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by J. G. Gouvêa Atualizado em 28 de maio de 2021

A Mentalidade Colonial

Publicado em: 20/05/2021

Um longo ensaio baseado em diversas respostas escritas para o <Quora.com>, tanto em inglês quanto em português, entre 2017 e 2021, nas quais expressei, com graus crescentes de precisão, minha teoria sobre a mente colonizada.

A constatação de que os problemas do Brasil — notoriamente o seu atraso socioeconômico — teriam origem na “elite” está baseada no estudo do processo histórico do país, não é alguma ideia tirada de trás da orelha de quem o diz. Aqueles que repetem como piada que “o brasileiro devia ser estudado pela NASA” não se dão conta de que o “brasileiro” já foi estudado; não pela NASA, mas pelo conjunto das Ciências Sociais; e que existem, há pelo menos meio século, um corpus teórico bastante robusto que nos ajuda a ver as razões reais de nosso atraso.

Este artigo foi escrito a partir da pergunta retórica postada no <Quora.com>: “Por que os historiadores de esquerda falam tanto em”elite" para justificar o atraso do Brasil, como se outros países não tivessem uma elite e como se países ricos, como os EUA e a Austrália, não tivessem tido uma elite colonial?" Temos de citar cinco aspectos do debate, que não são mencionados nesta pergunta:

  1. O problema não é ter uma elite, é ter uma elite como a temos.
  2. Não somos especialmente desfavorecidos por termos a elite que temos: há elites iguais e até piores que a nossa.
  3. Mas somos um país bastante mais importante que os países onde se encontram as piores elites do mundo. Isto quer dizer que o Brasil é mais visado e tem mais potencial: portanto se espera muito mais de nossa elite que da elite de um pequeno país sem grandes perspectivas de desenvolvimento.
  4. Então, termos uma elite semelhante à de pequenos países menos relevantes nos condena a padecer mais que eles, pelo menos, a não usufruir das condições melhores que poderíamos ter.
  5. O funcionamento da elite colonial foi diferente em cada país, não só por razões próprias do processo colonial (aquela coisa de colonização exploradora ou povoadora, que é bem discutível quando vista em detalhe), mas também por razões geopolíticas e raciais.

As Diferentes “Mentalidades Coloniais”

Indo direto ao ponto, devemos dizer que a “mentalidade colonial” consiste na ideologia que permeia a colonização. Muito mais que a estrutura econômica ou social (exploração ou povoamento), essa ideologia impacta nas perspectivas futuras de desenvolvimento, ao determinar de que maneira cada país, depois de descolonizado, vai se relacionar com a antiga metrópole e com os demais membros da comunidade das nações.

Há dois tipos de “mentalidade” colonial:

Mentalidade colonial continuadora

O que chamo de mentalidade colonial “continuadora” é um conjunto de atitudes dos colonos no sentido de cortar em definitivo todos os laços com a metrópole e continuar suas vidas na colônia, de forma que buscam construir de fora permanente uma comunidade que dotam de cada uma das estruturas sociais metropolitanas. Chamo-a “continuadora” porque ela se propõe a “continuar” a civilização, nos mesmos moldes que os colonos a conheciam antes de virem para a colônia.

Na mentalidade colonial continuadora não se vê nenhuma separação adicional entre a elite e o povo. Obviamente existirão classes sociais, produto do período histórico, mas estas só reproduzem e continuam as divisões de classe que havia na metrópole. De fato, a estrutura social na colônia tenderá a mudar, ou atenuar, essas estruturas (ainda que não as rompa). A evolução social ocorre de uma maneira gradual, favorecendo a construção de consensos. Isso permite o estabelecimento do “império da lei”, tão importante no desenvolvimento político dos países.

Mentalidade colonial típica

Esta é um conjunto de atitudes dos colonos no sentido de manter os laços com a metrópole, tanto quanto possível, enquanto buscam obter na colônia a solução do motivo pelo qual tiveram de vir ou optaram em vir. Tudo que o colono típico vê na colônia é apenas a oportunidade de obter riquezas, para que um dia possa retornar à metrópole e viver seu projeto de vida. Então o colono não se propõe a continuar a civilização metropolitana na colônia, no máximo admite reconstrui-la parcialmente, mas só para atender às necessidades mínimas de sua existência digna.

A mentalidade colonial típica é criada por uma ruptura do tecido social. Ainda que a metrópole sempre tente reproduzir na colônia estruturas sociais análoga às suas, o projeto se vê limitado por fatores como extensão territorial e multiplicidade de desafios a enfrentar no estabelecimento da colônia. Um dos fatores que vão acelerar (se não causar) o processo é a miscigenação racial.

As Mentalidades Coloniais e a Miscigenação

Os dois diferentes tipos de mentalidades coloniais resultaram em duas atitudes contrastantes na relação com os povos nativos.

A Mentalidade Colonial Continuadora

A homogeneidade das estruturas sociais é o principal dos fatores explicativos da estabilidade de países que também foram colônias como nós. Quando a colônia se assenta sobre uma estrutura social única e “continuadora” de estruturas conhecidas na Europa, não ocorrem rupturas e surge, aos poucos, um modus vivendi natural da colônia, que “continua” e adapta princípios costumeiros que a colonização europeia legara. Porém, se a colônia tem de acomodar duas ou mais estruturas sociais concorrentes, criam-se situações de ruptura possível, dificultando manter os princípios herdados.

Nas colônias ditas “de povoamento”; como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia; os povos que antes habitavam a região colonizada não foram aceitos na sociedade colonial, mas foram, em vez disso, gradual ou subitamente, expulsos para a periferia, ignorados, perseguidos, exterminados ou simplesmente mantidos na condição de párias ou pestes. A sociedade colonial construída em cada uma delas teve a cultura europeia como elemento central, no máximo temperada por elementos “exóticos” selecionados de alguma cultura local. O que explica a celebrada “continuidade” dos seus costumes, tradições e leis não é uma superioridade moral, mas um processo de genocídio que “limpou” o terreno para a construção e a manutenção dessa estabilidade.

Essas colônias “de povoamento” são raras, no entanto. Tão raras, na verdade, que se pode até perguntar se a categoria “colônia de povoamento” merece existir, se não deveríamos simplesmente notar que os exemplos conhecidos correspondem, antes de qualquer outra característica, a quatro colônias britânicas que compartilham como esse processo de genocídio como elemento fundador, enquanto as demais colônias britânicas funcionaram de maneira diferente e adotaram sistemas econômicos e sociais comuns ao colonialismo da Era dos Descobrimentos.

A Mentalidade Colonial Típica

Nas colônias ditas “de exploração”, que correspondem, de fato, à ampla maioria dos casos, não se teve o citado genocídio, ou, de outra forma, o genocídio teve uma dinâmica diferente, conforme a necessidade do sistema de exploração econômica ali adotado. Na colonização de tipo comum, os povos originais foram incorporados à estrutura social colonial no papel de força de trabalho. Não seria econômico explorar as riquezas locais tendo de trazer cada trabalhador da Europa. Não somente porque o transporte já seria caro, mas porque nem toda nação colonizadora tinha população que fosse suficiente para povoar e explorar suas colônias. Sem falar que o europeu, desconhecendo o território e seu potencial, teria naturalmente mais dificuldade para obter resultado rápido. Esse é um problema que não houve nas citadas quatro colônias ditas de “povoamento” porque nelas o clima e as atividades econômicas não eram radicalmente diferentes da Europa — o que permitia o uso de trabalhadores europeus. Além disso, a Inglaterra (mais tarde, o Reino Unido) era mais populosa que Portugal e Holanda (até que a Espanha) e teve colônias menores. Mesmo assim, só começou para valer a colonização da Austrália e da Nova Zelândia (e do Canadá também) depois de ter perdido as 13 Colônias americanas.

Aqui fica evidente que o genocídio praticado contra os indígenas nas colônias espanholas não teve a mesma natureza que aquele que foi praticado pelos ingleses (e britânicos) contra os nativos de suas colônias “de povoamento” (aqui estamos nos detendo somente, e tão somente, nas quatro colônias citadas anteriormente). Todas as mortes e depredações praticadas pelos espanhóis decorreram de um processo “necessário” (nos termos do empreendimento colonial) de subjugação e controle, enquanto os ingleses as praticaram com o claro objetivo de eliminar os elementos nativos. Para o modelo colonizador exploratório típico, o nativo é um recurso econômico interessante, eis que pode ser empregado como força de trabalho. Para o modelo colonizador “de povoamento”, o nativo compete pela terra e seus recursos econômicos, ao mesmo tempo que a sua força de trabalho não é um recurso econômico. Por exemplo: um nativo do Peru era útil aos colonos espanhóis por cultivar os alimentos típicos do clima local e por trabalhar na mineração. Os colonos precisavam desses alimentos porque os cultivos típicos da Europa não se adaptavam bem ao clima do Peru. Também necessitavam que o nativo trabalhasse nas minas porque não havia mineiros espanhóis suficientes para explorá-las. Enquanto isso, os colonos ingleses de Boston, por exemplo, só precisavam dos índios para transações comerciais substituíveis (comércio de peles). Não só os cultivos europeus se adaptaram ao clima da América do Norte: cada uma das atividades típicas de um borough inglês pode ser replicada nas cidadezinhas fundadas lá. Os nativos não serviriam como força de trabalho nessas pequenas manufaturas e artesanatos e nada tinham a oferecer em termos de alimentos.

Dessa situação decorrem oportunidades diferentes de miscigenação racial. Portugueses e espanhóis não se miscigenaram com os povos nativos de suas colônias porque eram “tolerantes”, mas pelo fato de que conviviam com eles — o que criava oportunidades para os contatos sexuais, normalmente não consentidos. Se os portugueses e espanhóis fossem mesmo tolerantes, a miscigenação teria criado laços sociais mais consistentes nas sociedades latinoamericanas, mas nós sabemos que isso não ocorreu.

Persistência da Mentalidade Colonial

É natural, portanto, que as duas mentalidades coloniais evoluam politicamente de maneiras diversas.

Nas Colônias de Mentalidade Continuadora

Como visto acima; as colônias “de povoamento”, ou seja, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia; foram uma exceção. No resto do mundo o modelo colonial adotado teve características em comum com a adotado na América Latina por Espanha e Portugal. As colônias foram, grosso modo, bastante parecidas: empreendimentos econômicos estatais, operados por agentes privados, baseados num conjunto de atividades de exploração ao redor das quais girava a sociedade como um todo e nos quais a presença da mão de obra dos nativos era desejada. A escravidão negra, adotada posteriormente nas colônias, foi apenas mais uma forma de exploração econômica.

Por seu caráter de exceção, nas quatro citadas colônias inglesas não se consolidou a mentalidade colonial. Por sua característica “continuadora”, a mentalidade predominante nessas quatro regiões deu origem a um sentimento de comunidade semelhante ao que havia antes na metrópole. Assim, quando se rompe o laço afetivo destas regiões com a Grã Bretanha, elas não sofrem uma ruptura vertical de seu sistema ideológico.

Para essas colônias, a independência não vem como um trauma, mas como um processo que decorre naturalmente de seu desenvolvimento social e econômico. Isto porque as diversas classes econômicas e sociais locais se identificam com a colônia, em oposição à velha metrópole colonial. Nessas colônias, o “outro” que rejeitam fica além mar. O membro da elite colonial dessas regiões aspira tomar e controlar o poder local e, através dessa vitória, realizar seu projeto de vida.

Nas Colônias Típicas

Mas nas colônias de um modo geral — especialmente nas colônias da América Latina, onde a colonização durou mais tempo e influiu mais profundamente no estabelecimento do tecido social — não é possível identificar um sentimento de comunidade análogo. Para o colono português estabelecido no Brasil, para o francês de Saint Domingue, para o holandês das Antilhas, para o espanhol de todas as regiões da América e até mesmo para o inglês da Jamaica e das demais colônias; existe uma dicotomia.

Nessas regiões as classes sociais e econômicas tinham diferentes relações com a identidade local. Regra geral, havia a classe dos recém-chegados da metrópole (“reinóis” no Brasil e “chapetones” ou “castizos” na América Espanhola) e a elite nascida localmente (“criollos” na América Espanhola). Os recém-chegados detinham o poder político, porque eram funcionários apontados pelo rei para as principais posições administrativas e militares, enquanto os locais detinham o poder econômico, por serem os proprietários de terras, donos de escravos e responsáveis pela produção. Abaixo, estavam os trabalhadores livres, os mestiços, os nativos e todos os escravos, qualquer que fosse sua origem. Cada grupo desses se relacionava de maneira distinta com a entidade colonial.

Recém-chegados
Sua fidelidade era com a metrópole de onde tinham vindo e para onde pretendiam retornar em breve, depois de ganharem dinheiro e prestígio na colônia. Sentiam-se superiores a todos.
Proprietários locais
Tinham com a metrópole uma relação de amor e de decepção, uma vez que, simultaneamente, buscavam reconhecimento e não o tinham plenamente. O membro da elite colonial aspirava a ser visto como um cidadão metropolitano, ainda que nunca tivesse estado lá, mas vivenciava na pele um tratamento de inferior ao interagia com os recém-chegados. Sentiam-se iguais aos recém-chegados, mesmo que estes não reciprocassem o sentimento, e superiores aos demais.
Pessoas brancas livres
Sua situação era semelhante à da elite proprietária, mas com o agravante de que não desfrutava de poder econômico. Ambicionavam a ganhar dinheiro e poder econômico, crendo que assim chegariam a ter o reconhecimento. Sentiam-se iguais aos proprietários, que geralmente, mas nem sempre, retribuíam o sentimento, mas abaixo dos recém-chegados.
Mestiços
Sentia-se injustamente inferiorizado pelo branco, uma vez que nem sempre se via como mestiço e aspirava a ter reconhecimento. Também se sentia abaixo dos proprietários, devido à subordinação econômica, e ainda mais inferior aos recém-chegados.
Nativos
Na qualidade de habitantes originais da terra, sua relação com o empreendimento colonial era nula ou hostil. Não se viam parte das estruturas criadas pelo colonialismo e as teriam alegremente destruído, se pudessem. Viam aos brancos como invasores e tinham com os mestiços uma relação complexa, conforme o status social e os traços fisionômicos deste (que também determinavam para ele a posição na estrutura de castas sociais).
Escravos
Para os escravos, 95% dos quais eram africanos, a América toda era um desterro. Não tinham qualquer laço efetivo com a região e seus diferentes empreendimentos coloniais. Ficavam no ponto mais baixo da estrutura de castas e não tinham quaisquer direitos.

Uma sociedade que se estrutura desta maneira, dividindo o povo e criando rivalidades conforme sua aparência física e status, terá necessariamente um caráter instável. Nesse conjunto fica notável que os membros da dita “elite” não se veem como parte do povo ou mesmo como pertencentes à região onde estão geograficamente. Sua aspiração maior é poder deixar a região e viver na metrópole, na qualidade de cidadãos iguais aos seus.

Enquanto nas colônias ditas “de povoamento” ocorre uma superação gradual dos estados mentais colonizados, pelo desenvolvimento da identidade coletiva local, nas colônias típicas, como vimos, não pode haver esse desenvolvimento porque os membros das diferentes classes sociais se veem pertencentes a diferentes entidades e os seus objetivos, quando definidos, os afastam dali.

Esta é a “mentalidade colonial” que persiste e que se consolida, em toda a América Latina, inclusive no Brasil. Dela é que se vai falar sempre que o termo “mentalidade colonial” for mencionado.

Manifestações da Mentalidade Colonial no Pós-Independência

A independência representa, portanto, coisas diferentes conforme a colônia seja do tipo “continuadora” (ou seja, a exceção) ou do modelo mais típico. Para as colônias “continuadoras”, tornar-se independente significa eliminar o último obstáculo externo à sua busca nacional,1 mas para as colônias típicas, a declaração de independência é apenas o primeiro passo: resta uma questão de natureza ideológica a se resolver ainda.

Removeu-se o “reinol” da equação, expulso ou igualado à força, e se firmou o interesse da elite econômica local como força motriz da política. Mas o próprio membro da elite local não se vê ainda como membro da nação, ou vê a sua classe como a totalidade desta nação que ele idealiza.

No mínimo, a elite não se considera igual ao povo, nem cultural, sequer racialmente. O povo é uma entidade à parte, ou é dividido em duas classes, o “povo” idealizado e a “massa”. Esta é sujeita e não agente nos processos políticos. Ela xingada de termos como “feia”, “inculta”, “bárbara”, “atrasada”, “inferior”, “mestiça”, “ignara” e “indolente”. Sua cultura é qualificada de “mau gosto” e tachada de “folclórica”, “exótica”, “primitiva”, “sensual”, ou simplesmente “tosca”. Seu linguajar é “corrompido”, “arrevesado” ou “errado”. Seus modos são “impróprios”, “não sabe seu lugar” e “não sabe se portar”. A massa, isto é, o povo não idealizado, se apresenta aos olhos do membro da elite como maior, se não único, dos problemas da “nação”.

Na visão da elite colonial, o país é um meio de vida. Eles ainda pensam como os colonos de antanho, que vinham “fazer a América” para voltar ricos à terrinha e casar com a namorada de infância, quando, então, poderiam desfrutar de prestígio na sociedade.

O membro da elite colonial sente que precisa ganhar dinheiro bem depressa e fazer a independência para ir viver em Lisboa, Paris, Londres, Genebra, Vancouver ou Roma. Para isso, está disposto a tudo que for preciso, para se “libertar” da opressão de viver em um país que diz não entender e onde se sente um desterrado.

Então é natural que sair desse país, mesmo temporariamente, seja um rito de passagem. No mínimo já se paga para os filhos a ida à Disneylândia na adolescência. Assim se começa a preparar o filho para futuramente viver em outro país, “mais limpos, mais branco, mais bonito e mais civilizado”. Um país de “primeiro mundo”, nas palavras de um nosso ex presidente.

Por causa desse pensamento, surge uma atitude. O membro da elite de mentalidade colonial não almeja ao desenvolvimento nacional e seu protagonismo, mas deseja ser agente estrangeiro. É por isso que gosta tanto de dupla nacionalidade (que é, também, uma forma tangível de monstrar que não pertence à colônia). Ele desencava antepassados europeus e sonha se casar com cidadãos estrangeiros quando não consegue.

Na mentalidade colonial não faz sentido fundar uma Microsoft, se é mais rápido ganhar dinheiro vendendo produtos Microsoft. Ele não quer ser dono da Embraer, quer trabalhar num grande projeto da Boeing. Não passa pela cabeça do empreendedor com mentalidade colonial a ideia de resistir à venda de sua startup para uma multinacional e manter sua independência, porque foi exatamente para “merecer” essa oferta de compra que ele fundou seu negócio. Ele fabrica o melhor jipe do mundo só para vender a fábrica para a Ford.

Na mentalidade colonial, o seu rival não é o estrangeiro que lhe paga (mesmo que migalhas), mas o concidadão que “compete” pelos limitados recursos locais. Por isso, um programa de distribuição de renda ou de universalização do ensino enfrentará resistências da elite: é dinheiro que queriam concentrar e mais profissionais a competir nas carreiras onde se ganha dinheiro. Por isso que os membros da elite econômica, quando podem direcionar políticas de educação pública, sempre retornam com a ideia de que a educação popular deve ser “profissionalizante”: as classes inferiores não devem competir pelas posições de poder, devem apenas ser insumos humanos na criação de riqueza para que a elite acumule riqueza e possa ir viver em Lausanne.

Essa mentalidade colonial se mantém mesmo depois que a elite, já naturalizada culturalmente, não consegue efetivamente se adaptar à Europa Endlos. Então, por causa dessa mentalidade que temos, é que continuamos arreganhando as pernas diante dos estrangeiros e abrindo mão de nosso futuro em troca de oportunidades de negócio de curto prazo; aceitando ser capatazes do interesse estrangeiro em nosso próprio país, mero território a ser explorado.


  1. Nesse sentido, é possível dizer que Canadá, Austrália e Nova Zelândia ainda não se tornaram plenamente independentes.↩︎

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