeiro elemento, toma-o de Gobineau e o segundo, dos naturalistas, como Euclides da Cunha.

Justamente quando enfrentava críticas de todos os lados, que poderiam ter comprometido o seu sucesso literário, veio-lhe a tábua de salvação: o movimento higienista. A expedição sanitarista de Belisário Penna e Arthur Neiva publicou seus resultados no mesmo ano do lançamento de “Urupês”. Neles se chegava a afirmar que mais de 70% da população do interior do país padecia de verminoses, cujos sintomas correspondiam aos do Jeca (PENNA, 1928, p. 54):

É uma doença que enfraquece o corpo, abate a intelligencia, produz a preguiça e o desanimo, envenena e destroe o sangue, e faz a desgraça de milhões de brasileiros. É uma doença que mata, todos os annos, milhares de crianças patricias; que definha e prejudica o desenvolvimento do corpo e da intelligencia de dezenas de milhares de outras, que escapam á morte; que reduz de mais de metade a capacidade de trabalho de milhares de homens, que, por isso, vegetam na miseria e viciam-se na cachaça; que é a causa de muitas ulceras e feridas rebeldes, e de muitas doenças chronicas do coração, dos rins, do figado, do estomago e dos intestinos, que matam annualmente milhares de pessoas. O amarellão constitue a maior calamidade do Brasil. Enquanto não for dado combate decisivo a esse mal não conseguirá o paíz prosperar na proporção das suas riquezas naturaes e das modernas conquistas da sciencia.

Belisário Penna tentava, em vão, apelar aos políticos para que dessem atenção ao problema sanitário do país. Lobato, então, resolveu emprestar sua influência à causa e assim afastar de si a acusação de caluniador do povo. Tão rápido quanto chegou o sucesso de Lobato (montado sobre as costas do caipira), também chegou o desmentido da ciência, inocentando o Jeca de toda culpa por sua condição. Lobato, então, reumaniza-o — uma genial campanha de “redução de danos” e um dos maiores golpes de marketing da história do país.

Capa de “Jeca Tatuzinho” A sinalização de Lobato ao movimento sanitarista ocorreu através de “O Problema Vital”, em que reuniu seus escritos sobre higienismo e eugenia. Entre estes vão inseridas páginas sobre a “trindade maldita”: “opilação” (ancilostomíase), “idiotia” (doença de Chagas) e “impaludismo” (malária). Utilizando dados retirados das descobertas da expedição sanitária de Belisário Penna, Lobato afirma que o Brasil, então com 25 milhões de habitantes, teria 17 milhões de “opilados”, 7 milhões de “idiotas” e 10 milhões de “impaludados”. O impacto de tais dados no imaginário popular preparou o terreno para o passo seguinte. Cedendo espaço aos sanitaristas em sua “Revista do Brasil” e até mesmo publicando seus livros em sua editora, retomou a iniciativa e reinventou a figura do Jeca Tatu, agora afirmando que “O Jeca não é assim, ele está assim”.

Lobato pôde, então, relançar o Jeca Tatu, agora um anti-herói trágico que pode encontrar a sua redenção. Em “Jeca Tatuzinho”, publicado em 1924 com o patrocínio do laboratório Fontoura (uma das muitas estratégias malucas inventadas por Lobato), vemos a transformação do Jeca pelo poder da Ciência. Esta obra foi o maior sucesso de Monteiro Lobato antes da popularização do Sítio do Picapau Amarelo, mas costuma ser deixada de lado pelos biógrafos do autor.

A obra começa repetindo as descrições que já haviam sido utilizadas em “Velha Praga” e em “Urupês”, exceto por um detalhe, agora o Jeca é um pequeno proprietário rural, não mais um posseiro, e a história muda quando entra em cena um novo personagem:

Um dia passou por sua casa um doutor e, como ameaçasse chuva, o homem resolveu abrigar-se na casa do Jéca. Pediu licença, entrou e abriu a boca diante da miseria da casa.

Depois, prestando attenção no Jéca, e vendo como era pallido e magro, resolveu examinal-o.

Esse doutor era um medico muito estudioso e intelligente. Tinha escripto diversos livros e vivia a falar em hygiene.

Acabado o exame, o doutor disse:

— Amigo Jéca, sabe você que o que você tem é doença?

Jéca concordou:

— Pode ser. Eu sinto uma canceira que não tem fim, e dor de cabeça, e uma pontada aqui no peito que responde na cacunda…

— Pois é, você é um doente. Toda a gente xinga você de preguiçoso, mas você não passa de um doente. Você está opilado. Soffre de ankilostomiase.

— Anki… o quê? Exclamou Jéca, arregalando o olho.

— Soffre de amarellão, entende? E eu vou curar você. Espere ahi!…

O doutor trata o Jéca com fitoterapia (erva de Santa Maria e óleo de rícino) e preceitos de higiene: lavar as mãos e usar calçados. Curado da verminose, o Jeca, em uma reviravolta hiperbólica, logo se torna um homem trabalhador e empreendedor, que em poucos anos se torna um rico fazendeiro e acaba adquirindo um título honorífico de coronel. Fiel aos princípios da ideologia capitalista da meritocracia, Lobato acreditava que o enriquecimento era mera consequência do esforço pessoal.

Assim, depois de ter sido o maior caluniador do caboclo sudestino, Monteiro Lobato conseguiu se reinventar como seu grande defensor, emprestando seu nome (mediante pagamento) a uma campanha publicitária de grande impacto cultural, que ainda estava no imaginário popular mais de sessenta anos depois.

Quando eu era criança, meu pai me contou a história do Jeca Tatu como se fosse um conto popular coletado pelo Laboratório Fontoura. Somente mais tarde eu fiquei sabendo que se tratava de uma criação de Monteiro Lobato porque esses livros ficaram esgotados, ou relegados a edições pouco numerosas, desde a falência da Monteiro Lobato & Cia., a segunda editora fundada por Lobato.

Podemos, no entanto, aceitar que Lobato realmente mudou seu modo de pensar?

O Fiasco de “O Presidente Negro”

Em 1920 Lobato publicou seu segundo livro de contos para adultos, “Negrinha”. Esta obra é um conjunto mais variegado e mais bem acabado do que “Urupês” e claramente superior em execução a “Cidades Mortas”, que lhe sucede. Seis contos razoavelmente longos e bastante elaborados, dos quais o epônimo é o primeiro. Sucedem-no “Fitas da Vida”, “O Drama da Geada” (em que Lobato relembra a grande tragédia que o forçou a vender sua fazenda de café), “O Bugio Moqueado”, “O Jardineiro Timóteo” e “O Colocador de Pronomes”. Três dessas histórias versam, de maneira direta ou indireta, sobre o drama da escravidão. Todas são excelentes e três estão entre os melhores contos da literatura em língua portuguesa. Lobato estava “voando” em sua recém adquirida fama e o percalço com o Jeca não lhe atrapalhara, graças à esperteza com que se convertera à causa sanitarista.

Tão grande era o sucesso de sua editora que, em 1924, Lobato resolveu investir pesado na expansão do seu parque gráfico. Infelizmente, para ele, 1924 também foi o ano de uma grande seca, que causou escassez de energia elétrica em São Paulo. Além disso, por causa da primeira crise do café, o presidente Arthur Bernardes desvalorizou a moeda, tornando mais difícil para Lobato pagar as prestações das máquinas adquiridas, e suspendeu o redesconto de títulos pelo Banco do Brasil, o que impediu Lobato de refinanciar seu capital de giro. Essa combinação de circunstâncias causou a falência da Monteiro Lobato & Cia.

No mesmo ano, porém, ele se mudou para o Rio de Janeiro, onde, com a ajuda de um sócio, estabeleceu a Companhia Editora Nacional, que adquiriu parte do parque gráfico da Monteiro Lobato & Cia. Para a nova casa ele levou sua experiência editorial e seu “selo de qualidade”. Levou também sua ambição desmedida e, por causa dela, planejou “fazer a América” utilizando uma estratégia parecida com a que empregara ao satirizar o Jeca: faria o mesmo com o negro americano. Isso em um momento histórico em que a reputação dos negros já começava a melhorar nos EUA e na Europa, por influência do jazz e do blues.

Em 1926, Lobato publicou seu primeiro (e único) romance para adultos: “O Presidente Negro”. Graças ao seu lobby com o presidente Washington Luís em defesa da indústria editorial brasileira, foi reconhecido como uma figura importante da cultura nacional e nomeado adido à embaixada brasileira nos EUA, onde chegou em 1927, deixando a Companhia Editora Nacional em mãos de seu sócio. Lá nos EUA Lobato pagou do próprio bolso pela tradução de seu romance e o submeteu a dezenas de editores. Sonhava em vê-lo publicado, causar um grande escândalo e assim atrair a atenção para si:

Um romance americano isto é, editável nos Estados Unidos […]. Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco.

Essas ideias, no entanto, não saíram de trás das orelhas do autor naquele momento, como um mero golpe publicitário. Embora ele as tenha efetivamente usado para isso, eram ideias que ele tinha desde jovem. Em 17 de dezembro de 1905 ele escreveu ao amigo Godofredo Rangel:

Ando com ideias dumas coisas Wells, em que entrem imaginação, fantasia e vislumbres do futuro — não o futuro próximo de Julio Verne, futurinho de 50 anos, mas um futuro de mil anos. Vou semear agora essas ideias e deixá-las se desenvolver livremente por dez ou vinte anos — e então limito-me a fazer colheita, caso a plantação subsista até lá. Se a terra dos meus canteiros mentais não for propícia a essas sementinhas, então é que não estou destinado a ser o “H. G. Wells de Taubaté” e, paciência. Ou dou um dia coisa que preste e esborrache o indígena, ou não dou coisa nenhuma.

Os planos eram ambiciosos: sonhava em fundar uma editora nos EUA, a Tupy Publishing Company, com o objetivo de publicar autores brasileiros traduzidos para o inglês. Pensava em transformar “editores e editados” em milionários. Mas não obteve nenhum sucesso em sensibilizar os editores americanos para o próprio livro. Depois de dezenas de recusas, admitiu seu fracasso em carta ao amigo Godofredo Rangel:

Meu romance não encontra editor. Falhou a Tupy Company. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tanto séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros. Os originais estão com o Isaac Goldberg para ver se há arranjo. Adeus, Tupy Company!

Para quem ainda não sabe, “O Presidente Negro” propõe o genocídio da população negra dos EUA por meio da esterilização através de medicamentos administrados sem o conhecimento das vítimas. Esse é o “belo crime” que Lobato sugeriu que poderia ser praticado pelos americanos do futuro para resolver seu problema social.

Mais do que isso, “O Presidente Negro” apresenta uma dolorosa caricatura do negro, tão ofensiva quanto o Jeca Tatu. Da boca de Jim Roy, o herói negro da história, sai a promessa de manter presos os dois monstros, “o monstro da ebriedade negra e o monstro do orgulho branco” a fim de evitar uma “chacina espantosa”. O negro de 2228 ainda seria pouco mais que o negro indolente da concepção racista de 1928.

Diante da vitória do candidato negro, eis o que o presidente branco tem a dizer-lhe:

— Não ameaço. Previno lealmente. Vejo em ti uma força demasiado grande para que eu a enfrente com palavras. Estamos face a face não dois homens, sim duas almas raciais arrostadas num duelo decisivo. Não fala neste momento o Presidente Kerlog. Fala o branco de crueldade fria, o mesmo que vos arrancou do kraal, o mesmo que vos torturou nos brigues, o mesmo que vos espezinhou nos algodoais. Como há razões de estado, Jim, há razões de raça. Razões sobrehumanas, frias como o gelo, cruéis como o tigre, duras como o diamante, implacáveis como o fogo. O sangue não raciocina, como os filósofos. O sangue sidera, qual o raio. Como homem admiro-te, Jim. Vejo em ti o irmão e sinto o gênio. Mas como branco só vejo em ti o inimigo a esmagar…

Até mesmo nos tratamentos entre os personagens ainda se transcreve as relações raciais presentes. James Roy se refere a Kerlog na terceira pessoa e o chama pelo sobrenome. Kerlog se refere a James na segunda pessoa e o chama pelo apelido, Jim. Na boca do narrador, o homem branco aparece como uma manifestação da divindade (grifos adicionados):

Jim baixou a cabeça. Viu aberto à sua frente o eterno abismo. O sangue branco tinha a dureza do diamante. Armado de mais cérebro, dos vales dos Ganges partira para a ousada aventura conquistadora e vencera sempre e não cedera nunca. Era o nobre, o duro, o eterno senhor cujo raio fulmina. Era o criador. Do rude instinto de matar do troglodita extraira a sua grande arte, a Guerra. Forjara a espada, dominara o gás que explode, violara o profundo das águas e a amplidão dos ares. E com esse feixe de armas incoercíveis rodeara como de baionetas o diamante do seu Orgulho.

Aqui o homem branco, o ariano, possuidor de mais cérebro, aparece predestinado a ser o senhor do mundo, a vencer sempre e a nunca ceder. Diante da ousadia de James Roy, que se elege presidente contra a vontade de uma maioria branca, o homem branco trama sua vingança irresistível. Digo que é o homem branco ariano porque da boca do personagem Kerlog, Lobato faz sair uma menção à origem da raça branca nos vales do Ganges (Índia) berço dos povos “indo-arianos”, segundo se acreditava. Esta glorificação do ariano como senhor natural do mundo e dos povos inferiores pode ser encontrada em outras fontes, como esta (grifos adicionados):

É nos Arianos — raça que foi e é o expoente do desenvolvimento cultural da Humanidade — que se verifica tudo isso com a maior clareza. Assim que o destino os lança em situações especiais, as faculdades que possuem começam a se desenvolver e a se tornar manifestas. As civilizações por eles fundadas em semelhantes casos, quase sempre são definitivamente fixadas pelo solo e clima e pelos homens vencidos, sendo este último fator quase que o mais decisivo. Quanto mais primitivos os recursos técnicos para um trabalho cultural, mais necessário o auxílio de forças humanas, que, conjugadas e bem aplicadas, terão que substituir a energia da máquina. Sem tal possibilidade de empregar gente inferior, o ariano nunca teria podido dar os primeiros passos para sua civilização, do mesmo modo que, sem a ajuda de animais apropriados, pouco a pouco domados por ele, nunca teria alcançado uma técnica, graças à qual vai podendo dispensar os animais. O ditado: “o negro fez a sua obrigação, pode se retirar”, possui infelizmente uma significação profunda. Durante milênios, o cavalo teve que servir e ajudar o homem em certos trabalhos nos quais agora o motor suplantou, o que dispensou perfeitamente o cavalo, Daqui a poucos anos, este terá cessado toda a sua atividade. No entanto, sem a sua cooperação inicial, o homem só dificilmente teria
chegado ao ponto em que hoje se acha.

Eis como a existência de povos inferiores tornou-se condição primordial na formação de civilizações superiores, nas quais só esses entes poderiam suprir a falta de recursos técnicos, sem os quais nem se pode imaginar um progresso mais elevado. A cultura básica da humanidade se apoiou menos no animal domesticado do que na utilização de indivíduos inferiores.

[…]

O progresso humano se assemelha a uma ascensão em uma escada sem fim; não se chega de forma alguma encima, sem se ter servido dos degraus inferiores. Foi assim que o ariano teve que trilhar o caminho traçado pela realidade e não aquele com o qual sonha a fantasia de um pacifista moderno. O caminho da realidade é duro e espinhoso, mas só ele conduz à finalidade com que os pacifistas sonham afastando, porém, cada vez mais a humanidade do ideal sonhado. Não é, portanto, por mero acaso, que as primeiras civilizações tenham nascido ali, onde o ariano, encontrando povos inferiores, subjugou os à sua vontade; foram eles os primeiros instrumentos a serviço de uma cultura em formação.

O que ameaça esse futuro fictício dos EUA é a ascensão dos negros ao poder, contra a natureza senhoril dos brancos. É a raça branca, que se autointitula senhora natural do mundo, que busca se defender dos perigos que a ameaçam. Noção que pode, também, ser encontrado na mesma fonte citada acima:

No momento em que os próprios vencidos começaram a se elevar sob o ponto de vista cultural, aproximando-se também dos conquistadores pelo idioma, ruiu a rigorosa barreira entre o senhor e o servo. O ariano sacrificou a pureza do sangue, perdendo assim o lugar no Paraíso, que ele mesmo tinha preparado. Sucumbiu, com a mistura racial; perdeu, aos poucos, cada vez mais, sua capacidade civilizadora, até que começou a se assemelhar mais aos indígenas subjugado do que a seus antepassados, e isso, não só intelectual como fisicamente. Algum tempo ainda, pôde fruir dos bens já existentes da civilização, mas, depois, sobreveio a paralisação do progresso e o homem se esqueceu de si próprio.

Quando Kerlog fala na em “razões de raça” e menciona a força irracional do sangue, que o obriga a exterminar os negros, ele se refere à necessidade de proteger o Paraíso construído pelas gerações anteriores. Kerlog vê ruir a estrutura milenar de dominação, através da qual ele mesmo e seus compatriotas brancos podiam usufruir de uma posição privilegiada. A solução fácil é exterminar o negro, que agora “fez sua obrigação” e já pode ser suplantado pela máquina. O risco ao Paraíso branco decorre de ter tolerado a existência do negro depois que a industrialização o tornou desnecessário.

Vejo-te grande como Lincoln, Jim, e é com lágrimas nos olhos que contemplo a tua figura imensa, mas inútil… Adeus. Atendamos ao instante, açaimemos as nossas raças — mas não fique entre nós sombra de mentira. O teu ideal é nobilíssimo, mas à solução de justiça com que sonhas só poderemos responder com a eterna resposta do nosso orgulho: Guerra!

O que se conclui da análise destes textos é que Lobato era claramente um adepto do racismo científico e que suas ideias sobre pureza de sangue e degeneração de raça não tinham mudado desde a época da controvérsia do Jeca Tatu. Alternativamente, Lobato tinha percebido o seu erro, mas voltava ao velho cacoete porque pressentia que poderia vender mais livros explorando o efeito chocante de ideias extremistas. Em qualquer dos casos, ele se revela um monstro moral.

No primeiro caso porque, obviamente, é adepto de ideias que ecoam o nazismo. Os trechos citados acima, se você ainda não os reconheceu, pertencem ao livro escrito por Hitler, “Minha Luta”. As ideias de guerra racial significam, claramente, uma adesão intelectual ao nazi-fascismo ou, pelo menos, ao conjunto de ideias que viera a desembocar no nazi-fascismo.

No segundo caso porque o autor estaria explorando de maneira sensacionalista o sofrimento de uma parte da população com a finalidade de estabelecer sua popularidade entre os membros da minoria privilegiada e assim ganhar dinheiro.

O mais curioso é que, no caso de Lobato, sua opinião mais negativa era reservada ao elemento indígena, mais característico da identidade nacional. Enquanto a miscigenação do português com o negro resultou no “mulato”, que preserva o gênio europeu e o adiciona ao temperamento do africano (e assim criou a “modinha”, de que Lobato parece gostar), a miscigenação com o indígena resultou este ser inferior, o caboclo, que é presa da imobilizante “lombeira” e se caracteriza por uma ausência de arte que o relega a um nível animalesco.

Este ódio preferencial pelo indígena e pelo caboclo fica muito bem explicado quando recorremos às ideias de Adolf Hitler: a aversão de Lobato ao indígena reflete a falha deste em servir de instrumento para o desenvolvimento da civilização portuguesa na América (pelo menos segundo a historiografia tradicional, que atribui ao indígena a “indolência” e a “rebeldia” que o impediam de trabalhar produtivamente). Desta forma, a grande contribuição à construção do Brasil teria sido dada pelo negro, que se pôs, então, em uma posição superior à do indígena, mas ainda inferior à do branco.

O Retorno ao Brasil e a Maturidade

A passagem de Monteiro Lobato pelos EUA terminou de maneira duplamente decepcionante para ele. Depois do custoso fiasco da tentativa de publicar “O Presidente Negro” em inglês, Lobato ainda perdeu uma fortuna tentando especular na bolsa de valores de Nova Iorque, tendo sido um entre milhões de investidores iniciantes prejudicados pela grande quebra de 1929. Para passar ainda sal em suas feridas, o golpe de estado de 1930 não somente apeou do poder o grupo político a que Lobato tinha acesso, como ainda pôs em seu lugar um governo que parecia determinado a reverter ou, pelo menos, mudar as prioridades. Lobato, que rapidamente telegrafara a Júlio Prestes parabenizando-o pela vitória, foi então exonerado da posição de adido cultural em Washington e teve de retornar ao Brasil.

Esse regresso à pátria foi bastante amargo para o escritor, que enfrentara nos seis anos anteriores uma sequência de reveses que dilapidou quase todo o dinheiro que obtivera da venda de sua fazenda de café — sendo que a própria venda desta já fora resultante de um revés, a grande geada de 1917. Ao retornar ao Brasil em 1930, estava empobrecido, não tinha boas relações com o governo e perdera a maior parte de seu poder no meio editorial. Sua fonte de renda remanescente eram os direitos autorais dos livros que publicara e as traduções que passou a fazer — e no Brasil isto não enriquece ninguém.

Desde seu retorno, passou a trabalhar febrilmente como tradutor e investiu pesado no ramo de sua atividade literária que lhe dava mais retorno financeiro: o infantil. Entre 1930 de 1933 publicou, em rápida sucessão: “Peter Pan”, “A Pena de Papagaio”, “O Pó de Pirlimpimpim”, “Reinações de Narizinho” (uma reedição de “A Menina do Narizinho Arrebitado” adicionada de mais histórias publicadas entre 1922 e 1931), “Novas Reinações de Narizinho”, “Viagem ao Céu”, “Caçadadas de Pedrinho” (reedição aumentada de “A Caçada da Onça”, de 1926) e “História do Mundo Para Crianças”. Também publicou traduções puras, como “Mowgli, o Menino Lobo” (Rudyard Kipling), “Contos de Andersen”, “Contos de Grimm”, “Contos de Fadas de Perrault”, “Kim” (Rudyard Kipling), “O Lobo do Mar” (Jack London), “Pollyana” e “Pollyana Moça” (Eleanor G. Porter), “Aventuras de Huck” (Mark Twain), “O Homem Invisível” (H. G. Wells) e vários outros.

Lobato é um dos mais prolíficos tradutores brasileiros. Estima-se que tenha traduzido mais de cem obras em toda a sua vida. Muitas de suas traduções foram feitas anonimamente (por se tratarem de obras que ele não desejava adicionar ao próprio currículo) ou não foram creditadas (porque foram publicadas em violação ao seu contrato de exclusividade com a Companhia Editora Nacional, entre 1933 e 1943).

Nos EUA, porém, tinha adquirido uma mentalidade de “homem de negócios” e decidiu pô-la em ação, fundando a “Companhia Petróleos do Brasil”. Sua atuação como homem de negócios não o impede de ser, entre 1934 e 1944, um dos tradutores mais prolíficos do Brasil, mas o coloca em conflito com poderosos interesses. Também nesta época os seus livros infantis começam a ser alvo de protestos. Entre muitas acusações, censura a suas obras e escândalos na imprensa, chegou a ser chamado de “comunista”. Mais tarde chegou mesmo a considerar a possibilidade de se unir ao Partido Comunista, mas foi rejeitado devido ao seu histórico de simpatias pelo fascismo, mas chegou a presidir um Instituto Cultural Brasil-URSS em 1944. Tendo recusado em 1934 a presidência do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), Lobato se viu vítima dele em 1940, quando foi preso e teve seu livro “O Escândalo do Petróleo” recolhido e destruído. Mesmo fora da cadeia o governo continuou a persegui-lo, liquidando todos os seus negócios. Em 1943 sua única fonte de renda passou a ser os direitos autorais, que renegociou com a recém-fundada Editora Brasiliense.

Da sua dupla atuação, como homem de letras e homem de negócios afeito à política, surge uma contradição que ajuda a explicar em grande parte o seu conteúdo literário neste período. Quando Lobato é acusado de fazer proselitismo de suas crenças pessoais, o que inviabilizaria a defesa de sua obra a partir da perspectiva da separação entre o autor e sua criação, está-se a falar principalmente de suas obras paradidáticas, ainda que também tenha feito proselitismo, de maneira igualmente descarada, em obras ditas de ficção (exemplo: “O Presidente Negro”).

Depois da controvérsia de “Urupês” e dos anos que Lobato levou a atenuar o impacto negativo daí surgido, depois do fiasco de sua investida no mercado americano explorando o racismo; nenhuma outra obra sua foi tão controversa em vida quanto a “História do Mundo Para Crianças”. Os motivos, porém, foram diferentes.

Inicialmente, trata-se de um plágio, porque Lobato; a exemplo do que fizera com o “Peter Pan”, de J. M. Barrie; está reescrevendo uma obra estrangeira a que teve acesso (e que possuía em sua biblioteca pessoal): “A Child’s History of the World”, de Virgil M. Hillyer. A obra original já tinha seus problemas (que não vou procurar detalhar), mas a versão de Lobato não somente não os poda como ainda os agrava, ao acrescentar ao livro a visão eugenista do autor brasileiro.

Lobato era reconhecidamente um eugenista, membro-fundador da Sociedade Eugênica de São Paulo (com Renato Kehl e Belisário Penna). A Editora Revista do Brasil, dirigida por Lobato, publicava os “Annaes da Eugenia” e a Revista cedia espaço amplo a Renato Kehl e Belisário Penna, entre outros eugenistas. Apesar de ter sido forçado a admitir que a causa da miséria do Jeca Tatu não era sua inferioridade racial, mas um problema de saúde pública, Lobato se manteve ligado ao movimento eugenista por quase toda a vida.

Uma prova de que ele ainda era um defensor da eugenia está em “O Presidente Negro”, de 1926, em que Lobato põe na boca de um personagem as seguintes falas:

O direito de reprodução passou a ser regido pelo Código da Raça, o mais alto monumento da sabedoria humana. Só quem apresentasse a série completa de requisitos que a Eugenia impunha — requisitos que assegurassem a perfeita qualidade dos produtos, é que recebia o ministério da Seleção Artificial o brevet de “pai autorizado”.

— Mas realmente parece incrível, miss Jane, exclamei com horror, que ainda hoje tenha o direito de ser pai quem quer! Morféticos há ali na roça que botam no mundo anualmente pequeninos lázaros. E ninguem vê, ninguem diz nada, todos acham que está tudo direito…

Para quem nega que Lobato fizesse proselitismo de suas crenças pessoais através de sua obra, não pode haver desmentido melhor. O termo “eugenia” é usado de maneira inequívoca e o herói do livro defende a eugenia com argumentos parecidos com o de certos políticos de direita de hoje… Mais que isso, Lobato menciona “morféticos” da roça, o que é uma maneira indireta de voltar a atacar o pobre Jeca Tatu, que o autor fora forçado a defender anos antes…

Em “História do Mundo Para Crianças”, Lobato volta a defender a eugenia, agora explicando-a de uma maneira que as crianças possam entender:

Voltando a Esparta, começou Licurgo a organizar a vida dos espartanos conforme as lições que aprendeu. (…) Se os recém-nascidos eram fracos, ou possuíam qualquer defeito físico, a lei mandava abandoná-los numa montanha, para que morressem. Licurgo não queria que houvesse um só aleijado de nascença em Esparta.

— Sistema de tia Nastácia com os pintinhos — observou Emília.

— Ela torce o pescoço de todos que não prometem bons frangos

Para Abreu (2014, p. 133), Lobato ainda está impregnado do discurso do racismo científico, mas já não é racista no sentido lato do termo:

Em sua obra, Lobato parece escrever uma história das raças do mundo, recorrendo a esse termo incontáveis vezes ao longo das trezentas páginas do texto. Ele empregava a palavra raça referindo-se a povos, civilizações, sociedades, etnias, famílias, cor da pele, entre outras definições. Também se valia de diferentes termos da biologia inúmeras vezes, termos esses presentes em toda a mídia impressa, mostrando que estava em consonância com os discursos de sua época. Um detalhe, no entanto, chama a atenção: na época em que escreveu essa adaptação, Lobato provavelmente não acreditava na teoria do enfraquecimento da raça pela mestiçagem, pois ele descreve Narizinho como uma menina muito inteligente e “dum lindo moreninho cor de jambo”.

Neste momento de sua vida o escritor parecia estar em transição. Já não parece ter dos negros as mesmas opiniões gerais de vinte e cinco anos antes, mas ainda reproduz uma caracterização racista de Tia Nastácia (nesta obra e em outras). Condena a escravidão de maneira veemente e elogia aqueles que contribuíram para eliminá-la, porém ainda se refere a certos povos como “bárbaros primitivos”.

Nada disso incomodou ao governo, à igreja ou à sociedade da época. O que realmente causou a controvérsia foi Lobato não ter dado atenção ao criacionismo (o livro começa com o Big Bang) e ter narrado a história sagrada de maneira superficial, preferindo focar nos povos mediterrâneos. Em Portugal, o livro foi acusado de perpetuar a “lenda negra” da colonização (como no episódio em que tripulação de Vasco da Gama supostamente corta as orelhas de 1.600 muçulmanos) e de ridicularizar os feitos portugueses (ao sugerir que a descoberta do Brasil teria surgido por acaso, devido a um erro dos navegadores). Em relação ao acaso, é possível que Lobato tenha sido um dos maiores difusores desta tese — o que testemunharia o impacto cultural de sua obra no Brasil.

Fato é que durante os anos 1930, embora não gozasse da fortuna e do poder de que usufruíra no começo de sua carreira, Lobato se tornara uma personalidade pública influente e conseguira obter, em grande parte através do Sítio do Picapau Amarelo, um canal para difundir suas ideias. Isto explica por que razão as suas obras, a partir de 1930, começam a assumir um ar cada vez mais pedagógico:

Estas duas últimas obras procuravam apresentar as crianças à mitologia grega, que em vários momentos Lobato afirmara ser superior às “pobres superstições” do povo brasileiro (mais sobre isso no capítulo sobre as “Histórias de Tia Nastácia”).

Neste período a partir de 1930, Lobato quase não escreveu novas obras de ficção infantil. As três primeiras aventuras do Sítio publicadas depois de 1930 eram versões ampliadas e/ou reescritas de obras anteriores:

Até a sua morte, Lobato só escreveu mais quatro novas aventuras não didáticas:

Salta aos olhos, então, que Lobato se assenhorou da sua condição de autor infantil de sucesso para tentar “educar” as crianças. Esta é a razão pela qual é necessário discutir o que realmente está nas entrelinhas do seu trabalho.

Racismo e Ecologia “Caçadas de Pedrinho”

O primeiro livro infantil de Monteiro Lobato que despertou o debate sobre a questão do racismo foi “Caçadas de Pedrinho”, de 1933. Antes de tudo temos que lembrar que este livro tem outros problemas além do racismo. Destes, o mais digno de nota é aquele que está no próprio título: a exaltação ao extermínio de animais silvestres.

“Caçadas de Pedrinho” perpetua a noção da natureza adversária do ser humano e do animal selvagem como um obstáculo a ser removido pela civilização. Logo no primeiro capítulo do livro as crianças matam uma onça que até então nada fizera a não ser estar no “Capoeirão dos Taquaruçus”, a mata remanescente entre o Sítio do Picapau Amarelo e as terras vizinhas. Disso resulta uma “guerra” contra os animais das redondezas, que é o grande assunto do livro.

As menções racistas são muitas, mas nem de longe tão agressivas quanto às encontradas em “Urupês”, “O Presidente Negro” ou, como veremos a seguir, “Histórias de Tia Nastácia”. São, em geral, menções sutis em que se desvaloriza Nastácia por ser negra:

— É guerra e das boas. Não vai escapar ninguém — nem Tia Nastácia, que tem carne preta. As onças estão preparando as goelas para devorar todos os bípedes do sítio, exceto os de pena.

Ou uma preferência por enfatizar que Nastácia seria “desajeitada”, “medrosa” ou menos inteligente, por ser preta (a menção à sua raça está sempre presente toda vez que alguma observação negativa se faz a respeito de seu comportamento, como nesses trechos isolados, tomados de diversas partes do livro:

A pobre negra era ainda mais desajeitada do que Rabicó e Dona Benta somados.

— Lá isso é — resmungou a preta, pendurando o beiço.

Sim, era o único jeito — e Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros.

A boneca fez um muxoxo de pouco-caso. Depois, voltando-se para Tia Nastácia:
E você, pretura?

A pobre preta mal teve tempo de trancar-se na despensa, onde fez, no escuro, mais pelo-sinais do que em todo o resto de sua vida.

— Tenha paciência — dizia a boa criatura. — Agora chegou minha vez. Negro
também é gente, sinhá

As três frases mais controversas desta obra são as assinaladas acima. Não há muitas outras, porque “Caçadas de Pedrinho” é uma obra por demais focada na ação, não restando ao autor muito espaço para opinar ou fazer proselitismo. Mesmo assim, são frases que chamam a atenção pela agressividade e porque não estão concentradas na boca de Emília.

A primeira frase é do próprio narrador, ou seja, de Lobato enquanto ele mesmo. Buscando dar comicidade à narração da cena absurda em que uma senhora com pouco preparo físico e já além da meia idade sobe em um pau-de-sebo, o autor caçoa de seus “reumatismos”, aqui dando a entender que seriam fingimento, e a compara a uma “macaca de carvão”, que é uma das coisas mais ofensivas com que Nastácia é descrita em todos os livros do Sítio.

Na segunda, Emília se dirige a Nastácia reduzindo sua identidade à cor de sua pele. Não pelo nome, não pelo qualificativo carinhoso de “Tia”. Para Emília, Nastácia é apenas uma coisa preta, uma “pretura”.

Finalmente, a própria Nastácia, dizendo palavras que Lobato lhe força a dizer, reproduz o racismo estrutural ao chamar Dona Benta de “sinhá” e ao dizer que negro também é gente, o que no contexto do racismo, dá a entender que a humanidade do negro é uma coisa inesperada.

Voltando a falar da questão das caçadas propriamente ditas, uma vez resolvida a questão do ataque das onças ao Sítio, Lobato se lembra de mais uma vez falar mal do Brasil:

Desde essa aventura ficou Pedrinho com mania de caçadas — mas caçadas de feras africanas. Queria leões, tigres, rinocerontes, elefantes, panteras, e queixava-se a Dona Benta (como se a boa senhora tivesse culpa) da pobreza do Brasil a respeito de feras. Chegou a propor-lhe que vendesse o sítio para comprar outro bem no centro de Uganda, que é a região da África mais rica em leões.

Porém o que este trecho realmente faz é reconectar-se com a caçada de onça que realmente aconteceu no primeiro capítulo e reenfatizar como algo positivo o desejo de Pedrinho, desejo de matar animais selvagens.

Tanto quanto o racismo, esta sugestão envelheceu muito mal e nos leva a questionar a viabilidade de ainda se usar este livro num contexto educativo no século XXI.

Racismo e Viralatismo em “Histórias de Tia Nastácia”

Cabe aqui perguntar se esta visão de mundo niilista estava restrita a “Urupês” ou se perpassa outros textos de Lobato. Esta é uma pergunta importante, porque essas ideias não são adequadas para a literatura infantil. Obviamente a resposta não é difícil de enxergar, porque não a determinaremos com base em sua correspondência privada, mas de acordo com aquilo que o próprio autor escolheu publicar.

Para esta finalidade, é interessante analisar “Histórias de Tia Nastácia”, publicada em 1937, obra normalmente acusada de perpetuar o racismo, principalmente ao descrever Tia Nastácia como uma “negra beiçuda” (veremos que esta não é a única e talvez nem seja a mais grave questão presente no livro). A importância deste livro é muito grande porque ele está separado de “Urupês” por quase vinte anos, e de “Velha Praga” por mais de vinte e três. Além disso, é uma obra produzida na plena maturidade do autor, em uma época em que ele se dedicava quase exclusivamente à literatura infantil, dez anos depois do fiasco de “O Presidente Negro”.

Desta forma, se for possível isolar o racismo lobatiano em suas obras para adultos, ou em suas obras da juventude, esta obra seria o exemplar perfeito para testar a hipótese.

Para o contexto desta análise, partirei do pressuposto amplamente aceito (inclusive defendido pelo próprio Lobato) segundo o qual a personagem Emília seria a sua porta-voz dentro das histórias, representando as opiniões reprimidas de seu criador, conforme Lobato explicou em carta a Godofredo Rangel:

Emília começou uma ridícula, feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 200 réis. Mas rapidamente evoluiu, e evoluiu cabritamente — cabritinho novo — aos pinotes. E foi adquirindo tanta independência que, não sei em que livro, quando lhe perguntam: “Mas que você é, afinal de contas, Emília?” ela respondeu de queixinho empinado: “Sou a Independência ou Morte”. E é. Tão independente que nem eu, seu pai, consigo dominá-la. Quando escrevo um desses livros, ela me entra nos dois dedos que batem as teclas e diz o que quer, não o que eu quero. Cada vez mais, Emília é o que quer ser.

Esse extravasar-se através de um personagem é uma técnica literária conhecida como alter ego (do latim, “outro eu”) e serve para manter o fingimento da ficcionalidade. Assim, o emprego do alter ego é uma maneira do autor se expressar na obra sem admitir que ela tenha um caráter autobiográfico, confessional ou predicatório.

A maior prova de que as ideias de Emília são as mesmas de Lobato, apenas apresentadas de maneira irrefletida, é que essas ideias estão de acordo com as presentes em outras obras do autore e ecoam opiniões expressadas privadamente pelo autor em sua correspondência.

Charge em que Monteiro Lobato manipula um fantoche da Emília com cara enfezada. “Histórias de Tia Nastácia” está estruturado como uma obra dialética, em que cada capítulo (exceto o primeiro e o último, que dão contexto à obra) apresenta uma história popular, contada por Nastácia, seguida de “comentários” feitos pelas crianças (Emília, Pedrinho e Narizinho), com a mediação de Dona Benta. Apesar de ser a contadora das histórias, Nastácia fica em uma posição de passividade, sem poder dar a sua opinião (exceto quando solicitada), sofrendo vários tipos de ofensas da boca das crianças (principalmente de Emília), algumas das quais ela supostamente não tem sequer a capacidade de entender, e nunca se recusando a continuar o suplício de narrar as histórias para uma platéia tão desrespeitosa. É falso, portanto, que o maior problema desse livro seja Emília chamar Nastácia de “negra beiçuda”.

Já na primeira página de texto, “Histórias de Tia Nastácia” apresenta o primeiro motivo de crítica, ao apresentar a cozinheira como um mero repositório a ser explorado pelas crianças brancas (grifo adicionado):

— Uma idéia que eu tive. Tia Nastácia é o povo. Tudo que o povo sabe e vai contando, de um para outro, ela deve saber. Estou com o plano de espremer tia Nastácia para tirar o leite do folclore que há nela.

Esta não é uma fala de Emília, mas de Pedrinho, portando aqui não se aplica a licença poética de que Lobato estaria permitindo que a personagem falasse o que queria. Pedrinho não “bate nas teclas e diz o que quer”. Portanto, Lobato não está apresentando a fala do menino como algo controverso e novo, mas como uma espécie de lugar-comum.

Mas isso não é nem uma fração dos impropérios que a Emília começa a desfiar, todos dirigidos ao povo brasileiro em geral, e à Tia Nastácia em particular, começando pelos comentários à primeira das histórias (“O Bicho Manjaléu”), em que encontramos (grifos adicionados):

— Essas histórias folclóricas são bastante bobas — disse ela. — Por isso é que não sou “democrática!” Acho o povo muito idiota

— Nossa Senhora! — exclamou dona Benta. — Vejam só como anda importante a nossa Emilinha. Fala que nem um doutor.

[…]

— Eu também acho muito ingênua essa história de rei e princesa e botas encantadas — disse Narizinho. — Depois que li o Peter Pan, fiquei exigente. Estou de acordo com Emília.

— Pois eu gostei da história — disse Pedrinho — porque me dá idéia da mentalidade do nosso povo. A gente deve conhecer essas histórias como um estudo da mentalidade do povo.

Nesse trecho vemos Emília atacar a democracia porque o povo seria idiota. Na época em que esse livro foi escrito, 1937, o Brasil estava sob a ditadura do Estado Novo varguista e a ideologia política da moda era o fascismo, que também atacava a democracia sob o argumento de que o povo não era capaz de tomar suas próprias decisões. Essas ideias se harmonizam com A Doutrina do Fascimo, de Mussolini e G. Gentile, onde lemos frases como: “o fascismo se opõe à democracia, que confunde o povo com a maioria, rebaixando-o ao nível da maioria”. A diferença é que Mussolini não chama seu próprio povo de idiota.

Que este modo de pensar está de acordo com a ideologia “da moda” nós podemos ver na fala de Dona Benta, que compara a opinião de Emília à de um “doutor”. A conclusão óbvia é que a elite cultural brasileira, em meio à qual Lobato transitava, era contra a democracia e julgava o povo idiota. Portanto, expressar-se em favor do fascismo e sentir-se superior ao povo era uma maneira de parecer doutor.

As crianças têm dificuldade para aceitar as histórias como contadas porque seu gosto está influenciado pela leitura de obras estrangeiras. Como os jovens de hoje, que crescem lendo os best-sellers americanos, Narizinho usa um best-seller de sua época, Peter Pan, de J. M. Barrie, como padrão para julgar as histórias do folclore brasileiro. Esta comparação é injusta e absurda de diversas maneiras.

Inicialmente porque não se pode comparar um relato oral de uma história folclórica com uma narrativa ficcional estruturada por um escritor. Os relatos orais, simplesmente por serem orais, empregam recursos narrativos diferentes das obras escritas, além de terem sido concebidos de forma coletiva, o que prejudica sua coerência. Comparar Peter Pan ao “Bicho Manjaléu” narrado por Tia Nastácia é como comparar um carro de corrida com um carrinho de rolimã.

Adicionalmente, Lobato está fazendo merchandising de seu próprio trabalho, visto que, em 1930, ele havia recontado a história de Peter Pan enquadrada como mais uma aventura do “Sítio do Picapau Amarelo” (o personagem já tinha sido citado em “Reinações de Narizinho”, a versão expandida de “A Menina do Narizinho Arrebitado” publicada também em 1930). Ao dizer que especificamente “Peter Pan” é melhor do que os contos populares brasileiros, Lobato está prejudicando, em seu próprio benefício, a reputação de diversos outros autores que trabalhavam com tradições populares.

Finalmente, pela boca de Pedrinho, Lobato nega valor literário aos contos populares, afirmando que eles só são interessantes como objeto de estudo antropológico (“a gente deve conhecer essas histórias como um estudo da mentalidade do povo”). Esta visão do povo brasileiro como um mero objeto de estudo tem muito a ver com o higienismo social prevalente no entre-guerras, que via a cultura brasileira como um obstáculo ao desenvolvimento.

A segunda história é “O Sargento Verde”, e ao final dela vemos a boneca Emília fazer a mesma comparação de Narizinho:

— Mudanças que as deixam sem pé nem cabeça — insistiu Emília. — Essa do Sargento Verde, por exemplo. É tão idiota que um sábio que quiser estudá-la acabará também idiota. Eu, francamente, passo essas tais histórias populares. Gosto mais é das de Andersen, das do autor do Peter Pan e das do tal Carroll, que escreveu Alice no Pais das Maravilhas. Sendo coisas do povo, eu passo…

Para Emília, estudar a cultura “idiota” de um povo “idiota” leva até mesmo os sábios a se tornarem idiotas. Em vez disso, Emília prefere histórias estrangeiras. Sendo coisa do povo, ela dispensa. Esse tipo de fala soa terrivelmente parecido com os “booktubers” de hoje. Mude os títulos para outros contemporâneos, cite outros autores estrangeiros e esta frase rola perfeitamente na boca da juventude leitora de hoje, fã de Harry Potter.

Quando Tia Nastácia conta a terceira história, a da “Princesa Ladrona”, as crianças ficam ainda mais frustradas, por não encontrarem na história nenhum fio narrativo claro e nenhuma moral. Diante dos protestos das crianças, a simpática Dona Benta, supostamente o contraponto racional e adulto à impetuosidade de Emília, resolve “defender” Tia Nastácia e o povo brasileiro, dizendo:

— Sim — disse dona Benta. — Nós não podemos exigir do povo o apuro artístico dos grandes escritores. O povo… Que é o povo? São essas pobres tias velhas, como Nastácia, sem cultura nenhuma, que nem ler sabem e que outra coisa não fazem senão ouvir as histórias de outras criaturas igualmente ignorantes, e passá-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda.

Se é verdade que “não podemos exigir do povo o apuro artístico dos grandes escritores”, reduzir o povo brasileiro a “pobres tias velhas sem cultura nenhuma” (Nastácia estava na mesma sala ouvindo isso) é desnecessariamente ofensivo, além de ser mentiroso. Lobato está aqui claramente negando que exista ou possa existir qualquer conhecimento de origem popular, o que é um pensamento elitista e eurocêntrico. O povo brasileiro, para ele, se carateriza somente pela ignorância e pelo hábito de adulterar o pouco conhecimento que transmite. O povo brasileiro, na visão de Monteiro Lobato, é um selvagem que precisa ser civilizado pelo homem branco.

Emília, porém, eleva o tom, mais uma vez:

— Pois cá comigo — disse Emília — só aturo essas histórias como estudos da ignorância e burrice do povo. Prazer não sinto nenhum. Não são engraçadas, não têm humorismo. Parecem-me muito grosseiras e bárbaras — coisa mesmo de negra beiçuda, como tia Nastácia. Não gosto, não gosto e não gosto…

Esse é o trecho da discórdia, em que Emília xinga Nastácia de “negra beiçuda”. Em minha modesta opinião, esta injúria racial está longe de ser o pior deste trecho e eu vou provar isso de uma maneira que nenhum preto discordará de mim: é que Emília tem a última palavra. Quando um personagem diz uma coisa horrível, isto não necessariamente quer dizer que ele está expressando o pensamento do autor, ou que o autor está usando o personagem para fazer proselitismo de suas crenças; mas o que se pode dizer quando o autor permite que uma fala tão agressiva fique sem resposta dentro da obra? Claramente o pior não é Emília dizer isso, é isso ser admitido sem controvérsia, como se fosse o lugar-comum.

Nem esse é o único problema aqui: antes da injúria específica contra os pretos, Emília diz uma coisa muito curiosa, que as histórias (que, aliás, só servem para estudar “a ignorância e burrice do povo”) não são engraçadas, não têm humorismo. Isto evoca um trecho de “Urupês”, escrito 19 anos antes:

O caboclo é soturno.

Não canta senão rezas lugubres.

Não dança senão o catêrêtê aladainhado.

[…] Triste como o curiango, nem sequer assobia.

Para quem propõe que haja uma separação entre o Lobato da ficção para adultos e o Lobato da ficção infantil, observar esta coincidência deve ser uma ducha de água fria. Aqui temos uma prova inequívoca de que Lobato não abandonou sua visão negativa sobre o povo brasileiro, que sua obra possui uma continuidade conceitual entre o universo adulto de 1918 e o infantil de 1937. Mais que isso, tanto em “Urupês” quanto em “Histórias de Tia Nastácia”, o autor faz, sim, proselitismo de suas ideias. Em “Urupês”, por se tratar de um ensaio, um texto não-ficcional, em “Histórias…” por incluir ao fim de cada narrativa uma discussão sobre seu valor.

A história seguinte é “O Pássaro Preto”, e Emília intervém, logo após de a própria Dona Benta admitir que a história é decepcionante “por não ter uma moral”. Observemos aqui que Lobato, assumindo um papel de pedagogo, considera desejável que as histórias tenham uma moral. Donde se conclui que ele procura dar uma moral às suas. Ou seja: há, sim, em sua ficção, adulta ou infantil, um desejo de fazer proselitismo de seus ideais. A fala de Emília é a seguinte:

Tudo bobagens de negra velha. Nessa história vejo uma fieira de negras velhas, cada qual mais boba que a outra — que vão passando a história para diante, cada vez mais atrapalhada.

Lembremos que Tia Nastácia não tinha saído depois de contar sua história. Ela ouviu isto passivamente. Ouviu também a ameaça gratuita que Emília lhe faz pouco depois:

— E já viu pássaro que não seja de pena, sua tola? — disse Emília. — O que vale é que você mesma confessa não ter culpa das idiotices da história, senão eu cortava um pedaço desse beiço…

Tomemos nota de que, pela segunda vez no livro, Emília se refere aos “beiços” de Tia Nastácia, uma maneira de destacar seus traços africanos de maneira negativa. Atente bem para isso. E também que Emília tem novamente a última palavra, porque, quando Dona Benta a adverte para ter respeito pelos mais velhos, ela responde que é capaz de respeitar até uma abelha que lhe diga algo sensato, mas que poria fogo nas barbas do próprio Matusalém se ele lhe dissesse alguma bobagem. Emília triunfa novamente.

A história seguinte é “A Raposinha”, e ao fim dela Emília é quem toma a iniciativa, dizendo:

— Bom — disse Emília. — Esta já está mais bem arranjadinha. Mas eu noto uma coisa: as histórias populares parecem que são uma só, contada de mil maneiras diferentes. Falam tanto na tal imaginação do povo e eu não vejo nada disso. Vejo apenas uma grande pobreza.

Novamente Emília ecoa ideias expressar originalmente por Monteiro Lobato em “Urupês”:

Geca por dentro rivalisa com Geca por fóra. O mobiliario cerebral, á parte o succulento recheio de superstições, vale o do casebre. O banquinho de tres pés, as cuias, o gancho de toucinho, as gamellas reeditam-se dentro do seu caco sob a fórma de idéas: são as noções praticas da vida, que recebeu do pae e que, intactas, transmittirá aos filhos.

Lobato poderia ter aproveitado para fazer algum contraponto; porém, novamente, as ideias de Emília não são contestadas. Em vez disso, Dona Benta empresta sua “sabedoria”, sua erudição e sua “experiência de vida” para legitimar a opinião da boneca de pano:

— Sim — disse dona Benta. — Também eu não encontro grande riqueza de imaginação no nosso povo. As histórias que por aí correm de fato se repetem, parecendo ser todas do mesmo ciclo.

Curiosamente, Lobato tem cultura e vivência suficientes para saber que a formação de ciclos literários não denota ignorância nem falta de imaginação, mas é característica da cultura popular em todo o mundo. A mesma Dona Benta que legitima a ideia de que o povo brasileiro não tem imaginação porque suas histórias repetem padrões cita na sua fala seguinte que na Europa medieval surgiram ciclos de história, como o do Rei Arthur. Pedrinho, por sua vez, nota que o cinema americano apresenta o mesmo problema da repetitividade. Assim como Lobato não foi capaz de perceber que a diferença entre o Jeca e o seu vizinho estava no estímulo proporcionado pela propriedade fundiária, ele também não percebe que o brasileiro não é inferior por criar ciclos de histórias. Na cabeça reacionária de Lobato, convivem a constatação de que ciclos literários existem no mundo todo e a utilização dos ciclos literários como argumento para inferiorizar a cultura popular brasileira.

Na história seguinte, “O Homem Pequeno”, é Pedrinho que faz a primeira observação ofensiva:

— Outra coisa que não me agrada — disse Pedrinho — é o tal canteiro de cebolas. Bem se vê que é história contada por negras velhas, cozinheiras. Só faltou transformarem a moça num saquinho de sal, a espingarda em uma cabeça de alho e os cavalos num frango assado.

Para Pedrinho, é desagradável que os criadores da história (“negras velhas, cozinheiras”) utilizarem nela elementos pertencentes ao seu dia-a-dia. Isto reflete o gosto do menino (e do próprio Lobato) pelo exotismo, o seu deslumbramento com elementos “civilizados”. Pedrinho não gosta de histórias que tenham a marca de quem as criou. Isto, novamente, ecoa muito os “booktubers” de hoje, que se sentem repelidos por personagens com nomes brasileiros ou que desejam histórias com apelo universal.

Ao final da história seguinte, “A Moura Torta”, que recebe certos elogios das crianças, o autor cria uma situação a mais para ridicularizar a pobre Tia Nastácia:

— E tenho razão — disse a ex-boneca. — Não há nada mais lindo que uma pombinha bem branca, com aqueles olhos tão redondos. A minha ave predileta sempre foi a pombinha. E a sua, tia Nastácia?

A negra teve vergonha de dizer. A ave predileta de tia Nastácia sempre fora uma galinha bem gorda, das boas para fazer de molho pardo.

Há duas coisas a se observar aqui. A primeira é que Emília enfatiza a lindeza de uma pombinha branca. A segunda é que o narrador quebra a “quarta parede” (se é que podemos aplicar este termo aqui) para negar que Nastácia pudesse ter preferências estéticas. Assim, enquanto Emília se sente atraída pela beleza exterior (portanto “inútil”) de uma pombinha (animal que as pessoas do Sítio não comem), Nastácia somente se interessaria por galinhas, úteis para se preparar para comer. É uma forma curiosa de desumanizar a personagem, ou melhor, de animalizá-la, ao reduzir suas preferências àquelas ditadas pelas necessidades básicas. Assim, a negra Nastácia não é capaz de apreciar a beleza, mas, apenas, de saciar seu apetite.

A décima história, “Manuel da Bengala”, contém outra oportunidade para Emília desumanizar o povo brasileiro. Ao final da narrativa as crianças discutem as imperfeições de uma história que, no geral, consideram boa. Emília conclui a discussão, ou seja, novamente sua opinião fica sem contraponto:

É o que eu digo — ajuntou Emília. — O povo, coitado, não tem delicadeza, não tem finuras, não tem arte. É grosseiro, tosco em tudo que faz. Este livro vai ser só das histórias populares do Brasil, mas depois havemos de fazer um só de histórias compostas por artistas, das lindas, cheias de poesia e mimos — como aquela do Príncipe Feliz, do tal Oscar Wilde, que dona Benta nos leu. Aquilo sim. Até deixa a gente leve, leve, de tanta finura de beleza!

Esta opinião, escusado dizer, novamente ecoa a representação caricata do Jeca, feita por Monteiro Lobato em “Urupês”. A novidade não é esta, é que Lobato já faz seu merchandising do projeto seguinte, um livro “só de histórias compostas por artistas, das lindas, cheias de poesia e mimos”. Esse anúncio (de um livro que ele não chegou a escrever) é feito em um contexo de inferiorização das histórias populares brasileiras. A sequência logica é simples: o povo não tem arte, tudo que ele faz é grosseiro, este livro é só de histórias populares do Brasil (portanto, de histórias grosseiras e sem arte), mas haverá um com histórias melhores. O exemplo de história melhor é uma obra de Oscar Wilde — fato que, novamente, exibe o fascínio de Lobato pelo estrangeiro.

A partir deste ponto Lobato reconta diversas histórias que recebem das crianças avaliações demodo geral positivas. Somente a décima-nona história nos traz, em seus comentários, um assunto digno de nota. Este diálogo a respeito de beijus, iguaria mencionada na história que tinham acabado de ouvir:

Mas o pior — disse Narizinho — é que fiquei com água na boca de vontade de comer os tais beijus. Que será beiju? Nunca vi isso.

— É mesmo! — disse dona Benta voltando-se para tia Nastácia. — Está aí um petisco que você nunca se lembrou de fazer.

— E sei fazer, sinhá, sei fazer beijus dos mais gostosos, mas nunca encontro por aqui farinha boa. A da venda do Elias Turco não vale nada — é como o nariz dele.

— E eu — disse Pedrinho — fiquei com vontade de comer mandioca cozida, da bem enxutinha, com melado de rapadura. Upa! É uma coisa da gente lamber os beiços.

Beiço é de boi — protestou Emília. — Gente tem lábios.

A primeira observação pertinente aqui é o comentário racista de Nastácia a respeito do nariz do Elias Turco, reproduzindo o que o povo sempre disse a respeito dos imigrantes do Oriente Médio. Esta observação dificilmente vem da personagem Nastácia, ela filtra do preconceito peculiar de Monteiro Lobato contra esses estrangeiros inferiores.

Mas o que chama mesmo a atenção aqui é que Emília censura Pedrinho por ele dizer que a lembrança de mandioca com melado lhe dá vontade de “lamber os beiços”. Aqui ela faz questão de dizer que “gente tem lábios”, porém, no começo do livro, a mesma Emília, em duas oportunidades, se referiu aos “beiços” de Nastácia. Por meio deste “ato falho” da personagem, alter ego do autor, transpira que Lobato não considerava os negros como seres humanos ou, pelo menos, como seres humanos iguais a ele mesmo.

Este é o Lobato de 1937, oito anos depois do fiasco de “O Presidente Negro”, dezenove anos depois de “Urupês” e vinte e três anos depois de, inspirado pelos seus desencontros com os jecas, ter escrito “Velha Praga”.

Os índios se tornam o alvo de Lobato na história seguinte, “O Cágado na Festa no Céu”, quando Narizinho (e não Emília) afirma que:

— Pobres índios! — exclamou Narizinho. — Se as histórias deles são todas como essa, só mostram muita ingenuidade. Acho que os negros valem mais que os índios em matéria de histórias. Vá, Nastácia, conte uma história inventada pelos negros.

Lembremos que os caboclos, os “jecas” contra quem Lobato se insurgiu no começo de sua carreira, eram basicamente mestiços de portugueses e índios. Esse racismo contra o indígena não é uma novidade, como vimos na análise de “Urupês”. Nem é novidade que Lobato os considere até mesmo inferiores aos negros, haja vista sua opinião sobre a musicalidade do caipira e do mulato.

Ao final da vigésima-segunda história, “O Macaco e o Coelho”, é Dona Benta a responsável pela controvérsia. Em um livro que se dedica a colher histórias populares brasileiras, a matriarca do Sítio interrompe-nos para dizer:

— Vocês precisam ler — disse dona Benta — as histórias de macacos que Rudyard Kipling conta naquele livro de Mowgli,o Menino Lobo. Esses macacos de Kipling são os Bandarlogs, nome de certos macacos da Índia. Os outros animais os desprezam, por causa da sua leviandade, da sua falta de seriedade, das suas molecagens. São uns perfeitos louquinhos, os macacos.

Sim, amigo leitor, Dona Benta recomenda ao leitor que está acompanhando uma coletânea de histórias de nosso folclore que ele leia as obras de um autor inglês que escreveu sobre o folclore da Índia! Fica até parecendo que Lobato não queria escrever sobre as histórias de nosso folclore, mas que foi obrigado a fazer isso por insistência dos editores (nessa época ele já tinha deixado de ser o próprio editor).

A questão da desumanização da Tia Nastácia retorna na vigésima-terceira história, “O Macado, o Veado e a Onça”, em que se discute a matança de carneiros para comer:

— Ué! — exclamou tia Nastácia. — Pois para que serve carneiro senão para ser comido? Deus fez os bichos cada um para uma coisa. A sina dos carneiros é a panela.

Emília danou.

Bem se vê que é preta e beiçuda! Não tem a menor filosofia, esta diaba. Sina é o seu nariz, sabe? Todos os viventes têm o mesmo direito à vida, e para mim matar um carneirinho é crime ainda maior do que matar um homem. Facínora!…

Não somente Emília volta a usar “beiçuda” como uma injúria racial, como afirma que Nastácia é um demônio sem filosofia (sem conhecimento). A associação dos negros com o demônio era muito mais antiga que Lobato, estava no imaginário popular desde a época dos descobrimentos.

Depois desta história temos novamente uma sequência elogiada pelas crianças e o livro se encaminha para o fim, o que poderia resultar em o leitor ter uma opinião final mais positiva sobre nosso folclore. Mas o autor escolhe que não seja assim, ao introduzir duas importantes mudanças: 1) Agora é Dona Benta que conta as histórias (a partir da trigésima-oitava) e 2) São contadas histórias de diversas origens (Cáucaso, Pérsia, Congo, Canadá, Rússia, Islândia) e o livro termina com uma história pertencente ao folclore urbano do Rio de Janeiro.

Temos vários problemas aqui. O primeiro é que Dona Benta seja a responsável por concluir as “Histórias de Tia Nastácia”, contando justamente as histórias que as crianças consideram as mais bem acabadas e mais elogiáveis, e o outro é que uma obra que o próprio autor propôs que fosse uma coletânea de narrativas do folclore brasileiro (de que Nastácia seria o repositório) termine com seis histórias estrangeiras e uma (somente) que não pertence ao mesmo tipo de folclore que todas as demais. Um terceiro problema é que justamente as duas histórias provenientes de duas regiões da África sejam intermediadas pela narradora branca, em vez de Tia Nastácia, que, a esta altura, já voltou para a cozinha.

As reações das crianças a essas sete histórias finais, embora favoráveis no geral, comportam críticas tmabém. A primeira destas críticas, não surpreendentemente, é contra a “História dos Macacos”, do folclore do Congo:

— Esta história se parece, com as nossas daqui — disse Narizinho. — Bem bobinha.

Sim, mas que havemos de esperar dos pobres negros do Congo? Sabem onde é o Congo?

— Sei — disse Pedrinho. — É quase no centro da África, do lado daquela costa que o senhor Pedro Álvares Cabral evitou de medo das calmarias. Há o Congo Belga e o Congo Francês. E sei também que cá para o Brasil vieram muitos escravos desses Congos.

— É verdade. O pobre Congo foi uma das zonas que forneceram mais escravos para a América, de modo que muitas histórias dos nossos negros hão de ter as raízes lá.

— Quem sabe se tia Nastácia é do Congo? — lembrou Narizinho.

— Não — disse dona Benta. — Nastácia é neta dum casal de negros vindos de Moçambique.

A história é classificada de “bobinha” por se parecer com “as nossas daqui”. Uma personagem, que, no contexto, parece ser a Emília, observa que não se pode esperar muito dos “pobres negros do Congo”. De alguma forma, sugere-se aqui que os negros também não teriam a arte desenvolvida. A boneca ainda pergunta, retoricamente, onde fica o Congo; uma maneira de ironizar a África como terra de “pobres negros” criadores de histórias “bobinhas”.

Finalmente, como Tia Nastácia retornou à cozinha, ela não está presente nem mesmo para estabelecer suas origens. Quando as crianças perguntam, é Dona Benta, a sua sinhá, quem esclarece quem foram os avós de Nastácia, vindos de Moçambique. No contexto da história, até mesmo a genealogia dos negros está sob controle e intermediação dos brancos. E estamos já em 1937, prestes a completar cinquenta anos da emancipação dos escravos. Nastácia nasceu livre, mas seus pais eram escravos, filhos de escravos.

Teria Lobato Superado o Racismo?

Uma das respostas que os defensores de Lobato dão às críticas de seu racismo repousam sobre a sua suposta evolução enquanto ser humano. Afinal, todos temos o direito de errar e de evoluir ao longo da vida, tornando-nos pessoas melhores, ou não?

Monteiro Lobato realmente parece ter abandonado certas convicções, ainda que lentamente, e de fato andou a arrastar simpatias para a esquerda, chegando a namorar o Partido Comunista. Seria isto, porém, o indicativo de uma conversão real, ou seria mais uma manobra marketeira do autor, empurrado para a esquerda devido ao conflito do petróleo?

Não podemos analisar um homem como Lobato à luz de uma perspectiva única de sua obra e de sua personalidade, porque os direcionamentos ideológicos do entre-guerras não eram como os de hoje. Naquele contexto, os EUA eram um modelo revolucionário alternativo ao comunismo e a americanofilia não era incompatível com o nacionalismo. Como muitos nacionalistas da época, Lobato via os EUA como um modelo a imitar, não como um líder a seguir. Ele não colocava o Brasil em subordinação a uma potência, mas, sim, como um país que poderia obter a igualdade com esta mediante a adoção das mesmas políticas de desenvolvimento.

Infelizmente, aquele país que proporcionava um modelo alternativo e revolucionário para os progressistas era, também, o país que perpetuava a discriminação racial contra os negros, em que ainda estava em curso o genocídio indígena (por meio da esterilização forçada de toda mulher indígena que buscasse assistência médica no parto) e ainda propagava antissemitismo e teses de racismo científico para justificar a supremacia branca. Ideologicamente, os EUA eram mais próximos do nazi-fascismo do que estamos preparados para admitir.

Como Lobato surgiu em um caldo de cultura baseado nesses princípios, ver o sucesso dos EUA era ver os resultados práticos da implementação deles. Por isso o reforço do racismo de Lobato ao entrar em contato com as questões raciais americanas, isto depois de o autor ter recebido uma lição em regra a respeito de suas teses eugenistas contra os caipiras paulistas.

Nas últimas obras de Lobato; “O Picapau Amarelo” (1939), “O Minotauro” (1939), “A Reforma da Natureza” (1941), “A Chave do Tamanho” (1942) e “Os Doze Trabalhos de Hércules” (1944); vemos uma descrição mais gentil de Nastácia, em que Emília já não a agride verbalmente como antes e ela não é mais qualificada com epítetos racistas (ainda é tachada de crédula e simplória, mas a este ponto seria impossível mudar sua personalidade). Nastácia ainda é rotulada por sua cor (“a preta”, “a negra”), porém adjetivos mais agressivamente racistas não aparecem. Nestas obras, gradualmente o furor contra “a preta” baixa de tom.

Isso logicamente não quer dizer que Lobato deixou de ser racista, apenas que a batalha pelo higienismo racial deixou de ser a prioridade (além do mais, por ser solteirona e sem filhos, Nastácia não era uma ameaça ao ideal eugênico, mas um modelo desejável de comportamento para os “inferiores”). Nos últimos anos de vida a sua obsessão se tornou o petróleo, sua luta política se aproxima do nacionalismo e sua escrita agora busca agradar ao público mais amplo possível, a fim de gerar mais direitos autorais e fama, que ele utilizará em prol de sua causa.

Por isso é que em obras como “Histórias de Tia Nastácia” ele faz tantas referências a autores estrangeiros: está fazendo publicidade de seu trabalho como tradutor e as obras que cita são as que ele mesmo traduziu. Por isso em “O Picapau Amarelo” ele traz os persoangens dos contos de fadas para o Sítio: está buscando inserir seu trabalho, em pé de igualdade, entre as grandes obras da literatura infantil, como as dos Irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen.

Conclusões

Por muito tempo prevaleceu a tese de que Lobato teria ficado desgostoso com o público adulto e passado a escrever para crianças, em que teve mais sucesso. Esta tese, porém, não está de acordo com os fatos da sua biografia: se é verdade que ao morrer ele se dedicava à literatura infantil; também é verdade que ainda continuou a escrever e publicar livros para adultos mesmo depois de já ter dado início à sua escrita para crianças, embora com menos dedicação. Lobato não teve uma “fase adulta” seguida de uma “fase infantil”; em vez disso, foi um autor prolífico e de múltiplos interesses que passou a se dedicar predominantemente a um desses interesses depois de ter fracassado em outros.

Nas décadas depois de sua morte, Lobato passou a gozar de uma reputação acima de quaisquer questionamentos; o que ocorreu, em grande parte, devido ao sucesso do “Sítio do Picapau Amarelo”. Isso permitiu que se formasse uma imagem de um Lobato gentil e tolerante, um pedagogo, uma figura paternal. Esta imagem está muito longe do homem de carne e osso que ele foi: um adepto da eugenia, um simpatizante de ideias perigosamente próximas do nazismo, um cultuador da influência estrangeira, um racista tão literal quanto possível e um proselitista dessas ideias. Esta imagem bonachona se manteve, em grande parte, pelo ocultamento de suas obras para adultos. Em nenhuma biblioteca onde houvesse a coleção do Sítio do Picapau Amarelo haveria também um exemplar de “Urupês” ou de “O Presidente Negro”. Os contos do autor que foram antologizados são os encontrados em “Negrinha” e em “Cidades Mortas”. As biografias de Lobato apenas mencionam o personagem Jeca Tatu, mas não se referem a “Ideias de Jeca Tatu”, “Jeca Tatuzinho” ou “O Problema Vital”.

Contracapa da “Revista do Brasil” em 1923 Em 1921 a contracapa da “Revista do Brasil” nos mostra que Lobato continuava a republicar “Urupês”, escrevera novas obras sobre a questão racial (“Idéias de Jeca Tatu” e “Cidades Mortas”) e já começara a escrever o Sítio do Picapau Amarelo.

Por mais que se queira separar as duas coisas, a verdade é que o mesmo homem escreveu “Urupês”, “Reinações de Narizinho”, “O Presidente Negro” e “Histórias de Tia Nastácia”. As ideias expressas por Lobato nos livros do Sítio não são diferentes das mesmas que expressara antes e continuou expressando pela vida inteira, apenas aparecem atenuadas por se tratar de obras voltadas ao público infantil. Assim, em vez da crua descrição da política eugênica encontrada em “O Presidente Negro”, Lobato apresenta às crianças o “sistema de tia Nastácia com os pintinhos”, uma maneira infantilizada de doutrinar a eugenia nos pequenos leitores.

De fato, há mais semelhança das ideias do “Sítio” com as expressas em “Urupês” (1918), do que com as ideias mais progressistas que Lobato expressou, por exemplo, em “Negrinha” (1920) e em “Jeca Tatuzinho” (1924). Isso dá margem para se considerar que Lobato usou a literatura infantil para seguir defendendo ideias que já não podia defender abertamente nos livros para adultos (ele tentou mudar para os EUA e defender essas ideias lá, mas elas foram consideradas excessivas até mesmo pelos americanos); que ele recuou do debate aberto quando se viu tolhido e preferiu doutrinar mais sutilmente as crianças.

Outros Textos Meus Sobre Lobato

Referências

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