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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Cogumelos

Publicado em: 14/01/2009

Jonas é um verdadeira “figura”. Conheci-o há vários anos, na época em que eu era rico e tinha um carro novo. Fomos colegas de noitada por muito tempo até que o destino nos separou e nesse meio tempo vivemos muitos momentos divertidos dos quais me lembro com razoável saudade. Só não tenho saudades das muitas gozações porque passei por causa dele, que era alto e forte, enquanto eu sou esquálido e pequeno.

Entre as suas esquisitices estava sua fixação por cogumelos. Lembro-me que quando passávamos perto de algum lugar onde houvesse umidade e sombra ele cheirava o ar e dizia: “aqui nasce cogumelo do bom.”

Da primeira vez eu nem fiz nada além de rir, mas depois fiquei curioso e comecei a perguntar como ele sabia tanto de cogumelos. Ele então me confidenciaria suas aventuras com “chás” e substâncias. Entre tantas aventuras ele acabou contando uma que jamais me esqueci devido às imagens marcantes que me traz à mente toda vez que a relembro.

Fora um menino tímido e um pré-adolescente contido. Filho de mãe solteira casada com pastor evangélico, desde cedo estimulado a se comportar como devia, a ser “bom menino” e evitar as inclinações más trazidas pelo “sangue ruim” do pai que não conhecera.

Mas quando os hormônios começaram a se manifestar e a voz deixou de ser aquele falsete bonitinho de criança, entrou numa longa fase de rebeldia da qual não tinha saído até quinta-feira passada. Foi mais ou menos nessa época que conheceu uma turma de amigos pouco recomendáveis, que o apresentou a sensações, tratados e experiências que um filhinho de pastor vivendo em cidade pequena normalmente não experimentaria.

Certa vez ele e os amigos pegaram a Brasília do pai de Jonas e foram para a roça tomar chá. Não, não era chazinho de menta e nem de camomila, era de cogumelo mesmo.

Foram a um sítio a uns cinco quilômetros do perímetro urbano, lugar bonito, cercado de morros cobertos de pastos verdejantes, cortado por um tranquilo regato. Do alto de um dos morros se descortinava uma paisagem pontilhada de casinhas brancas e lá também havia uma pedra de formato curioso que eles chamaram de “Grande Sapão”, ao pé da qual acenderam uma fogueirinha para ferver os fungos.

Daí pegaram os benditos cogumelos (e até acharam outros no lugar) e prepararam o “xarope”. Pronta a beberagem, tomaram-na e ficaram olhando para a paisagem tentando ver fadinhas de açúcar. Dali a pouco começaram a acontecer aquelas coisas que acontecem nessas viagens psicodélicas: montanhas saíam voando, vários sóis de cores diferentes perfumaram o céu, nuvens que escorriam gotejantes e empoçavam nas árvores, pedras pulsavam com olhos chamejantes de lírios, a grama sussurrava sensualmente enquanto crescia e trovejava macias palavras azedas…

De repente Jonas viu um “duende”, um serzinho de pele azul e gorrinho colorido na cabeça (parece menos um duende que um smurf, mas vendo este detalhe tal como o comprei). O trocinho olhava para ele e ria, dizendo bobagens em uma língua cheia de consoantes flácidas. Ofendido meu amigo se levantou, xingou a aparição e resolveu pisotear Papai Smurf, digo, o duende, mas logo notou que não adiantava, pois ele reaparecia sempre em outro lugar. E lá se foi Jonas a pisotear de novo, depois de xingar de novo, e logo Papai Smurf aparecia em outro lugar ainda cacarejando consoantes concatenadas.

Imagino que deve ter sido uma cena muito linda de se ver aquele momento: um adolescente meio cabeludo, com olhos arregalados e louco das ideias de tanto tomar “chá de caramelo” pisoteando duendezinhos azuis imaginários no alto de um morro, perto de uma pedra. Pelo menos deve ter sido engraçado até que Jonas tropeçou e rolou morro abaixo, bateu a cabeça em uma árvore e perdeu os sentidos.

Quando acordou, estava molhado e Jesus Cristo o chamando, dizendo alguma coisa em húngaro. Jonas não entendia nada de húngaro e jamais vira Jesus Cristo antes — só o reconheceu pelo boné azul e a camiseta fluorescente que faiscava com figuras de cobras e elefantes iridescentes que efervesciam num mar de copos úmidos e mãos piscantes.

Olhou nos olhos de Jesus Cristo, ainda sentia a cabeça girante, e lhe disse “Sacanagem, J. C., se eu soubesse que você vinha, tinha feito a barba”. Logo depois disso perdeu de novo os sentidos, mas já tinha parado de sangrar ovelhas roxas pelos dedos.

Sentiu-se flutuar acima do capim como Aladin sobre as areias do deserto em seu tapete mágico, só que em vez de sentado ia deitado de costas e por alguma razão suas costas esfregavam de vez em quando em algo duro.

Acordou duas horas depois e “Jesus Cristo” lhe dava café numa caneca de esmalte, um café tão forte que agarrava na língua e não queria descer pelo esôfago. Estava todo frio, como se lhe tivessem dado trinta banhos de água gelada — o que não estava tão longe da verdade, principalmente considerando que urinara nas calças e vomitara várias vezes enquanto ouvia alucinações.

Ainda via coisas macias e sussurrantes nas esquinas das cores e no cabo dos olhos. Mas já conseguia notar que se arranhara nas costas e que estava sujo, fedendo a vômito e bosta de vaca.

Mesmo temendo a resposta, perguntou a um amigo o que ocorrera.

Algum efeito exagerado do chá improvisado, certamente. Segundo o amigo, ele se levantara resmungando frases incompreensíveis que pareciam esperanto, tirara a camisa e começara a correr de um lado para outro, sacudindo a camisa e pisoteando cada bosta de boi que via pela frente, até escorregar em uma que ainda estava fresca e descer rolando morro abaixo, bater numa cerca e cair dentro do córrego.

Jonas lembrava-se vagamente de alguma coisa. Alguma voz idêntica à sua que gritava coisas como Vi stulta elfo, feku al vi! e Viaj fratrinoj estas malgrandajn!

Depois de recuperar-se Jonas jurou nunca mais tomar chá de cogumelo e abandonou para sempre seus estudos de esperanto. Foi mais fácil manter a segunda promessa, obviamente, porque não gostava mesmo de estudar… Só depois que ele me contou essa história entendi porque, de vez em quando, alguém que eu não conhecia nos encontrava juntos e me gritava stulta elfo!

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