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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Por Causa de Valéria

Publicado em: 12/08/2010
Originalmente escrito em 26 de agosto de 2004.

Por causa de Valéria estou perdido. Agora pouco me resta fazer, a não ser ficar sentado à janela esperando que alguma coisa no horizonte me responda qual o sentido de minha vinda ao mundo. Não tenho mais amigos, a casa de meus pais está longe e é apenas uma questão de tempo que seja privado até mesmo de minha liberdade, único bem que me restou.1

Tenho arrependimento em mim. Não só por estar em vias de perder tudo, mas também por não ter sabido transformar a minha vida em algo diferente deste desespero em que estou mergulhando para nunca mais voltar.

Foi num dia claro que a vi passar tomando um sorvete e a minha vida se incendiou. Ela era luminosa como uma manhã e espanou o mofo de minhas entranhas. Não resisti e comecei a tentar seduzi-la de todas as formas. Foi obsessivo, intenso, sufocante até. Menos de um ano após já estávamos casados e livres para vivermos nosso sonho.

Vivemos dias de incríveis aventuras pelo mundo e estivemos cúmplices até o dia em que o que era aparentemente sólido começou a virar fumaça: não há amor que resista à rotina se não houver para temperá-lo generosas doses de amizade e entendimento.

Depois de ano e meio de casados, cada dia começou a ser apenas outro dia e aos poucos foi se perdendo o antigo ímpeto. De repente as meias sujas atrás da porta e a toalha pingando no banheiro e a poeira do toca-discos e o atol de roupas sujas em torno do tanque; tudo começou a ser motivo para atribuirmos responsabilidades amargas e repostas raivosas.

E tudo piorava na mesma medida em que chegávamos a acordos e púnhamos ordem nas tarefas e dividíamos os afazeres e regulávamos os momentos do dia. Mas demorou um longo tempo até que percebêssemos que bem pouco sobrara do que antes nos fizera querer a vida juntos.

Quando começou? É tudo tão vago na memória… Sei que um belo dia quando a olhei não vi mais a inocência que me fazia confiar cegamente. Por isso o nosso amor levou-me à decadência e de repente não foi fácil aceitar que podíamos ser infelizes e que a verdade estava pendendo por um fio…

Não é fácil ter de repente aceitar que todo um ano de sua vida foi investido em vão. Eu estava confundido, minha conta bancária exausta e minhas certezas-de-bolso já não serviam mais. Assim como eu perdera a crença nas pequenas felicidades proporcionadas pelo amor, já que para mim ele havia se burocratizado, e perdera a felicidade de crer integramente nas palavras dela, também Valéria perdeu-se de mim, na mesma medida: estávamos juntos, mas juntos como folhas grampeadas e o diário manuseio do amor foi separando-nos.

Seria natural terminarmos tudo e seguirmos nossas vidas sem levar mais que as boas lembranças mas… aos poucos foi surgindo dentro de mim uma certeza, que só agora eu consegui desmentir, uma certeza de que não saberia viver sem Valéria tanto quanto não sei viver sem outro dia de beijá-la e tê-la em meus braços.

Raciocinando por este caminho torto eu deixei que o meu ciúme se tornasse mais doentio à medida que o meu desejo por Valéria se tornava menos espontâneo e mais uma ficção de minha teimosia, mais um desdobramento de uma dependência quase patológica.

Passei a odiar quem a retinha longe de mim, os seus amigos se tornaram aos poucos meus inimigos e os seus parentes aos meus olhos pareciam estar sempre conspirando. Cada vez que me lembrava da precariedade do dia seguinte, tinha ganas de prendê-la à cama para que não pudesse sair sem deixar-me certeza de voltar.

Tanto tempo estive submerso nesta loucura que não percebi o quanto eram absurdas as minhas suspeitas, até que finalmente as minhas suspeitas deixaram de ser absurdas, já que ninguém é capaz de suportar a desconfiança aliada à uma incapacidade de carinho.

Não se pode prender o canto de um canário junto na gaiola. Eu podia insistir e inventar mil artimanhas para convencê-la a não me deixar, mas não podia evitar que ela, em algum momento, percebesse que poderia ser mais feliz alhures do que com o que eu oferecia. Minha idolatria passou a ser ameaçada por sua beleza e pelas promessas de amor que lhe poderiam ser feitas por outros mais sensíveis que eu, capazes mesmo de, talvez, dar-lhe o conforto que eu não dera nunca, o amor que eu mal sabia, uma satisfação que eu já não tinha. Não ousava perguntar-lhe mais se me amava, não ousava perguntar-me mais se não haveria, então, apenas um sentimento de pena, aliado à impotência natural de alguém que não sabe deixar…

Como o gato espreita o canário na gaiola sabendo que, preso, não poderá ser devorado e, solto, estará inalcançável; eu também espreitava a Valéria sabendo que já não lhe podia fazer feliz, já que não era feliz, ao mesmo tempo não querendo de modo algum que ela me deixasse.

Os dias aumentavam o turvamento de minhas ideias até que um dia eu não pude mais esconder um fato: tinha de decidir o que fazer de nossas vidas. Decisão tomada, deixei de esperar um momento que nunca viria e investir o resto de minhas forças e de minhas esperanças em uma tentativa de trazermos de volta alguma coisa parecida com o que eu achava que havia existido entre nós num dia qualquer distante em que nos conhecêramos. Chamei-a à praia para passarmos uns dias distantes de todos e podendo viver para nós mesmos como vivêramos em nossos primeiros dias.

Mas Valéria precisava trabalhar.

Chamei-a para uma noite romântica num suntuoso quarto de hotel para lembrar as loucuras românticas de nossas primeiras noites, mas Valéria achava necessário pouparmos para trocar o carro. Quis dar-lhe um presente valioso, penhor de minha atenção, mas ela repreendeu minha prodigalidade dizendo que por isso estávamos sempre sem dinheiro… E de dose em dose, Valéria foi desmentindo minhas ilusões e rebaixando-me ao desespero. Nem lhe entreguei o novo par de alianças de ouro branco que eu havia comprado para tentar renovar a suposta incorruptibilidade de nosso amor.

Um dia quando voltei do trabalho encontrei a desolação intolerável: ela me deixara. O apartamento que eu alugara para ser o nosso estava despido de tudo que não fora eu quem comprara: a televisão, os sofás de vime, a cama de solteira em que dormia antes de viver comigo e onde agora embalaria de novo seus sonhos com outro homem do mesmo modo que um dia sonhou comigo e talvez fosse a cama em que amaria em breve àlguém que não a mim… E uma multidão de que coisas avulsas que poderiam não me fazer falta se eu não sentisse falta de cada coisa…

Valéria deixara-me um bilhete, não um endereço. Nenhuma explicação, além de que era melhor não falarmos sobre aquilo. O telefone que havia era o de um advogado e o encontro que ela marcava comigo era apenas a proposta de um divórcio amigável diante do juiz-de-paz.

Naquela noite longa, a voz de Valéria esteve dentro de mim sussurrando vertiginosamente “é melhor não falarmos sobre isso”, “tinha mesmo que acabar assim”, “não dava mais para salvarmos nosso casamento” e outras frases doloridas. Enquanto ela falara e eu não ouvira, voavam diante de meus olhos, como fotografias sopradas pelo vento, os pequenos instantes de felicidade que tivéramos, cada vez mais pequenos e amarelados. Valéria se dedicara a desmontá-los ao dizer que não suportava mais e o peso desta palavra terrível me destronara de minha ilusão e eu caíra de volta a meu mundo que se fazia em pedaços aos pés dela…

Abri uma garrafa de vodca e tomei tudo que pude antes de adormecer involuntariamente. Não consegui que se produzisse o coma alcoólico. Dormi uma noite péssima e no dia seguinte não havia nada de novo em mim — a não ser uma terrível dor de cabeça. Saí e comprei os tranquilizantes que há por aí. É fácil conseguir qualquer coisa quando se procura no lugar certo e se vai pagar a dinheiro. Quem me vendeu só perguntou se pagaria com cheque ou com cartão de crédito, e apenas sorriu quando eu respondi pondo-lhe na mão suada e peluda cinco mil cruzeiros em espécie.

Eu fui trabalhar normalmente, o peso em meu rosto não fazia bem à minha aparência, mas as pessoas já haviam se acostumado a me ver carrancudo há tanto tempo que ninguém se lembrou de me perguntar coisa nenhuma.

Desfrutei do abandono sem que ninguém interrompesse com amizade. Para se reunir coragem é bom ser novo em uma cidade estranha, é bom ter dado o telefone apenas no trabalho, e é bom ter apenas quem lhe forneça o necessário, além do rancor e do ciúme.

Compareci perante o juiz com uma coragem verdadeiramente impositiva em meu rosto, fui duro ao alegar que estava me sentindo realmente ultrajado por Valéria ter saído de minha casa daquela maneira covarde, como se fosse necessário fugir como uma ladra. Adicionei que desejava fazer um inventário mais detalhado dos bens em comum a fim de verificar a exatidão da partilha que ela fizera por seu próprio julgamento ao levar parte dos móveis e utensílios.

Ela baixou os olhos enquanto eu a acusava e não falou palavra, Aguardou que eu terminasse e depois dispôs-se a entrar em acordo, permitindo-me manter uma esperança de que os outros não soubessem que eu teria me matado mas não a teria deixado sair. As conversações, então, entraram em bom caminho e ao final de algumas horas já era possível entrever um acordo proveitoso para ambas as partes.

Finda a audiência, armado um acordo que nos deixou a ambos com mínimas perdas mútuas, a não ser por um ano e meio de nossas vidas, voltei para casa e fui beber até cair na tola esperança de esquecer. Pedi uma pizza pelo telefone e a comi como última refeição de um condenado a não viver mais.

Com mínima coerência restando em minha mente nublada de tanto rum e vodca, com vontades contraditórias rugindo dentro de mim e um sono atroz cobrindo minha razão, saí para encontrar a rua, fazer amigos e sofrer mais. Aí me dei conta do quanto sou estrangeiro nessa terra em que os próprios naturais se sentem alijados. Se ao menos conhecesse o traficante, poderia intoxicar-me até uma morte doce no reino das fadas de dietilamida e dos opiáceos.

No meio da noite eu me descobri ridiculamente sentado a um balcão de bar com uma dose dupla de uísque paraguaio cujo aroma mais lembrava álcool combustível que alguma coisa de se beber. Olhei em torno e tive a certeza de estar sozinho no meio daquela gente toda. Pisquei os olhos mortificados de sono, paguei e saí. E ninguém pareceu deter-se em mim quando passei.

Como foi que de repente eu me lembrei de me matar? Que ideia foi essa que passou pela minha estúpida cabeça? Cheguei com o meu carro ao alto de um morro para olhar o tapete de luzes espalhadas entre os morros e árvores ao longo do rio sujo e sob a lua linda e triste do inverno mineiro.

Tivesse eu ali um meio e teria sido uma morte poética, “última obra de arte”, como a chamou Kawabata num de seus rompantes de lúgubre lucidez antes de encontrar-se com a Dona Branca que o surpreendeu no pântano. A mim ela jamais surpreenderia junto à natureza.

Foi em casa que a encontrei. Estava em um frasco de veneno para ratos que eu guardava sob a pia. Eu a tomei com um ritual pecaminoso e cuidado, comendo cada migalha como se uma hóstia. Acompanhando leite-com-açúcar como se fossem sucrilhos.

Esperei o efeito lendo os jornais do dia para me distrair, enquanto tocava Stairway to Heaven em auto-repeat. Saboreava cada acorde com a boca e a mente entreabertas e os olhos cada vez menos ansiosos de ver.

Foi apenas gradativamente que a fui sentindo instalar-se, como um frio subindo dos pés, um calor fugindo pelas orelhas, uma doçura na língua amortecida e pesada, um latejar nos olhos que até fazia cócegas e a lembrança de que Valéria, talvez, tivesse podido me salvar se viesse buscar alguma das muitas coisa que deixara para trás.

Mas coisa alguma havia que buscar pois o que ela deixara era tudo que já não mais queria. Viria a Dama Branca, viria a foz de minha vida em um mar de mansas ondas ao som macio dos acordes líricos e límpidos do Led Zeppelin…

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