Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

O Abismo Também te Contempla

Publicado em: 22/01/2011

Este conto, escrito originalmente entre 2001 e 2002, foi inspirado por uma conversa que tive com um conhecido, que me relatou sua intenção de matar a namorada que havia engravidado. Na época eu não levei a sério o que ele dizia, apesar dos detalhes minuciosos que ele criou para a cena, porque não acreditava que ele fosse capaz — e felizmente ele não foi. Esse é o tipo de texto que eu hoje não escreveria, uma vez que representa abordagens e valores em que eu não acredito, mas eu o preservo porque faz parte de minha história.

Quando Roberto e Teresa foram vistos a sair da cidade para um passeio no campo ninguém podia imaginar o que estava por acontecer naquela tarde. Naquele domingo nada de especial parecia estar ocorrendo aos olhos de quem os visse passar no jipe: eram os mesmos sorrisos, a mesma falta de precaução que é tão característica do amor.

Iam a um desses lugares calmos onde se pode nadar e permanecer por horas sem ser molestado pela presença de seres humanos. Havia uma piscina natural cercada de areia fina e pedras, próxima a umas colinas ermas de onde não se ouvia nenhum rumor de civilização e podiam ficar à vontade. Lá chegaram pelas duas ou três da tarde. Deixaram as roupas sob uma árvore e foram nadar. Ela despiu-se porque fez questão de, naquele momento, estar nua. Roberto nunca entendia estas insistências que lhe ocorriam. Para ele tanto fazia uma coisa ou outra, não entendia a magia da nudez. Nenhum prazer ele sentia nisso.

Ela saiu sorridente da água fria e estendeu uma toalha sobre um trecho de gramado e deitou-se. Tudo parecia estar tão bem. Mas não aos olhos de Roberto.

Ele foi até o jipe, tomou o embrulho de papel pardo que estava sob o banco do motorista e aproximou-se a passos curtos e leves. Estava pronto, ou assim pensava. Num gesto muitas vezes ensaiado rasgou o envelope com fantástica rapidez e segurou o revólver com firmeza.

Teresa estava entorpecida pelo calor gostoso do sol e deixava que seus raios dourassem sua pele. Nada percebera. Roberto então aproximou-se, saltou sobre ela, segurou sua boca com a mão esquerda e encostou o cano do revólver sobre o mamilo esquerdo, um pouco para dentro do peito. Disse friamente: “Você não vai me estragar a vida, sua piranha. E nem esse bastardo que você carrega no bucho e não é meu”.

Pôr um momento os cavalos ergueram suas cabeças sobressaltados, quando um grito tentava rasgar a tarde. Mas depois voltaram a pastar na mesma tranqüilidade de antes. A cidade não ouviu e o rio continuou a correr discretamente.

Roberto olhou as mãos, surpreso com o seu ato, mas faltou a coragem de punir-se. Olhou em torno e não havia mesmo testemunhas, a não ser os pássaros. Cerrou os olhos e saboreou de novo a intensidade de haver matado, não lhe sobreveio nenhum sabor especial. O sol brilhava igual, o mesmo vento sacudia as folhas, nenhum silêncio novo amaldiçoava o ar e nenhuma atmosfera diferente envolvia a paisagem.

Saciado nesta certeza, abriu de novo a sua perspectiva em direção à realidade e viu apenas o que viu. Apesar do estrondo da arma de fogo ninguém viera acudir e o eco tivera tempo de estender-se ininterrupto até morrer de repetir-se.

Agora estava incrivelmente só, mas o arrependimento não vinha. Teresa jazia a seus pés, uma flor vermelha amanhecia em seu peito e o vento não desistira de agir em seus cabelos. Soltou a arma, depois apanhou de volta, racionalizado: não poderia deixá-la onde poderiam encontrar.

Assim iniciou-se o trabalhoso processo de ocultação de toda prova que lhe fosse possível identificar. Embrulhou o corpo na toalha, nu mesmo, e ocultou-o entre duas pedras, sob uma árvore, dentro da corrente do rio. Era verão e muitas chuvas fortes costumavam ocorrer ao anoitecer. A próxima provavelmente a levaria água abaixo.

O resto dos pertences, embrulhou num saco de plástico e enterrou na margem, um buraco de um metro e pouco de fundura pareceu suficiente. Depois de alisar a areia o quanto pôde, achou que já estava bem perfeito. Escondeu a arma outra vez debaixo da poltrona do carro e deu as costas a quem fora seu amor.

Antes de chegar ao pé do morro olhou de volta como se quisesse confirmação de que ela não se levantara. Não havendo sinais de atividade, continuou andando em direção ao jipe. Ao tocar a fria maçaneta da porta lembrou-se subitamente do que realmente fizera, uma escuridão baixou em seus pensamentos e uma náusea cruel comprimiu o seu estômago até o almoço cair ao chão.

Respirou fundo, buscou forças e limpou o amargo-ácido que ficara na boca com um bochecho do resto de água mineral que ficara na garrafa de plástico. Então pôr um momento se deu conta de haver lágrimas em seus olhos.

Quis raiva, como se elas fossem uma cobrança injusta que Teresa ainda lhe fazia, mas já se sentia a pisar num pântano: o pranto saiu grosso e entrecortado, com dentes rangendo, calor no rosto e tremor nas mãos que apertaram-se no vazio até as unhas ferirem a pele. Chutou com fúria os duros pneus, cuspiu o resto do amargo, arrancou cabelos e sentou-se ao volante para acalmar-se. Quis ouvir uma canção, ou um ruído que rompesse a redoma de silêncio que o comprimia e acusava. Mas as mãos tremiam a ponto de não conseguirem sintonizar o rádio e a ponto de deixarem cair as fitas.

Olhou para cima, esperando que Deus mandasse o seu anjo para fender-lhe o crânio com uma espada flamejante mas havia apenas nuvens desmaiadas escorregando pelo céu azul-aço. Xingou e Deus não o puniu. Gritou e ouviu só o silêncio que insistia. Lembrou-se de estar a vinte quilômetros da estrada principal e este pensamento, que a princípio fora providencial e confortável, pareceu naquele momento desesperador. Apenas grilos denunciavam a sua premeditação.

Enquanto se vestia começou a refletir sobre as possíveis conseqüências de seu ato. Algumas nuvens negras a mais toldaram o horizonte, mas era apenas chuva.

Caminhou de volta sem saber porque o fazia. Talvez vontade de vê-la viva. Mas viu apenas a verdade e isto o fez ouvir mais alto o zumbido/grito do silêncio no fundo de seus ouvidos. Sentou-se numa pedra e pôs-se a contemplar o cadáver, como se nunca antes houvesse tomado consciência da beleza manifesta nela.

À medida que os lábios que beijara alteravam sua cor e exalavam últimos vestígios de calor e os olhos iam se vidrando até assumirem uma crueldade acusadora, relembrou cada instante de ciúme e ao reler seus atos a certeza que o movera dissipou-se em contradições que o fizeram rir. A morte parecia santificar o corpo profanado pelo amor torto que lhe dedicara e violado pelo tiro, última dádiva de quem pouco soubera dar. A inofensividade angelical que havia nela morta!…

Não suportou mais. Um mugido interrompeu a sua dor. Era uma boiada tocada por alguns cavaleiros. Então se deu conta da besteira de ainda estar ao lado do cadáver, levantou-se, desceu rapidamente o morro e tomou o jipe. Dirigiu com saudades e sentiu os solavancos no fígado e nos rins. Ao passar pela primeira ponte de madeira teve ganas de atirar fora o revólver, mas pensou a tempo de interromper o gesto: sendo ainda tão perto seria um lugar provável para que procurassem.

Passou por um homem de ar triste e dentes enegrecidos de cáries que ia em uma charrete, olhou-o com toda a naturalidade que foi possível, mas ainda assim levou a impressão de que ele retivera o seu rosto na memória. As árvores às vezes pareciam dobrar seus galhos sobre a estrada para decapitá-lo.

Atraído por um ruído de cachoeira tomou um desvio, metros depois parou à beira do abismo e contemplou um amplo vale em cujo outro lado despencava uma cascata formidável duma altura de uns setenta metros. A água se despedaçava nas pedras como um copo de vinho que cai da mão.

O sangue retornou à lembrança, Armando olhou suas mãos, certamente impregnadas do doce cheiro da pólvora. O estômago agora exigia alimento. Desceu. Sentir-se pisando o chão de novo deu-lhe de volta um pouco da sensação de estar vivo que parecera estar definitivamente perdida.

A cachoeira chamava e a grama estalava de prazer sob os seus pés. Sentou-se no chão, descalçou os pesados sapatos de motociclista, o súbito vento neles enterneceu-o a ponto de querer chorar, cada dedo gritava de felicidade ao pisar livre. As saudades desapareceram porque era um belo mundo novo, sequer relatado por testemunhas humanas. Muitas eram as novas terras a explorar, muitos os mares novos a navegar.

O vento se intensificou, como num convite. Arrancou a camisa com um ímpeto apaixonado, desfez-se da calça. Em torno ninguém estava. As vozes de Legião estavam no abismo e lhe contavam que os boiadeiros haviam encontrado o corpo, que na verdade havia um arraial perto da colina, que o homem da charrete era bom fisionomia, que muita gente os tinha visto deixar a cidade, e Deus também sabia. Mas o vento o acarinhava com uma ternura que o fazia chorar.

De repente acordou do devaneio se sentindo estúpido por estar lá nu e ouvindo pensamentos que não deviam ser os seus. Ergueu-se do chão para seguir fugindo. Se fosse pego, haveriam de pegá-lo longe. Havia esperança, apesar do medo.

Tirou o revólver de dentro do bolso da jaqueta, olhou-o firmemente amaldiçoando-o. Fora ele que possibilitara a loucura. Não fosse ele e Teresa estaria ainda viva. Arrojou-o longe dentro do abismo e abaixou-se para pegar de volta as roupas que estavam pelo chão. Afinal, não fora tudo mera deformação da realidade pelos seus sentidos enlouquecidos pela culpa?

Decidido a levar adiante a vida que quase fora desperdiçada por um simples escorregão, Armando tomou uma estrada diferente da que percorrera na vinda e voltou à civilização.

Arquivado em: contos