Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Matem-se

Publicado em: 23/01/2013

Segundo me contou o meu amigo, também escritor, Emerson Teixeira Cardoso, ele trocou correspondência com Eugene Ionescu quando era jovem. Ao ouvir isso, fiquei excitado e lhe perguntei que grandes revelações o mestre do absurdo lhe fizera, pois ele e alguns amigos tinham justamente um grupo de teatro amador em nossa Cataguases natal, na época da suposta correspondência.

Bem, era um grupo mais do que amador, também autodidata, que encenava peças diversas na base do amor e do instinto. Certa vez, enquanto ensaiavam para a montagem de “Rinoceronte”, calharam de ter a ideia de escrever ao então famoso dramaturgo em Paris. Não sei como conseguiram o endereço, mas conseguiram, e um dos membros do grupo sabia francês, coisa que se sabia naquela época muito mais do que hoje.

Após várias hesitações sobre o conteúdo, que acabou sendo um trabalho escrito a muitas mãos, enviaram uma carta cândida, em que se apresentavam como um grupo de teatro amador, localizado no interior do Brasil, em uma cidade que tinha, à época, cerca de 30 mil habitantes. Depois de enfatizarem que tudo o que sabiam de teatro haviam aprendido nos livros que haviam lido sobre o assunto e nas peças que haviam ousado encenar, descreviam com minúcias as dificuldades por que passavam e a incompreensão que enfrentavam (e apesar de tudo uma peça teatral daquelas deve ter tido mais público em 1969 do que teria hoje, na mesma cidade, já crescida e mais “desenvolvida”). A carta concluía com uma pergunta ao dramaturgo, como se ele fosse uma espécie de oráculo: “o que devemos fazer?”

A resposta de Ionescu veio quase três meses depois, quando a peça já tinha sido apresentada todas as duas ou três vezes que poderia ser. Era uma frase única, seca, isolada no centro de uma folha de papel ofício:

« tuez-vous »

Todos ficaram evidentemente perplexos com tão formidável imperativo, sutil como uma chifrada de rinoceronte. Não sei se meu amigo já desenvolveu uma teoria sobre as motivações do conselho de Ionescu, ou mesmo se existe uma razão para ele, além do mau humor de um exilado que devia receber centenas de cartas de fãs cada dia. Mas, de fato, tendo refletido sobre o enigma da frase, ainda mais pela carga de gravidade que a exiguidade lhe empresta, desenvolvi uma teoria:

Ionescu, ao tomar conhecimento da existência, no interior do Brasil, de um grupo de pessoas que se dedicava a estudar teatro a partir de livros e montar precariamente as peças escritas por dramaturgos como ele, deve ter se sentido bastante incomodado com a pergunta que ainda hoje não quer calar em mim quando vejo algo equivalente: o que essa gente pensa que está fazendo?

Vivem em uma realidade distante, para ele incompreensível, em nada explicável pelas variáveis da Europa do pós-guerra; enfrentam tantas restrições que praticamente os impedem de ter acesso a cultura — e ainda mais sob o tacão de uma ditadura. Estão inseridos em uma sociedade que de forma alguma valoriza seu esforço, compreende seu trabalho ou se solidariza com suas inquietações. E no fim das contas o que fazem é tosco e improvisado, pelo autodidatismo. E é também precário, porque a escassez de meios lhes obriga a improvisar, deformando a concepção do autor. E todos os aplausos são de amigos e parentes.

Diante de tal realidade, o que fazer senão matar-se?

Afinal, você já vive de costas para a cultura de seu país — ou a falta dela — e busca ingenuamente a aprovação de um autor que, mesmo talentoso, está em outro continente e em outro século. Você já se anulou, você já foi calado pela ditadura, você está imitando modelos estrangeiros porque eles, e somente eles, são seguros. Você já está metaforicamente morto, só falta o realismo.

Se já está morto assim, matar-se mais não é uma violência nova. Acabe o serviço mal começado. Mate-se.

Este “matar-se” adquire um sentido libertador. Ionescu não sabia se os jovens se matariam por sua frase, mas eles não se mataram. O conselho os libertou, ou deveria ter libertado. Pelo menos deveria ter libertado da idolatria a Ionescu e lhes mandado escrever de volta:

« je tuerai vous »

Ou, num nível acima de compreensão e liberdade:

« je survivrai »

Porque a vingança não é liberdade. Mas a sobrevivência é uma grande rebeldia.

Pensando desta forma, quer tenha Ionesco pensado assim ou não, o conselho adquire um caráter de oráculo, e os jovens cataguasenses acabaram tendo na mão o que esperavam, apenas não da forma que queriam.

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