Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Um Buraco em Forma de Deus

Publicado em: 21/08/2010
Poema originalmente escrito em março de 2003
Vestimos a vida, roupa desconfortável
e apavorados vivemos.
Andamos sem rumo
      querendo salvar-nos
de vaidades, perigos e degredos.

Espíritos tensos,
      buscamos sem onde
o fio que nos liga
a Deus e a nós mesmos.

Palhaços no meio da praça,
rimos a quem nos maltrata.

Espíritos e carnes
densamente pensam a essência
que justifique a tudo.
Aspiramos ao alto mais alto
e o vemos cair diante de nós.

Corpos retesos e mãos impotentes,
acenamos na noite em busca daquilo
que forjou os profetas,
talvez aos astros.

Temos virtude e falta-nos Isto
e nossas faces parecem mortas no espelho.
Vertidas as últimas lágrimas,
vagamos sem onde
deixar nossos despojos:
mudamos tantas vezes que não temos casa,
este lugar é apenas depósito
de coisas que pensamos, mas não somos.

Vendemos tudo e nada ganhamos.
O tempo toma tudo que não é de verdade.
Não, não é dinheiro o que perdemos,
é uma alegria que nunca tivemos.

Abrimos a noite
ou somente a janela?
Vencemos o medo
ou acendemos uma vela?
Mal sabemos se nos temos
ou se buscamos.

E a resposta de tudo
estará neste templo
ou em algum tempo?

Há o espaço vazio
de uma peça que falta,
o silêncio da resposta
que ninguém nunca dá.

Ceticismo, ironia, nada,
nada disso recobre ou emenda
este buraco em forma de Deus.
Arquivado em: poesia
Assuntos: ceticismo filosofia