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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

A Noite com Johnny Walker

Publicado em: 25/08/2010
A Luiz Fernando Valverde.

Uma das noites que lembro com mais carinho é uma noite perdida no tempo, entre 1990 ou pouco depois, em que houve uma noite de música no teatro do Colégio, sob o pretexto de comemorar o Halloween — essa absurda tradição anglo-saxônica que nosso servilismo nos está levando a adotar. Pouco lembro do que aconteceu naquela noite, exceto que tocaram muito da boa estirpe de uma outra absurda tradição anglo-saxônica que nem o meu pretenso nacionalismo pôde evitar que eu adotasse — o rock’n’roll.

Depois daquele noite algo mudou dentro de mim, embora eu não saiba muito bem o quê. Algo ficou para trás, perdido e pendente, sem que eu trouxesse foto alguma de lembrança. E dessas coisas indefinidas é que se tem mais saudade.

Anos mais tarde eu estou conversando com um amigo e eis que ele, de passagem por outros assuntos se refere a essa noite em especial. Ele foi o baterista do primeiro grupo que subiu ao palco, ainda pouco depois das nove, e diz ele que foi um dos momentos mais legais de toda a sua vida.

Sempre que algum músico ameaça me contar coisas assim eu estimulo a confidência com avidez e reverência de quem sofre por não ter aprendido um instrumento. Como se faltasse em mim uma peça que eu sei que deveria ter.

Porque me faz falta nunca ter tido a chance de participar de nada assim… Mas eu, se nunca pude ter essa memória de mim mesmo, às vezes a tenho através de outros. Que sorte têm, quando faltam sonhos vivos, aqueles que têm amigos! Se você não tem a própria vida para se lembrar, invente uma!

Percebendo ou não o tamanho de meu interesse, o meu amigo desfiou a memória de seus dias de palco. Era como alimentar a um faminto. Enquanto ele me contava cada detalhe, eu me punha em seu lugar, vampirizando a emoção que ele me transferia, como se assim eu pudesse viver também um pouco aquilo.

Até que, de repente, eu me vi imerso uma outra vez na atmosfera densa da década de oitenta, época em que ser livre ainda era uma arte e estar vivo ainda não era tão perigoso. Época em que o amor ainda não precisava de escudos, em que as deusas não pareciam bonecas de plástico.

De repente me sinto subindo ao palco com eles, como se o espírito de um ex-roqueiro baixasse em mim. Ouço o rugido das guitarras, escuto lá fora a agitação do público. Uma dose de uísque virada de um gole só para esquentar o peito e demolir o muro que travava os movimentos. Quatro rapazes ainda com espinhas no rosto entram carregando instrumentos enormes, andando desajeitados enquanto são caçados com frieza pelos olhares de uma plateia que cobrava uma atitude.

Nessa hora Johnny Walker engrossa a coragem que fraqueja e os três se põem em seus lugares, engatilharam suas armas, dão um último retoque em afinações empíricas. Vaias e aplausos dão as agridoces boas-vindas, respondidas com sorrisos simples. Cada um é um guerreiro em uma grande aventura rumo ao desconhecido: a vida.

A pequena transgressão, uma garrafa de rótulo negro. Com ela desafiamos as regulamentações e as leis. Com ela desobedecemos às recomendações de nossos pais. A garrafa se transforma em um símbolo. Um símbolo que é ostentado com orgulho quase equivalente ao orgulho de ostentar o instrumento. Erguer a garrafa e sorver direto do gargalo, arrancando aplausos de crianças que querem pecar um pouco hoje.

Até que, saciado o desejo feroz de intensidade, depositam o Graal no solo e atacam um primeiro acorde para a glória. O ritmo rompe o murmúrio da multidão. Imediatamente as fronteiras de um universo que não acaba no horizonte se abrem aos que querem ouvir. E, repetindo Pink Floyd, decretam que é confortável estar mudo, e a vida não é mais que o roteiro para as lágrimas de um bufão. E todos pareceram estar fora de seus corpos, movimentando-se ao ritmo dos rifes.

A música é um pranto, um acalanto, um ato de instinto com metáforas terríveis e uma grandeza vil. Submergimos em cada acorde como se cada instante fosse o último e nunca fosse amanhecer. Nada mais somos que sonhadores. Cada segundo tinha de durar além de si mesmo, cada nota tinha de suster-se na memória do ouvinte como um convite eterno.

De repente eu acordei. Aquela noite foi uma das últimas noites. Não haverá outra. Aqueles sonhos foram dos últimos daqueles sonhos. Não se sonha mais assim.

Tempos difíceis vieram, esmagaram nossos sonhos e nos empurraram pelas ruas até um beco sem saída. Pessoas que faziam parte de nossas vidas de repente estão morando muito longe e ficaram tristes. Gente que nos amava está morta, mudou de rumo ou perdeu seu brilho. Quantas vezes eu vivi eternidades falsas que nem amanheceram; promessas de substituir cada vaga lembrança que sumiam antes que eu pudesse ter tédio.

Por isso o grupo acabou. Um deles passou num concurso, trabalhou em um banco, adquiriu tendinite, perdeu seu sorriso e hoje, nas noites de lua, toca para sua amada que sempre foi um guerreiro de aluguel e nunca teve tempo de lutar por suas próprias causas. A cada dia é maior o acúmulo de dejetos e circunstâncias entre nós mesmos e quem quisemos ser.

Outro está casado e só Johnny Walker resta para ocasional lembrança de um tempo em que a vida, a música e os amigos eram tudo que importava. A bateria talvez enferrujando num canto. Mas os amigos sempre serão amigos.

Outro sumiu. Casou? Teve filhos? Mudou-se para a Grécia ou foi catar coquinho em algum lugar? Nunca se fica sabendo. Perder o rumo é quase como perder a vida.

Fico pensando de que modo será que se sentem quando param para pensar no passado. Ganhar a vida sem sonho nos transforma em tristes, em carne morta que se move e dói.

Há maneiras aparentemente alegres de sofrer, como há tristes formas de felicidade também.

Ou será que, ao contrário de mim — que nunca na verdade vivi profundamente nada disso — eles vivem felizes e não lamentam que o mundo mudou?

Hoje, ao contrário de meus ídolos, eu estou jovem demais para o rock’n’roll, embora não velho o bastante para morrer. Mas talvez alguém ainda ache de viver. Eu tenho saudades de um mundo de que só vi o crepúsculo. Um mundo em que a juventude não era a platéia de um programa de auditório e não éramos revistados por seguranças para entrar nos locais de diversão porque todo mundo ia lá para se divertir apenas.

Tenho saudades de não ter estado nos grandes momentos do pequeno pequeno mundo de que tenho tanta saudade. Tenho saudades de não ter saudades de verdade. Lamento o encanto que nunca encontrei, a noite em que poderia ter ido com Adriana à feira de Santa Rita mas, com medo da bronca de minha avó, preferi ir para casa dormir o sono dos anjos.

Poderia ter conseguido, talvez, conquistar o coração de Simone, não fosse tão ingênuo? Lembro-me como hoje da noite em que o dia de ano novo rompeu subitamente a mediocridade e me transformou num medíocre que se acha possuidor de um bom gosto.

Lamento não existir mais ninguém capaz de compor uma canção à beira-mar ou de filosofar sobre o tempo que perde a cada dia.

Porque agora a luta de cada noite e dia não tem a mesma capacidade de afogar-nos num mar de aromas e sonhos.

É difícil saber se realmente é felicidade esta vida feliz que levamos porque não temos como sentar na varando ouvindo no rádio a canção que nos lembra o primeiro beijo, a primeira noite, o primeiro dia, o último instante, que nos remete ao próximo, que…

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