Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Nicolau e Lênin

Publicado em: 24/06/2021

Há alguns anos, quando estava na oitava série, minha filha mais velha me pediu ajuda em um trabalho escolar sobre a Revolução Russa. Por minha sugestão — e com minha ajuda na escolha da canção e no acerto da versificação — ela produziu uma paródia de “Eduardo e Mônica” que contava o processo revolucionário. Depois seus colegas de classe interpretaram a obra e ela tirou dez, além de ganhar muitos elogios da professora.

Hoje, quase por acaso, encontrei a letra desta paródia em um recanto perdido do disco rígido de meu computador e decidi compartilhar com meus leitores, para que não se perca para a posteridade esse momento…

Quem um dia ia dizer que dava revolução
se os russos não tivessem mais pão?
E quem ia dizer que iam perder pro Japão?
O czar fechou os olhos, não quis modernizar
o império atrasado
e não viu que horas eram
enquanto o mundo tomava as colônias
nos outros continentes onde deram.
Nicolau e Lênin um dia se estranharam
desde cedo se enfrentaram sem se conhecer.
Aquele carequinha exilado na Suíça
tinha um partido ilegal que queria o poder.
Guerra estranha com gente esquita:
russo ortodoxo e japonês xintoísta.
E o Lenin descobriu um pouco mais
sobre a fraqueza do império do czar.
E Nicolau, meio tonto, não pensava mais em nada
Só queria se consolidar.
Nicolau e Lênin viraram inimigos
Por causa do apoio à revolta popular.
A burguesia sugeriu democracia
Mas o Nicolau queria tudo controlar.
Se enfrentaram então, no campo e na cidade,
Lênin com o povo, Nicolau com a nobreza.
O Nicolau achou medonho, não podia recuar.
e no fim havia muita gente na cadeia.
Nicolau e Lenin eram nada parecidos:
um ainda era tirano e o outro, um orador.
Um queria mais progresso e falava do alemão
outro religioso e conservador.
Ele pensava em grandeza e fazia alianças
planejando proteger a Sérvia dos turcos Otomanos,
mas um terrorista matou o Ferdinando
e assim a Grande Guerra começou.
Enquanto nisso Lenin fundava a Internacional,
e prometia “terra, paz e pão”.
E o Nicolau ainda no estava no esquema
“esquece essa teima, luta pela nação”.
Nisso apareceu Kerenski
Assim, meio de repente, assumindo o poder
e o czar foi afastado nesse dia
e a revolta crescia, como tinha de ser.
Alexander Kerenski não era um ditador,
advogado, criado e testado num partido popular;
ele começou um bom governo
mas teve uma bobeira de a guerra continuar.
Ele subiu ao poder, deixou a crise crescer
e aprendeu a mandar,
mas ele caiu no oitavo mês
depois que derrubou o czar.
E os russos se revoltaram muito
e então mataram todos do governo que foi.
E todo mundo quis que os sovietes chegassem o poder
Como o Lenin ensinou.
Construíram uma coisa antes nunca vista,
mais ou menos o que o Marx dissera.
Abandonaram a guerra e seguraram legal
a invasão mais pesada que tiveram.
Nicolau e Lênin viveram seus destinos,
Mas contar essa história eu não posso não.
É que nessas horas não pode alongar
Porque a história é mais comprida que a letra da canção.

Letra de Gabriele Santos Gouvêa e José Geraldo Gouvêa.

Música de Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá.

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