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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Festa Estranha, Gente Esquisita

Publicado em: 16/09/2013

Meu trabalho é encarar fila de banco. Tem quem ache que é um serviço fácil, mas tudo é fácil para quem não tem que fazer. Eu detesto, porque nesse serviço eu não sou dono de meu tempo. Não faço as regras e nem as horas, mas sempre levo bronca do patrão quando volto tarde, mesmo ele sabendo que o atraso é culpa do caixa, do banco, do engarrafamento do trânsito, do alinhamento dos planetas ou da queda de um asteróide.

Infelizmente preciso da grana: a faculdade não vem de graça para quem não nasceu na família certa, muito menos para quem não é da cor certa. Por isso fico no serviço e procuro relaxar como é possível. Quando a fila está grande, como hoje, tento desligar a mente injetando música. Ninguém sobrevive a uma fila de banco sem perder a sanidade, a menos que relaxe com um som tranquilo enquanto espera a vez.

As coisas já foram melhores. Antigamente nem tinha esses banquinhos acolchoados, mas as pessoas não achavam que telefones móveis fossem perigosos. Agora há quem se incomode com meu alheamento. Gente que fica me olhando torto, como se eu fosse alguma espécie de terrorista teleguiado só porque estou com os malditos plugues no ouvido.

Mesmo assim prefiro ignorá-los a desligar meu aparelho para deixar de incomodar seus preconceitos. Fora de minha cabeça raramente tem alguma coisa interessante para se ver. Uma moça bonita, uma informação relevante, uma cena engraçada.

Hoje estou sonolento. Dormi mal, dormi tarde, dormi pouco. Trabalho como todos os dias, animação menor que a normal. Estou meio zumbi, estou com olheiras profundas, estou com a cabeça meio leve demais. As pessoas na fila hoje se incomodam também com os meus óculos escuros. Talvez me achem com pinta de maconheiro. Fila de banco é um lugar onde se concentram todas as fobias e caretices da humanidade. Mas eu fecho os olhos doídos e lembro do corpo torneado de Rosália e um sorriso tinge minha cara com a indiferença que mais incomoda a quem se irrita com minha presença. Estou feliz, para uns isto é intolerável.

Os caixas estão mais lentos hoje, muitos como eu trazem pacotes grandes, cheios de documentos para autenticar, de dinheiro para depositar, de cheques para sacar. A fila prossegue em um ritma aleatório, chamando os idosos e as gestantes, depois voltando ao atendimento normal, depois saltando par ao imponderável. Mas não vale a pena brigar por isso. Não vale a pena brigar porque não sou senhor do meu tempo.

Quase minha vez. Desligo o som de meus ouvidos e olho em torno para me situar melhor. Minha senha será a próxima, se não houver ninguém “prioritário” para ser atendido. Ao meu lado se sentou, enquanto eu divagava, uma garota que parece saída de um filme de ficção científica. Tem um rostinho bonito, mas o cabelo cor de fogo e roxo, as tatuagens, o alargador na orelha, os piercings na cara. Tudo combinado me dá náuseas. Ela me lembra o Pinhead.

Tenho paúra de cortes, agulhas e intervenções. Uma minúscula tatuagem me bastou como prova de macheza. Nunca mais sequer farei acupuntura. Não curto dor. Curto menos ainda imaginar essa moça bonita quando ela tiver seus quarenta anos.

O telefone toca. Metade da fila parece pronta para jogar as mãos ao alto. Mas é só uma mensagem de texto que me repassaram. Alguém tuitou que vai ter uma festa-surpresa no aniversário do Rachid. “Quem é esse veado do Rachid, mesmo?” Em seguia lembro o cara: uns bons seis meses sumido ele. Mas ainda estava nas minhas listas, e também na de amigos meus. Imagino que o convite já deve ter circulado para muita gente. Vai ter centenas de malucos seja lá onde for esse endereço.

Adoro essas festas mal organizadas. Geralmente a bebida é quente e ruim, o lugar é uma porcaria e a polícia aparece descendo o cassetete em todo mundo; mas sempre aparece muita gente da turma, a mesma velha turma da infância, disseminada pelo mundo e reunida graças às redes sociais. Nessas festas eu consigo quase me sentir à vontade. São pessoas que eu conheço, que me conhecem, não me olham de lado, cuidando das bolsas e relógios como se eu fosse um marginal de estilete à mão ou um cracudo precisando de grana para outra pedra.

O telefone tocou convidando para uma festa dessas e eu vou, é claro. Eu sempre vou, ainda mais que o convite vem sendo retuitado por vários amigos, até o Tõezinho. Faz quase um ano que não vejo o verme. Saudades daquele puto. Festa com ele sempre tem mais do que cerveja barata. E as amigas que ele traz são um colírio.

Chega a minha vez. O caixa, pela décima vez no mês, me relembra a lei estadual que proíbe o uso de telefones móveis em recintos bancários. Eu respondo, sorridente, que não foi nada demais, até o convido para a festa. Talvez nas horas vagas, quando não está obecendo regras e usando gravata, esse cara seja até um sangue bom. Ou é o mesmo mala, só que usando jeans.

Na saída do banco mando um torpedo para o Tõezinho perguntando mais detalhes da festa. Ele responde em cinco minutos, explicando que o endereço citado no convite original era “Fenelon Guimarães 80, Bloco C, número 11”. Nunca ouvi falar do lugar. A cidade é grande e tem tantas ruas quanto a gente tem de veias. Não sei o nome de todas, nem das primeiras nem das segundas.

Já são quase cinco da tarde quando retorno ao escritório. O chefe saiu mais cedo, isso é ótimo, ainda mais que hoje é sexta feira. Chefe é aquele cara que sai cedo quando você sai tarde, e sai tarde quando você sai cedo. Gandaia, lá vou eu. Jogo uma cantada na telefonista só para dar uma de James Bond. Ela nunca sairia com um cara como eu. Só se eu tivesse muito dinheiro. Dou um aceno para a turma e vou para o estacionamento me sentindo feliz até.

Seis e dez. Ligo o motor do velho Chevette 76 que eu comprei por 650 reais em um ferro velho. O motor funcionava bem, a lataria eu fui arrumando do jeito que dava. Ser sobrinho de mecânico tem suas vantagens: o bicho velho ronrona gostoso como uma namorada gozando na cama, e chega até a ficar bonito quando mando lavar e polir, dando-lhe um cheiro de lavanda e silicone.

Seis e quarenta e cinco. Entro na minha rua dirigindo mansamente. Aceno para dois ou três conhecidos depois de estacionar na frente de casa e entro para um banho rápido antes de sair.

Quando saio do banho a minha mãe quer que eu coma em casa. Que absurdo! Sexta feira não é dia de comer em casa. Vou para o meu quarto me aprontar enquanto ela insiste e lamenta minha indiferença. Mas hoje não é dia de curtir a barra da saia da mãe. Hoje é sexta feira e eu quero me afundar na lingerie.

Quando me vê pronto ela parece mudar de dragão a fada em um instante:

— Você está tão bonito, meu filho! Vem cá, deixa eu ajeitar esta gola que está toda enrolada.

O telefone toca enquanto ela acerta a gola da camisa:

— Fininho, me dá uma carona para a festa?

— Não dá, Paulão, já marquei com a turma da BR.

— Mas se alguém faltar e tiver uma vaga no carro, você promete que me liga?

— Prometo.

Mas só o levaria se fosse dentro do porta-malas, morto.

Tenho pena da minha mãe. Quando saio para a farra eu fico pensando na foto de casamento dela, no quanto ela era bonita antes de se casar com o meu pai, e no quanto está agora gorda e triste enquanto ele ronca deitado no sofá monopolizando a televisão, pronto para um enfarte.

A turma se encontra no posto de gasolina da BR. Digo “a turma” para dar uma boa impressão, mas somos só três. Os “mortos de fome do BNH”, como a Dolores nos chamava nos tempos de escola, a vadia.

Agora que mencionei a Dolores, gostosa, tive saudades dela. Até dos desaforos dela. Dizia que tinha pena de nós, principalmente de mim. Foi a melhor foda da minha adolescência, mesmo sabendo que a turma toda deveria ter tido experiência parecida. Me botou mal acostumado a diaba, nunca mais achei nenhuma que tivesse fogo igual. Hoje está casada com um dono de loja. Dirige um carro importado preto e, nas raras vezes que passa perto do bairro, finge que não conhece mais a gente.

Imagino que Dolores acharia engraçado nos ver bebendo cerveja barata sentados no capô de um velho Chevette, em um posto de gasolina, na margem da BR, em uma sexta feira, sete e meia, lua cheia. Gandaia, lá vou eu. Beber muito uísque paraguaio com energético e beijar garotas com cheiro de patchouli e de batom azul.

Miguel tem um GPS. Digita o endereço e minutos depois, porque o troço é barato mesmo, aparece um mapa com um percevejo verde marcando o lugar.

— Nossa, o Rachid tá morando lá onde Judas perdeu as meias!

— As botas, Miguel.

— As meias mesmo, as botas foi aqui nesse buraco em que a gente vive.

À noite nem parecia, as luzes das casas coalhavam o chão como se houvessem posto um espelho virado para as estrelas, mas eu olhava a pureza daquelas luzes e me lembrava da feiúra das fachadas sem pintura e das estruturas improvisadas. Morávamos num fim de mundo, mesmo, à margem de uma BR, mas não tínhamos nem ônibus de hora em hora para o centro. Somos perdedores, esquecidos. Querem esquecer-nos. A cidade não quer que a gente vá lá mais que o necessário.

— Pode ser longe aonde for, mas a gente vai nessa porra de festa!

— Falando nisso, Miguel, quem é esse tal de Rachid? E que raio de festa ele arrumou?

— Foi um colega do curso de contabilidade. Morava longe mesmo, do outro lado da cidade. Filho de libaneses, ou turcos, ou sírios, ou alguma coisa assim. O que me importava é que ele era “o cara” das festas. Fui a três que ele organizou. Não tinha erro.

— Nenhum problema?

— O cara é sossegado. Família simples. Sem preconceitos. E com que facilidade arruma mulher. Para ele e para quem for amigo dele também. Podem crer em mim: não tem furo. Hoje é aniversário dele, essa festa vai ser massa! Festa do Rachid eu vou até se for no inferno.

— Assim é que se fala, camarada, segura a capetinha pelos chifres para ela te chupar gostoso!

— Aquela boquinha quente!

— Parem com isso, seus putos — protestou o Danilo, que tinha ficado quieto até então, só ouvindo as merdas que a gente dizia.

Ninguém passando pelo asfalto a cento e vinte por hora teria entendido a gargalhada dos três idiotas montados no Chevette marrom.

Saímos do posto cerca das oito e vinte da noite. Deixei o Danilo dirigir porque ele não tinha bebido quase nada.

— Aonde exatamente é esse raio de lugar da festa? — Longe pacas, Danilo, eu só vou porque o Tõezinho confirmou e o Fininho jura que o tal Rachid é sangue bom.

— Tem gasolina nesse gambá aqui? — preocupou-se o Danilo.

— Tem sim, claro. Olha aí!

— Parou de funcionar de novo o seu marcador de gasolina. Por que você não vende essa merda de carro, Fininho?

— E compro o que com o dinheiro? Uma mobilete?

Rimos tristemente. Somos uns perdedores mesmo. Com menos de mil reais eu comprei um Chevette velho, que é o único carro que eu posso ter.

Já são mais de nove e meia da noite. Ainda estamos a caminho e eu começo a ficar preocupado. A festa parece cada vez mais distante. O centro da cidade já ficou para trás há uns bons trinta minutos. Já atravessamos de um lado a outro e ainda não encontramos a rua do percevejo verde. Se o odômetro funcionasse eu saberia o quanto rodamos.

Estamos em um bairro decadente. As ruas são mal iluminadas e vazias. Não tem nem birosca aberta. É um bairro industrial, dá para ver pelos imensos edifícios em formato de caixote, alguns com chaminés do século passado. Eu nunca tinha vindo a essa parte da cidade, parece um filme americano de terror, daqueles com gangues de psicopatas sobre motos, matando os rivais arrastando pela rua. Vi um filme assim quando era bem molequinho.

Direita, esquerda, esquerda, direita e esquerda. De esquina e esquina vamos nos perdendo mais até que, de repente, encontramos uma placa indicativa. Estamos na esquina da Fenelon Guimarães com a Juvêncio Estrada. Duas ruas estreitas e perdidas, onde parece que não mora nem alma penada. Não tem ninguém na rua.

— Caralho, Fininho. Te passaram um trote dessa vez. Não tem nenhuma merda de festa rolando por aqui.

— Deve ser num desses galpões aí. Tipo, dessa vez resolveram fazer organizado. Puseram isolamento acústico para não chamar a atenção e fizeram num lugar sem vizinho chato para chamar a polícia.

— Eu acho que a gente devia voltar — disse o Miguel.

— Tudo bem, a gente volta. Mas primeiro vamos descer e procurar o número oitenta e ver o que tem lá. Depois a gente vai até para a puta que pariu se for preciso. Mas não dá para gastar essa gasolina toda e ir embora sem nem saber o que está acontecendo.

Concordamos e vamos procurando o número 80. O Chevette vai devagarinho, como um gato se esgueirando pelo muro. Achar vai ser tarefa difícil porque não tem ninguém na rua e nem os prédios tem número. Somente um imenso portão de ferro se destaca. Não sei porque razão eu imaginei que ali poderia ser o lugar. Estranha premonição. Era lá. Lá era um cemitério.

Meus amigos desgraçam a rir enquanto eu quase me cagava de medo.

— Fininho, acho que você devia entrar, deve ter uma capetinha aí dentro pronta para te chupar! — zombou o Miguel.

— Não se brinca com uma coisa dessas — disse o Danilo, já beijando o crucifixo de prata, presente da avó siciliana.

— Deixa de ser medroso, Danilo. Vamos entrar.

— Entrar!? ’cê pirou, Fininho?

— Uai, e por que não?

— Por que sim, você quis dizer! Para que, diabo, a gente vai entrar no cemitério hoje, logo na quaresma, Miguel. Não tem nenhuma porra de festa por aqui, nem num raio de vinte quilômetros. Vambora embora pegar um cinema que ainda dá para pegar uma sessão de meia noite.

Mas eu não me conformo de ter sido passado para trás. Pego o telefone e envio de volta um SMS furibundo: “o inútil que me convidou aqui hoje, vai aparecer ou não é macho bastante para isso?

Tenho vontade de jogar longe o telefone. Pena que ainda o estou pagando. Pena que preciso e gosto dessa merdinha difícil. Tenho mais amigos nele do que na vida real, e se tivesse comido metade das mulheres que se dizem minhas fãs eu me sentiria um artista. Não vou jogar fora o telefone, queria era sentar a mão na cara do veado que me sacaneou.

Outra mensagem de texto: “Entrem, é surpresa.”

— E então, gente? Será algum tipo de festa no cemitério, aquela coisa dos góticos?

— Cara, eu queria um simples pagode honesto, conhecer umas morenas, ficar com uma gata descomplicada. Esse negócio de festa de gótico no cemitério não é a minha praia — lamentou o Miguel.

— Eu não entro aí nem que me paguem.

— Tá bem, Danilo. Fica tomando conta do carro que eu vou entrar. Até fiquei curioso com esse negócio de festa gótica. Não sou grande fã de rock, não. Mas acho que vou experimentar uma dessas branquelas maquiadas. Já disse que confio no Rachid.

— ’Cê tá louco, Fininho?

— Louco nada, vai ser divertido. Vão me deixar entrar sozinho, seus cagões?

— ’Tá bem, melhor a gente ficar junto. Essa rua deserta já está me dando medo.

— Deixa de ser supersticioso, Danilo.

— Não, não é medo dos mortos, não. É dos vivos que podem estar escondidos pelas sombras.

O portão do cemitério está apenas encostado. Alguém antes se deu ao trabalho de arrombá-lo para nós. Certamente algum ladrão de túmulos, se não foi a “organização” da festa.

Logo na primeira alameda eu começo a sentir os pêlos da nunca arrepiando. Um vento curiosamente frio sopra no lugar. Olho para um lado e outro e, de repente, tem uma luz vagando dentro do cemitério. Danilo a vê, logo depois e berra:

— Corre, diabo!

Giramos nos calcanhares para correr, mas a misteriosa luz atravessou entre nós e o portão, obrigando-nos a recuar.

— Misericórdia! Quem está aí?

— Ah, são vocês!? — saudou uma voz trêmula e conhecida.

— Tõezinho, seu veado! Quase nos matou de medo.

A luz veio correndo em nossa direção e parou ofegante. Tõezinho estava descabelado como quem saiu de uma briga. A roupa toda manchada de poeira e algum sangue.

— Merda! ’Cê tá machucado! O que aconteceu?

— Caí dentro de uma cova aberta enquanto andava por aí.

— Sorte sua não se machucar mais.

— Sorte minha teria sido nem aparecer!

— A festa, afinal… é aqui?

— Não tem festa nenhuma, Fininho.

— Mas hoje é aniversário do Rachid, ele me mandou um tuíte convidando que era aqui. Você replicou, mais de quarenta amigos meus replicaram.

— Cara, vê se me entende. Mortos não dão unfollow.

O vento ficou subitamente mais frio. As nuvens que cobriam a lua cheia se abriram e nos permitiram ver uma boa parte do cemitério. Estávamos na parte alta, o cemitério dos ricos, que fica logo na entrada. Abaixo, à direita, uma vasta planície gramada, salpicada de brilhos diversos, marcava o depósito dos pobres.

— Como assim, Tõezinho?

— Cara, não me peça para explicar. Bloco C, número 11. Cara, porra! É a cova do Rachid.

Meu telefone vibrou com outra mensagem. Nem quis ler. Então um rosnado rouco se ouviu muito perto, acompanhado de um brilho difuso e azulado. O rosnado se repetiu, mas não sei se aconteceu pela terceira vez.

— Corre, diabo! — gritou Danilo de novo.

E antes de qualquer terceiro ruído nós quatro tínhamos ultrapassado o portão em uma corrida que até ganharia índice olímpico. Não sei de onde tiramos tanta força. Talvez tenha sido algo no tom de voz do Danilo, algo que sugeriu que não era só frescura dele. Nem sei como entramos no carro. Lembro-me vagamente de um vidro quebrando e tenho uns arranhões na barriga. A cabeça me dói muito, mas dói mais ainda a minha dignidade, por ter fugido tão fácil da presença do desconhecido. O Paulão, que diz não acreditar nessas coisas, jura que ouvimos śo o telefone do Tõezinho tocando, ele o tinha perdido, o lesado.

Sei que saímos da rua Fenelon Guimarães cuspindo fagulha pelo escapamento, que assobiava como um apito de Satanás. Se alguém morava naquee bairro, deve ter acordado. Nisso incluo até os moradores do 80.

A história correu depressa pelo bairro. Muita gente vem me perguntar. Mas eu não respondo nada sobre o que aconteceu, como quebrei o vidro ou cortei a testa. As pessoas não vão acreditar. Aliás, nem eu acredito se eu contar para mim mesmo.

Pode ter sido só mesmo o telefone do Tõezinho. Se bem que mesmo isso teria sido terrível: no meu, a mensagem que não li veio do Rachid.

O turquinho morreu mesmo. Faz uns quatro meses. Confirmei com a família. Não deram detalhes, sinal de que não foi coisa respeitável. Dizem que foi num pega, que foi numa overdose, que foi um tiro.

Eu só sei que ele me mandou várias mensagens naquela sexta, convidando para sua festa de aniversário, dando orientações, cobrando presença. Ele me mandou, ou roubaram sua senha para me sacanear, ou ele tinha agendado as mensagens antes de morrer. Mas os mortos não dão unfollow, não apagam seus perfis. Ficam vagando no limbo da internet, assombrando as redes sociais. E às vezes convidando para suas festas.

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