Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Amigos, Amigos

Publicado em: 10/08/2010

Filipe achou-se inconsolável na semana seguinte à mudança de Amadeu para Janaúba. Acho estranho ter um sentimento assim então. Porque no dia que soubera da promoção do amigo, condicionada à transferência, aconselhara-o positivamente no sentido de aceitar. Ajudara-o a fazer as malas e mantivera vivo o seu entusiasmo nos momentos de incerteza em que pensava na distância da família e dos amigos e na necessidade de refazer tudo em uma cidade estranha.

Não pensara que sentiria tanta e tão súbita saudade. Haviam sido sete anos de convivência, ou mais. Com direito a saírem quase sempre juntos pela noite a dançar, beber e “caçar putas”. Sete anos ou mais de visitas mútuas frequentes e um grau de entendimento que só almas gêmeas têm.

Tinham em comum o gosto pela mesma música, pelas mesmas comidas, pelas mesmas diversões. Vestiam-se parecido, fizeram a faculdade juntos, trocavam livros, etc. Haviam sido parceiros de copo, parceiros de buraco, companheiros de chapa na eleição do Diretório Acadêmico, sócios numa empresa que faliu, cúmplices numa fraude que ninguém nunca descobriu, sócios numa mulher que sempre pensou que a ambos enganava.

Nos primeiros dias a sensação de ar novo entrando em casa foi maravilhosa. Uma amizade após tantos anos de intimidade se torna também um pouco sufocante. Surgem dúvidas, afloram apreensões e instintos estranhos com imposições que trazem traumas. Mas quando chegou domingo de manhã bateu no peito uma insegurança estranha que o entristeceu mais que a liberdade falsa de antes.

Passou o primeiro dia enfronhado em livros, assistindo inúteis programas de televisão e comendo bolo de baunilha com requeijão. Nenhum medo de engordar. Apenas vontade de satisfazer vontades.

A semana passou chuvosa e arredia, sem a certeza de um ouvido perto para receber a queixa e quando atingiu a sexta-feira, foi com certa pena que abandonou seu posto de trabalho e se pôs a andar pelas calçadas úmidas levando uns olhos ocos e uns sentimentos misturados. A casa o recebeu com um cheiro de mofo, lembrando-o do dia em que estivera hospedado num hotel barato à beira-mar. Ouviu as gotas do chuveiro. O cheiro insistiu com necessidade de estender a toalha após o banho. Ela estava molhada dependurada no prego atrás da porta do banheiro.

Despiu-se ainda na copa e foi executar sua premeditada rotina: escovar os dentes, masturbar-se e tomar banho. Havia a premente necessidade de se preencher com cerveja e salgadinhos. O sabor amargo e frio veio à lembrança e Filipe salivou de desejo, quase sentindo a espuma em seus lábios. Foi perambular hesitante pela noite e acabou voltando para casa cedo, sem trocar palavras com seus semelhantes.

Acordou para o sábado com a certeza de não estar vivendo, quebrou o jejum com café solúvel puro, deitou-se um pouco diante da TV para assistir desenhos animados e horas depois descobriu-se com fome.

Teve de sair para satisfazê-la, ainda que lhe repugnasse a ideia de o ser humano estar forçado à baixeza de interromper várias vezes por dia o fluir de suas atividades para preencher um vazio físico sem grandeza filosófica.

Estava tão insensível a prazeres vulgares que teria comido capim em vez de alface se lho tivessem dado. Mas comeu um prato comercial com um bife duro e batatas murchas e subiu de volta para seu apartamento disposto a esquecer a vida.

No fim da tarde despertou sentindo-se mais gordo e com uma preguiça imoral. Para espantá-la pôs-se a arrumar a casa até dar a hora de aprontar-se de novo para outra noite. Depois de outro passeio sem destino pelos lugares da moda, Filipe viu-se em casa sozinho e sem ninguém capaz de lhe satisfazer uma excitação quase animalesca que o subjugava. Acordou domingo cedo demais e foi caminhar pela avenida ainda coberta de copos de plástico e lama para espantar a dor de haver dormido de mau jeito e o sono insistente que impregnava os seus olhos. Comprou pão e uma pizza semi-pronta e voltou para casa decidido a escrever.

Sentou-se diante da escrivaninha, estalou os dedos amarelados de nicotina e se lançou às teclas desafiadoras de sua pequenina Olivetti. O tec-tec foi desembrulhando palavras casuais em sofreguidão que demonstrava o represamento das ideias, a estagnação dos sentimentos. As ideias relanceavam avassaladoras como se as comportas da mente tivessem sido abertas. Derramou poemas e pornografias com a mesma facilidade a que um dia fora acostumado.

Mas depois de contemplar as páginas cobertas de palavras não sentiu nenhuma dose de satisfação, embora se sentisse um pouco vingado por ter conseguido romper um bloqueio de meses. Levantou-se para tomar uma dose, pôs música a tocar e de repente descobriu-se sozinho num deserto entre papéis, poeira e música. Então foi dormir antes de anoitecer.

E a vida continua. Até para quem não sabe viver.

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