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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 31 de julho de 2021

As Visitas

Publicado em: 12/02/2011

Meus olhos percorriam preguiçosamente a sala, retendo-se em detalhes que eu já conhecia muito bem, apenas para terem o que olhar, porque a minha ansiedade me embaraçava e as minhas visitas insistiam em não ir embora, ainda que eu não lhes oferecesse nada.

Acredito que sou bom, mas não há crente que resista à presença de visitas que querem comover-nos com lembranças num momento em que preocupações materiais se interpõem entre os sentimentos e os fatos. Difícil suportar perguntas que querem mostrar uma súbita consideração, mas apenas bisbilhotam em cantos perdidos do passado que eu já não desejo revolver. Que examinem minha vida, ainda é suportável. Só não suporto que o fizessem justamente quando se aproximava a hora do táxi que me levaria em outra importante viagem comercial.

Eu sou um homem bom, creiam-me! Mas acho que estive tempo demais vivendo sem a companhia de quem se importa comigo. Agora fica difícil aceitar pacificamente que se demorem mais de uma hora. Eu quero paz, quero silêncio, quero me esqueçam e quero meu dinheiro quando chegar o dia vinte.

Era àquela altura difícil esconder meu total desinteresse de qualquer que fosse o motivo da visita. E mesmo assim continuavam sorrindo e pedindo opiniões sobre os mais inconcebíveis assuntos. Sempre aplaudindo o que eu ruminasse.

Como fazer para desagradar a duas simpáticas pessoas que me agridem com o prolongamento de sua presença educada? Disfarçadamente olhava o relógio da parede. Não tão disfarçadamente que não pudesse ser percebido por um espírito sutil. Mas isto não surtiu efeito porque parentes não têm espíritos sutis.

Já era um desespero que me invadia: dois sorrisos sinceros e simpáticos me constrangendo a manter-me dentro dos limites da urbanidade. Até que subitamente uma buzina lá fora rompeu com o formalismo custoso que eu mantinha: tive de ir à janela ver do que se tratava, enquanto as visitas permaneceram educadamente conversando em voz baixa.

Depois de me haver certificado que era mesmo o táxi, com os meus companheiros de viagem e a corrida paga, não foi mais possível continuar falseando. Voltei para a sala e os mirei, olhos nos olhos.

Sorriam um ao outro ainda sem ainda me verem e suas mãos estavam entrelaçadas definindo uma certeza simples que eu não previra até então. Como dizer que deveriam ir? As palavras se agarraram firmemente à garganta quando os olhos deles se ergueram, tão misericordiosos e compreensivos.

É claro que em sua beatitude não havia mesmo espaço para entenderem às imperiosas necessidades profissionais, para aceitar minha premente necessidade de sair. Eram olhos de quem não admite desculpas. Possuíam sentimentos de quem nem mesmo admite que tenhamos sentimentos diferentes.

Outra vez a buzina lá fora, e acordei. Não há como fugir da obrigação de agir quando estão lá fora te chamando.

“Lamentavelmente não vai ser possível continuarmos hoje a conversa. Sei que estão com saudades, eu também. Mas eu tenho que sair. Tenho uma viagem de negócios e estão me esperando justo agora. Por que vocês não voltam outro dia?”

Uma certa incredulidade os atingiu enquanto eu falava. Eu me sentia um monstro, mas sabia antes que seria assim.

“Agora que estão juntos de novo e que vivem aqui tão perto, eu sei que sempre poderei visitar e juro que vou fazer isso no próximo feriado, mas temos de deixar para colar o resto dos cacos outro dia; ou eu posso perder outro emprego.”

Assustei-me com a dureza de minhas palavras. Creia-me, não sou um mau sujeito. Incomodou-me o ar de surpresa que fizeram, como se eu estivesse cometendo algo tremendamente criminoso. Lembrei-me das vezes em que fora vítima de chantagens emocionais e do quanto me havia custado a permanência sob as asas protetoras de mamãe, antes de criar coragem de enfrentar o mundo. Com que direito se julgavam merecedores de que eu comprometesse minha posição e meu emprego para continuar lambendo velhas feridas? Com que direito apareciam subitamente em minha vida anunciando que as velhas brigas que tanto me haviam magoado estavam superadas e que o amor vencera?

Por pura crueldade passou-me pela cabeça o pensamento de que o motivo verdadeiro da reconciliação tinha sido tão-somente o medo de passarem ambos a velhice solitária dos descasados e que aquela reconstrução de um velho lar era só uma espécie de aposentadoria que ambos se concediam do fogo da que arde dentro de todos nós. Talvez uma maneira de atrair solidariedade em um tempo de vacas magras.

Principalmente irou-me o ar de inocência neles. Como se eu já não estivesse vestido para sair quando chegaram, como se meus livros não estivessem cobertos, os móveis sob lençóis. Como se as panelas não estivessem vazias e os talheres, embrulhados. Como se as malas não estivessem junto à porta.

Por fim mamãe se desculpou e começou a despedir-se. Claro que cutucando sutilmente minha piedade e dever filial. Por um momento senti-me culpado por estar prestes a partir para uma cidade estranha onde aguardava-me a promoção que eu esperava havia tantos anos em vez de permanecer em casa juntando os pedaços de uma vida familiar infeliz. “Não queremos atrapalhar a sua vida, filho.” disse papai de modo levemente ríspido e decepcionado.

“Vá cuidar da sua vida. Temos muito tempo para conversa” — disse mamãe com uma nódoa de tristeza no olhar.

E dirigiram-se à porta com uma secura no gesto, com um vagar calculado nos passos. Depois de acompanhá-los à saída, voltei para buscar as minhas malas e fui embora da cidade para não voltar por muitos meses.

Semanas depois, já orgulhosamente instalado no posto de chefia que tanto almejara, fui interrompido no trabalho por um telefonema. Um tio distante me comunicava a morte de meus pais num misterioso acidente de carro.

Pousei o fone no gancho sentindo uma ânsia indefinida crescendo dentro de mim e olhei o horizonte cinzento. “Nunca mais!” Que peso há nestas palavras!

Súbito e cruel um pensamento mesquinho brotou dentro de mim: “Eles me venceram! Não há como insistir no ódio agora”.

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