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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Antinatal

Publicado em: 05/12/2010

A camponesa apertou os lábios para protegê-los contra o frio, maldizendo-se pela ideia péssima de subir ao alto daquele monte. Puxou para baixo as abas de seu chapéu de pele de lebre e tratou de esconder a cara morena com a da manta de lã. Estava uma noite bem pouco amável nas colinas da Gaulanítide, mas as promessas da bruxa grega a haviam convencido. Sozinha, persistia subindo o monte, apesar da neve que começava a cair a partir daquela altitude. Encontrou então o início de uns degraus de pedra rústica, que serpenteavam pelo monte desolado. No cume encontrou um pequeno grupo de pessoas, gregos em sua maioria, todos pesadamente vestidos com peles de animais, que lhes davam uma aparência ameaçadora, animalesca.

— Boa noite, em nome de Hécate — pronunciou cuidadosamente uma mulher madura, de cabelos louros e voz dura, cuja pele era quase tão clara quanto a dos escravos gálatas que os romanos ocasionalmente traziam.

— Boa noite, em nome de Javé — pronunciou a pobre moça morena, tentando esconder a cárie de seu dente da frente com a aba da manta.

— É de livre e espontânea vontade que vens? — perguntou-lhe um grego corpulento e de nariz largo, cuja voz trovejante intimidava e seduzia.

— Em nome de Javé, digo que sim.

— Quem a envia, flor das montanhas? — novamente perguntou a mulher loura, ditando as sílabas com uma entonação arcaizante, que soava estranhamente no ouvido de quem apenas conhecia o koiné.

— Filomena, a herbalista de Séforis.

— Sabes bem do que se trata a oferta que lhe foi feita?

— Sei sim.

— E a aceitas, incondicionalmente?

— Sim.

— E o que buscas em troca do sacrifício que farás?

— Que me restaurem a saúde, para que eu possa ajudar minha pobre mãe.

A mulher loura fez um gesto para cima, deixando que a manta de lã corresse por sobre a pele, revelando nos braços pálidos as sombras azuladas de tatuagens. A jovem tremeu e quase saiu correndo, só de pensar nos significados daqueles símbolos, tão arredondados, tão diferentes das letras sagradas. Mas, em vez de desembestar correndo pelo morro abaixo, assustada pelas coisas que via, lembrou-se de seu terrível destino e da perspectiva de afastá-lo. Fincou os pés no chão e permaneceu.

O vento frio assobiou com mais força. Os gregos indicaram que terminasse a subida da escada, e então a fizeram deitar-se numa pedra chata e retangular, que haviam coberto com peles de ovelha costuradas. Quando terminou de deitar-se, enrolaram a pele em torno, abotoando as bordas com broches de ferro. Por fim, ouviu estenderem outra pele, que a isolava de toda luz que pudesse aparecer.

Estava imersa na escuridão daquele estranho casulo. Um perfume suave de almíscar impregnava o ar, disfarçando o cheiro cruel do sangue que vez ou outra vertia de suas feridas que não fechavam. Os gregos terminaram de dispor os artefatos nos quatro cantos do altar assimétrico e declamaram os versos sagrados, enquanto abriam feridas para gotejar de seu sangue nos cálices purificados:

— Ó amigo e companheiro dos viajantes da noite, ó tu que te regozijas no ladrar dos cães e no cheiro do sangue derramado, ó tu que perambulas em meio às sombras entre as tumbas, ó tu que desejas o sangue e trazes o terror aos homens, ó tu que tens mil faces e as revelas somente ao luar! Contempla favoravelmente nosso sacrifício!

Aquela jovem morena teria enlouquecido simplesmente por ouvir essas frases de bocas gentias, mas para benefício de sua sanidade elas foram pronunciadas em uma forma tão arcaica do grego que bem poderia datar de antes da colonização da Hélade, tempo em que navios de velas negras partiam de Creta para espalhar o terror no Mediterrâneo e somente os deuses abissais responderam ao apelo dos argivos, antepassados daqueles que em volta da pedra evocavam as trevas da noite em seu auxílio.

O vento frio soprou mais forte, parecendo até apagar as chamas das estrelas menores, deixando o céu aterrorizado. Dentro das peles firmemente costuradas com agulhas de osso e cordas de nervos e presas com pesados broches de ferro aconteceu uma agitação sutil, uma fala feminina tão abafada que não se podia entender e logo uma comoção muito mais forte e uma voz mais alta, tornada ininteligível pelo desespero, e tudo isso redundou numa frenética sucessão de espasmos e em um som rouco e indistinto, quase animalesco.

Por fim a agitação se acalmou, o vento soprou de novo e foi embora, anunciando que o inverno era velho e logo se abriria a primavera. Os gregos soltaram os broches com todo cuidado, desamarraram as cordas de nervos com paciência e fé. Por fim desdobraram as peles e encontraram a jovem morena imóvel, mas quente. Seus olhos estavam vidrados, mas se moviam imperceptivelmente. Suas mãos se cruzavam com força sobre o peito e suas pernas entreabertas estavam esticadas como se fossem colunas de pedra.

— Acorda, irmã, pois tudo terminou — disse a mulher loura.

A jovem mestiça de pele morena ainda continuou por alguns instantes extática ali sobre o altar, tendo no rosto uma expressão matizada de medo e luxúria. Por fim piscou os olhos e moveu-se, olhando em volta como um cão enxotado que tenta novamente buscar migalhas entre os comensais.

— Calma, irmã — repetiu, ternamente, a sacerdotisa de Hécate.

— O que aconteceu comigo!? — indagou a camponesa das montanhas da Gaulanítide?

— Tu te tornaste parte de uma grande obra, e foste imensamente recompensada.

A jovem olhou para as próprias mãos, que pareciam — pelo menos à luz da lua — isentas das manchas claras que a estigmatizavam perante seu povo. Se tivesse mirado no espelho teria visto limpos igualmente todos os seus dentes.

— Ó Adonai, o que eu fiz de minha vida!?

Os gregos fizeram um círculo em torno dela, reverenciando-a e temendo-a.

— Terrível seja o Fado daqueles que pisarem teu caminho, irmã — declamou um deles.

— Rápida seja a Justiça contra aqueles que a agravarem, irmã — adicionou um segundo.

— Abram-se as portas diante de teus pés, irmã de todos nós — concluiu a sacerdotisa.

O grego de nariz largo trovejou seu vozeirão cavernoso pela última vez naquela noite, ordenando-lhe que retornasse àquele mesmo local a cada lua cheia, até não ser mais possível ou necessário. Para sinalizar-lhe a importância disso, amarrou uma corda em seu tornozelo, dizendo-lhe:

— Aqui atamos teu pé e o de tua sombra. Voa livremente pelas montanhas, mas não além delas para que nada te impeça de retornar nas luas cheias, ou horríveis serão para ti as consequências.

Tendo-a feito ritualmente irmã de todos, deram-lhe o nome de Catarina, a purificada, nome esse que somente poderia ser usado na presença da sacerdotisa. E assim, naquela feia noite de fim de inverno setentrional, uma jovem mestiça da Gaulanítide desceu da montanha curada de suas manchas na pele, passou pela colônia de leprosos onde estivera tão brevemente, e se dirigiu à aldeia para pedir um reexame, conforme permitido pela Lei. E assim foi feito, e assim obteve de volta a sua vida.

Duas semanas depois, enquanto moía trigo para assar o pão, sentiu-se mal. O marido, que tanto festejara o seu retorno, imediatamente reconheceu os sintomas, os enjoos. Deixando-a com as mulheres da casa, tratou de ir à estalagem pagar vinho para todos os seus amigos:

— Eis que Javé me abençoa mais da conta, meus amigos. Não apenas restaurou a pureza de minha amada esposinha, curando-a da horrível lepra, mas também permitiu-nos, tão rápido, a alegria de engendrar uma vida. Sim, amigos, ela está esperando!

Os amigos de Yohanan beberam à sua saúde, desejando que Javé lhe preparasse filho varão para finalmente assegurar a descendência de sua casa. Yohanan retornou tarde para casa, entorpecido de vinho barato da Galiléia, e dormiu pesado como um elefante sobre as imundas almofadas da sala.

Foi no frio dezembro que Hulda deu à luz, em parto fácil e quase indolor, a um menino ruivo como o pai, dotado de choro feroz e olhos negros, muito negros, que abriam com curiosidade para este mundo cruel. Deram-lhe o nome sagrado de Yehuda, ou Yudah na língua do povo, ou ainda Judas na língua dos gentios.

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