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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Pregando na Praça

Publicado em: 15/08/2010

Dia desses eu vi uma cena deprimente. Saindo do banco vi um pastor pregando na praça. Ele tinha uma bíblia esgarçada, um terno puído e uma gravata vários números maiores que o dele pendendo do pescoço magro.

Eu conheço esse pastor, é um homem solteiro e solitário, já além dos quarenta anos de idade, que trabalha como marceneiro. Todos os domingos e eventualmente durante a semana ele pega sua velha bíblia, um caixote de madeira e seu terno preto já quase perdido e vai para a praça. Lá ele sobe no caixote, abre a Bíblia em um livro qualquer, lê e começa a pregar.

Pregará durante horas, faça chuva ou sol, sempre entre o horário do almoço e o do jantar. Raramente alguém parará para ouvi-lo, geralmente as mesmas pessoas: uma senhora gorda e morena, um velho negro curvado e de ar tristonho e uma adolescente feiosa e vesga que manca de uma perna. Levam-lhe água, café e pão.

Ele prega sem parar, até a garganta doer e as palavras se misturarem em sua boca, até lágrimas correrem de seus olhos e ele quase desfalecer no chão. Há muitos anos que ele faz isso. Sua voz já está prejudicada por calos nas cordas vocais, sua pele está cheia de queimaduras de sol, mas ele insiste.

Conclama ao arrependimento e à crença, mas recebe a dura indiferença deste país onde supostamente 98% da população crê em Deus. As meninas passam fazendo-lhe piadas, os meninos lhe atiram cascas de frutas, os adultos passam rindo ou olhando com ironia nos olhos.

Raramente alguém lhe dará alguma recompensa. Dizem que um conhecido comerciante certa vez lhe deu o terno, com a condição de que não mais pregasse diante de sua loja. Não tenho notícia de que jamais tenha convertido alguém pois também conheço a igreja que ele freqüenta: é um miserável cubículo de nove metros quadrados no subterrâneo de um barraco em um bairro miserável onde só aparecem a moça vesga, a senhora morena e o negro idoso. Nunca o vi pregar em outro lugar.

Quando vejo este homem pregando na praça, destruindo sua voz e sua saúde sob o inclemente sol de Minas Gerais em dezembro, eu também me pergunto o que o leva a isto. Que espécie de desgraça o tornou tão desesperadoramente infeliz, matou suas esperanças de felicidade terrena, negou-lhe o desejo do amor, acabou com planos de filhos?

É preciso ser profundamente infeliz para render-se a uma vida tão miserável, tão santa. Os santos são infelizes, e são loucos. Com sua infelicidade eles compram sua esperança de céu, com sua loucura eles acham que são felizes enquanto sofrem caninamente.

Tenho muita pena do pastor que prega na praça.

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