Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 28 de maio de 2021

Mais Aforismas de um Ogro

Publicado em: 11/01/2011

Continuando minha série de frases de efeito que vão acabar afastando todos os meus amigos, eis outra série de “Aforismas de um Ogro” (se quiser mais motivos para me odiar, leia a primeira parte.

Se as baratas sobreviverem ao apocalipse, isso ainda não mudará o fato de são estúpidas baratas. Sobreviver não é nenhum mérito, porque para cada Oscar Niemeyer que faz 110 anos, há uns trinta japoneses que passaram a vida inteira em sua cidadezinha bebendo saquê e nunca projetaram uma cidade.

O aspecto mais lamentável da literatura atual é que a maioria de seus praticantes não entende o que significa “lamentável”.

Se […] (nome de qualquer filósofo ou político do passado) estivesse vivo, ele certamente gostaria de […] (complete com a coisa idiota cujo hábito você pretende justificar pateticamente).

Eu sei que o futebol é um jogo de cartas marcadas, mas ainda quero que o Galo seja campeão e o Flamengo se exploda.

A vírgula não humilha o ignorante, que não aceitará que errou, e nem o sábio, que se perdoa enganos ocasionais. Quem se ferra por causa dela é revisor.

Eu não acredito em crentes verdadeiros e nem ateus absolutos. Todo crente interpreta como metáfora o mandamento que não lhe convém e todo ateu acha um jeito de se alienar, mesmo que seja com a crença de ser um ateu absoluto.

Dizem que em algum lugar do interior da Bósnia-Herzegovina, em 1983, alguém teve uma ideia original. Essa pessoa a guardou num caderno que foi queimado em um bombardeio durante a guerra civil. O autor da ideia se sucidou ao descobrir que não se lembrava da ideia. Uma cópia da ideia original foi enviada por correio a um primo do amigo, que vivia em Belgrado, mas extraviou no correio.

O dinheiro pode comprar qualquer um, mas cada um pode escolher se está ou não à venda.

Estou acostumado a sentir no rosto o peso dos obstáculos que a vida nos impõe: fui goleiro de handebol na escola primária.

Eu não te levaria para uma ilha deserta, mas pagaria para que te levassem.

A maior prova de afeto não é levar uma pessoa para uma ilha deserta, é crer que precisa ser trazida de volta se acaso for.

Ao contrário da maioria dos nossos jovens fãs de literatura, eu acredito que ideias originais quase não tem importância se você não tiver capacidade de criar a partir delas uma obra que valha a pena ler. Na verdade, um autor porco com uma boa ideia deve ter sido o que inspirou Jesus Cristo a inventar a parábola das pérolas aos porcos.

A frase mais sábia da história da música popular brasileira quem disse foi Raul Seixas: “Enquanto Deus explica, o Diabo dá uns toques.” Por isso eu não acredito que o brasileiro seja um crente sincero em Deus, haja vista que a maioria (incluindo eu mesmo) não entende porra nenhuma daquilo que se propõe a fazer e se garante seguindo um “burrinho” ou pedindo uns “toques” para um colega.

Ergo: todo autor que se preza quer achar uma receita de bolo para escrever ou uma Jornada do Herói para chamar de sua.

Não é verdade que Sandy e Júnior são filhos de Chitãozinho e Xororó.

Bob Dylan abriu o caminho para que os desafinados cantassem e o mundo pôde conhecer artistas incríveis que teriam ficado mudos: Jimi Hendrix, Fish, Roger Waters, Paulo Ricardo e o Herbert Vianna. Hoje precisamos de outro Bob, que abra o caminho para os que sabem cantar cantem de novo.

É mais fácil tirar o homem de dentro da igreja do que a igreja de dentro dele.

Desconfie de quem agrada todo mundo. Somente pela qualidade dos inimigos a gente pode avaliar o caráter de um conhecido.

Não acho injusto que um árbitro de futebol ganhe mais do que um juiz do Supremo Tribunal Federal: nunca um dos Supremos Árbitros da Nação conseguiu decidir num piscar de olhos. E eu nem falemos de como reagem se algum réu xinga a mãe de um deles no tribunal.

A fidelidade é uma virtude humana espantosa: mesmo com o marido bode-velho processado por dezenas de estupros de outras mulheres, sua linda e jovem esposa se mantém fiel à conta bancária.

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