Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 31 de julho de 2021

O Sábio Louco e o Ignorante Vigoroso

Publicado em: 03/06/2010

Eu não sei se existem realmente homens sábios das letras que leram pouco ou quase não leram — como os exemplos citados, que vão de Paul Valéry a Raduan Nassar. Há uma diferença sutil entre o que as pessoas realmente são e o que elas dizem ser ou parecem ser. Chico Xavier foi mostrado como um quase analfabeto por ter apenas a quarta série primária, mas era um leitor voraz e possuía uma biblioteca imensa em sua casa.

Sem falar que é perfeitamente possível uma pessoa se passar por sábia sem ser, desde que meça bem suas palavras. Como diz a Bíblia, em Provérbios 17:28, “até um tolo pode se passar por sábio se souber quando ficar calado.”1

Tendo feito essas importantes ressalvas, passo ao tema principal.

O homem sábio que não lê, o escritor que não lê, o ignorante que ensina o doutor, etc. são personagens antigos em nossa cultura. São arquétipos milenares. Já entre os gregos e romanos você encontrará esta figura em Diógenes. Este personagem é o profeta usado por deuses para comunicar sabedoria aos homens, como o cego Tirésias (um visionário cego, veja só) da tragédia de Édipo, como o pastor analfabeto Amós.

Por ser um arquétipo, é uma figura poderosa e inspiradora. Por isso mesmo é suspeito. Tal como você não deve acreditar em heróis (embora ocasionalmente alguma pessoa real cometa atos heroicos), não deve acreditar em sábios ignorantes (embora ocasionalmente algum ignorante pareça sábio).

A divulgação desse arquétipo serve a um objetivo. É uma maneira de dar a cada um seu papel em uma sociedade. Se nem todos podem ser ricos, é preciso teorizar a virtude da pobreza. Se nem todos encontrarão um casamento, é preciso falar no sacramento da castidade. Se nem todos são belos, é preciso valorizar a beleza interior. E se nem todos podem estudar, é preciso que o povo creia na sabedoria dos simples.2

O argumento é instigante: escola ensina, mas não educa; conhecimento não é sabedoria; cultura não substitui vivência; teoria não supera a prática etc. Porque a verdadeira sabedoria vem de Deus, não dos livros, e está no espírito, não na matéria.

O sábio que não lé está em uma face da mesma moeda que contém outro arquétipo igualmente antigo e poderoso: o do estudo que destrói. Do mesmo modo que são saudados com o vigor de sua sabedoria direta os autores que não leem, são execrados os que por excesso de leitura ficaram pretensiosos, livrescos, loucos.

Fica evidente, quando você analisa por esse lado, que há um fenômeno cultural acontecendo. Dizer que é uma conspiração para manter o povo sem controle seria um reducionismo idiota, digno de marxistas de botequim (depois da quinta dose de schnapps, logicamente). Não é isso que estou sugerindo: fenômenos culturais não são guiados conscientemente, são fruto de coisas profundas que jazem no inconsciente coletivo.

O mito do autor que pouco lê, com seu oposto, o sábio louco de tanto estudar, expressam o desprezo das massas pela cultura. O povo, de um modo geral, teme e odeia os seus líderes desde milhares de anos atrás. Desde a Suméria e o Egito, quando os livros foram inventados, os homens que leem e escrevem são vistos como controladores de forças terríveis e maléficas. São maléficas porque a elite oprime o povo, logo, as tecnologias do poder, como a escrita e a leitura, mais recentemente a máquina e o Estado, são contrárias ao bem do povo.

Mas o povo precisa de autoestima, não pode se aceitar como gado. Por isso desenvolve-se a ideia do “preço que a bruxaria cobra”. Inicialmente isso era visto como literal: os que se dedicavam aos mistérios deste e de outro mundo eram pessoas distantes, isoladas, malcheirosas devido às experiências que conduziam em suas alcovas. Envelheciam cedo devido às privações de sono e de alimento, enxergavam mal devido a “forçar a vista” em seus livros, diante de velas e cadinhos. Hoje já não se faz alquimia, mas persiste a ideia de que o homem dedicado ao solitário prazer da cultura seria um ser infeliz, amaldiçoado. Salutar e bom é o vigoroso homem do povo, isento da corrupção do passado, cheio de calos nas mãos e de verdade no coração, a verdade simples e direta que brota da terra e do trabalho.

Eis um mito poderoso.


  1. Réplica em um debate no qual se defendia que certos grandes escritores não eram leitores frequentes e que, portanto, ler não é um requisito para escrever bem.↩︎

  2. Há uma diferença fundamental, porém: o conhecimento está ao alcance de todos; dinheiro, casamento e beleza, não.↩︎

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