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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Tio Gumercindo e o Horto

Publicado em: 02/06/2010

Tio Gumercindo morreu. A notícia chegou pelo telefone, casual como uma chuva na manhã de sábado. Há pessoas que vão morrer na linda manhã de um sábado de inverno: não é uma escolha. Há pessoas que preferem as madrugadas chuvosas e quentes do verão. Tio Gumercindo morreu, e fazia dois anos e meio que eu não o via, mesmo ele vivendo a menos de trinta quilômetros de onde vivo.

Saí de casa com outra desculpa. Tinha de fazer tanta coisa na rua, no mundo. Mas minha mulher sabia que eu não voltaria cedo. Eu mesmo ainda não sabia do quanto custaria: quando saí de casa, eu ainda não tinha ideia do significado do fato consumado que é a morte. Acredito que antes de sábado eu nunca tinha visto tão feia a sua cara. Não falo da dor, falo da humildade: a morte não é glória. Para Tio Gumercindo, e para a maioria, é só a última de inúmeras humilhações.

Não gosto mais de minha cidade. Nasci lá, mas hoje me sinto frágil, triste e humilhado quando percorro suas ruas. São apenas cinco os anos que me separam dos tempos em que eu vivia lá ainda, mas nesse tempo curto derrubaram muita casa, morreu muita gente que eu conhecia, mudaram-se tantos que eu nem conto e, pior, nasceram ou cresceram ou mudaram de vida uma infinidade de outros. Vejo tanta gente que não conheço, muitos mais que não reconheço. Sempre fui tímido, hoje sou um estranho. O cheiro destas ruas é outro, os meus amigos e inimigos estão todos igualados na neblina dos anos: talvez me vejam assim do mesmo modo que os vejo.

Fiquei velho cedo: meus cabelos vão dando lugar a essa moita rebelde de cãs que me fazem parecer meu pai. Minhas antigas namoradas agora já estão todas casadas, meus amigos nem sei onde andam. Resta essa gente que eu não conheço nem de nome, rostos de crianças que cresceram. Parece até que foi no século passado que eu sentava naquele banco na avenida para encontrar amigos. Sinto uma vontade louca de fazer isso de novo, mas o banquinho está arruinado e o antigo bar hoje está mais decadente do que eu.

Dirijo a esmo pela cidade: hoje me deu vontade de ter saudades. Talvez sejam saudades do tempo em que Tio Gumercindo cortou o meu cabelo de menino usando uma tesoura desproporcionalmente grande em suas mãos pequenas. Talvez seja a falta de quando eu era só um garoto triste por estas ruas: hoje eu sinto até saudades de ter sido triste, era uma tristeza melhor a que eu vivia. Deixo o carro estacionado na pracinha e dou uma volta. Vou comprar o jornal, vou ver se encontro algum conhecido.

Parece que o jornaleiro vendeu o negócio a um estranho. O relojoeiro demitiu a moça loura de rosto comprido que eu paquerava com os olhos quando fazia a faculdade. Ela nem ficou sabendo que eu a achava bonita, talvez nunca tenha sabido de alguém que achasse isso. Foi ela que me vendeu o par de alianças. Hoje há uma morena de formas superlativas e rosto ensolarado atrás do balcão e eu não sei se compraria meu par de alianças com ela. A dona da lojinha de roupas, eu a achava tão bonita. Eu sorria para ela, ela sorria para mim. Não sei se era preciso mais que isso: eu não ousaria, ela não ousaria. Eu era um pobre empregado do comércio, ela era mais velha e mãe solteira. Qual dessas gordas avermelhadas será ela?

O trânsito continua intenso, fluindo como o martelar do inferno pelas minhas veias. Quando volto para o carro trazendo o jornal, sinto a pressão de todo esse ruído como uma barreira de blasfêmias contra meu ouvido. Passam carros, rugem caminhões, gritam ciclistas, urram ônibus. Sábado de manhã: o meu tio Gumercindo está morto e estou perdido sem o que fazer, na cidade que já foi a minha.

Lembrei do horto. Deve fazer cinco anos que eu não vou lá. Provavelmente bem mais. Tenho de atravessar quase toda a cidade para pegar estrada para lá. No caminho, vou assistindo ao desfile do passado: fechou a sorveteria, puseram paralelepípedos no último trecho da Avenida, a loja de brinquedos em que eu via a bela Poliana já não existe mais. O que fizeram com essa praça? Está um brinco, mas não tem mais espaço para os meninos da escola jogarem bola. Para que serve tanto monumento, minha gente?

Na Volta da Ferradura começo a sentir alguma dor um pouco mais irritante. No peito caiu um aperto que nem se explica: ter saudades é uma coisa que a alma quer o tempo todo, mesmo o corpo sabendo que vamos sem freio pela ladeira do futuro abaixo. Mesmo que a sensação disso seja pungente, a alma quer é olhar para trás e enxergar uma namoradinha de infância no corpo desta mulher gorda que desfila descalça os seus três filhos.

Todas estas casas novas. Quanta árvore se derrubou aí para abrir espaço para todos esses pilares e paredes! Felizmente o horto mesmo tem muros altos, só com muros e campos minados o ser humano se nega a destruir.

Só de passar pelo posto da Polícia o rosto já pressente uma temperatura que conforta. No horto o cheiro é o mesmo ainda, de resinas e de folhas mortas. Aqui não demoliram pessoas nem degeneraram casas. Dentro do horto posso ser, ainda, o jovem que não tinha uma vida, mas tinha um futuro.

É quase heresia que um motor assuste os passarinhos. Mesmo que eles estejam acostumados a esse infortúnio. Dirijo devagar, com a aceleração no mínimo. Espanta-me que num dia tão lindo de inverno esteja tudo tão deserto. Para as pessoas esse lugar deve ser um tédio. Mas eu não sou as pessoas, essas altas palmeiras me rejuvenescem, estas árvores cheias de líquens e cipós… Gosto desse abandono que existe aqui: não seria bom se houvesse gente. Gente teria a estúpida ideia de ligar um rádio em volume alto, acender uma churrasqueira e beber falando muito, assustando os micos, perturbando a serenidade de cada trilha, desarrumando o tecido do silêncio que a noite teceu com todo cuidado e que, mesmo às dez horas da manhã, ainda não ficou rompido.

Desligo o motor do carro. O silêncio bate contra mim, como as rajadas de um vento, como o borrifo de uma chuva, como o cheiro de um mar que borbulha. As árvores rangem tristemente, como velhos que gemem na espera da morte, mas os macaquinhos assobiam furiosamente, talvez esperando que eu tenha frutas, mas os passarinhos, aos poucos, recomeçam a piar, cantar, grasnar, bulir, voar.

Esse cheiro denso de líquen, de fungo, de flor… Deviam demolir toda aquela construção estúpida, arrasar até as fundações. Deixar este pau-ferro como um monumento isolado, aquela aroeira como o marco zero.

Faz frio aqui. Faz um silêncio que meus ouvidos agradecem. Eles sibilam como se mil distantes miquinhos vivessem no fundo de minha cabeça. Alguma lágrima desponta, não se sei por Tio Gumercindo ou pela percepção de que estou velho e os meus ouvidos parecem um rádio que chia quando a cortina de ruídos deste mundo é removida.

Recosto o banco do carro e fecho os olhos. O mundo rodopia em torno de mim. Tenho vontade de chorar, o silvo oscila como uma estação em ondas curtas. As árvores rangem tristemente como velhos que lamentam suas dores.

Ouço ruído, mas não são passos. São frutas que caem, são passos de animais e são rangidos mais rudes de árvores mais fortes. Essas rangem como estrondos, soam inamovíveis, essas são as que demoram mais para cair, mas são também as que os homens mais querem matar. Por isso, talvez, só existam nesse lugar, o templo do silêncio numa cidade que já aprendeu a crueldade do barulho.

Hoje não tenho coragem de penetrar por alguma das trilhas. Estou tão sozinho que não tenho vontade de fazer nada. Esperava que o silêncio meditasse algo que me salvasse, mas já são quinze para onze e eu não fiz nada e nem ouvi a voz de Deus. Em algum lugar estão vestindo Tio Gumercindo para a sua última viagem e eu não o vejo faz cinco anos.

Queria interromper esse dia aqui, mas vou à capela contemplar seu rosto que eu quase esqueci. Depois, quando voltar para casa, estarei levando comigo um pouco desse silêncio daqui. Somente com um pouco de silêncio dentro de mim é que vou conseguir enfrentar o vozerio contraditório das pessoas, a pressa de morrer que elas têm. Dizem que sou obcecado, o deprimido. Mas de verdade eu sou o único que gosta da vida: eles que dizem isso vão jogando-a fora e não têm remorso. Ter saudades e remorsos é no fundo a mesma coisa: somente quem é bom consegue isso, somente quem entende o valor das coisas sente saudades delas. Dizem que isso é ser negativo, mas eu levo este silêncio e esta treva como um tesouro para os momentos em que o mundo ruge como um mar de areia no horizonte cinza. Quando eu voltar da capela terei remorsos a mais de tudo o que não disse a Tio Gumercindo, mas isso é melhor do que deixá-lo ir embora, sem saudades e sem lições.

Lá, na capela pública do cemitério, está um homem alegre que morreu triste. As maiores tragédias acontecem com as pessoas felizes. As maiores tragédias são as menores: como não ter filhos e ficar sem amigos.

Vestiram-no com o roupão barato e humilhante do asilo. O mínimo que um homem merece na morte é um terno, ou pelo menos uma camisa. Vestiram-lhe uma roupa tamanho único com seu nome estampado, grafado errado. O mínimo que se deve a um homem é escrever seu nome certo. Pobre Tio Gumercindo, morreu sem filhos, sem amigos e com o nome errado no roupão barato do asilo público.

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