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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 31 de julho de 2021

Agora que a Máscara Caiu

Publicado em: 05/12/2013

Terminado o concurso de novembro da “Entre Contos”, a identidade secreta do autor de “Gelo Negro” foi revelada, e agora estamos prontos para algumas reflexões que se fazem necessárias. A esta altura muitos dos leitores já deverão ter percebido algo de estranho neste conto — os comentários indicam que alguns deles acertaram o alvo. Acho que cabe, agora, prestar alguns esclarecimentos, se bem que não acredito que serão lidos.

Este texto é uma sátira

“Gelo Negro” foi concebido como uma tese para demonstrar a certo tipo de jovem escritor os inconvenientes e equívocos de se recair demais no estrangeirismo e outros vícios. Basicamente, esta demonstração focou em seis problemas que são muito recorrentes nos textos de alguns jovens autores:

  1. Obsessão com a ambientação nos EUA e Grã Bretanha.
  2. Uso de palavras estrangeiras dispensáveis para dar um ar “chic” ao texto.
  3. Falta de uma ambientação convincente, por não se fazer pesquisa.
  4. Uso de elementos culturais característicos da cultura anglo-americana sem contextualizar.
  5. Predomínio de referências visuais (cinema, videoclipes) ou sonoras (letras de música) em vez de literárias.
  6. Tentativa de se criar um “estilo” mais focado em diálogos e em ação para disfarças a falta de informação real sobre a ambientação escolhida (já que o autor nunca foi ao States e não se deu ao trabalho de fazer uma boa pesquisa).

Para conseguir incorporar intencionalmente estes elementos, o texto foi escrito para ser e parecer descartável, para ofender intelectualmente quem o leia.

Ah, antes que eu esqueça: não me chamo Sigurður Sigurðsson — embora facilmente se encontre alguém assim chamado lá na Islândia.

Este texto foi feito totalmente “nas coxas”

Um elogio sem reservas a este texto revelaria falta de noção de qualidade literária, passaria recibo de que o leitor é superficial e se contenta com textos superficiais. Afinal, este texto foi baseado na leitura de quatro ou cinco artigos da Wikipédia, dez ou doze traduções do Google Translator e alguma pouca referência visual via Google Images. Se você achou convincente um texto feito com uma pesquisa tão rasa, então você não tem condição de entender porque é errado você achar que com uma pesquisa pouco melhor você conseguirá produzir uma obra de qualidade. Você continuará teimando que é possível escrever um bom livro ambientado nos EUA (ou num Nordeste genérico ou em Nárnia) tendo como referência somente o que viu nos filmes.

Colonização cultural não é exotismo

Quando um autor resolve ambientar sua história em uma cultura diferente da sua, normalmente temos o chamado “exotismo” (do grego, “olhar de fora”). O exotismo se diferencia da fantasia por procurar uma ambientação real, mesmo que interpretada pelos olhos do autor de uma forma peculiar, da ficção científica, por estar baseado no presente (ou em um tempo próximo, passado ou presente, mas recente) e da ficção histórica, por buscar uma cultura contemporânea ao autor, em vez de uma ambientação no passado.

Os exemplos de exotismo na arte universal são abundantes: “Carmem” (Georges Bizet), “O Mandarim” (Eça de Queirós), “Adeus às Armas” (Ernest Hemingway), “Coração das Trevas” (Joseph Conrad), “Kim” (Rudyard Kipling), “O Verde Violentou o Muro” (Ignácio de Loyola Brandão), Madame Butterfly (Gioachino Rossini). Grosso modo existem dois tipos de autor exótico: o que admira um país estrangeiro e o que vive ou nasceu em outro país. Os do segundo tipo costumam produzir obras de qualidade literária muito superior pela “verdade” que conseguem dar ao texto.

Mas o exotismo se baseia numa admiração intelectual genuína do autor pelo país estrangeiro, é uma relação dialética. Bizet amava a Espanha, Eça tinha fascinação pela China, Hemingway viveu na Espanha durante a Guerra Civil, Joseph Conrad foi marinheiro e mercenário na África, Rudyard Kipling nasceu na Índia e lá viveu até o fim da adolescência, Loyola Brandão esteve exilado voluntariamente em Berlim e Rossini experimentou a vaga de admiração pelo Japão que se seguiu à abertura daquele fascinante país ao Ocidente. A relação do autor com o país onde ambienta seu exotismo não é imposta, mas afetiva.

Isto é o que o exotismo é: uma relação de troca cultural benéfica a ambas as partes. Nem a França e nem a Espanha se apequenaram com a ópera Carmem, por exemplo. Mas não podemos usar o termo exotismo quando o autor imita servilmente uma cultura estrangeira, pois esta é uma relação unívoca. Não existe troca: existe a imposição de uma identidade sobre a outra, com a substituição de um caráter nacional pela idealização de outro. O autor de uma obra exótica se reveste temporariamente das influências estrangeiras para criar, mas depois passa a outras formas e estilos. Nenhum dos autores citados se limitou a falar de Espanha, China, Congo, Índia, Alemanha ou Japão. Quem duvida, que leia as obras de Eça imediatamente anteriores e posteriores a “O Mandarim”, ou os romances de Loyola Brandão ambientados na São Paulo dos anos 80 (“Bebel que a Cidade Comeu”) ou até no futuro (“Não Verás País Nenhum”).

Mas existem certos jovens que escrevem histórias ambientadas nos Estados Unidos porque foram condicionados a achar que aquele país é um lugar “natural” para se ambientar as “boas histórias”. Eles não se identificaram genuinamente com certo aspecto de sua cultura, mas simplesmente não chegaram a entender o valor de sua própria cultura, e permitem que a cultura imposta pelo cinema e pela televisão ocupe o lugar de sua própria identidade. Este processo é tão profundo que alguns chegando a dizer que não criam personagens com nomes brasileiros porque esses nomes “não soam bem”. Já fui aconselhado (até por donos de editoras) a adotar um pseudônimo mais fácil de ler e pronunciar pelos ianques.

Este texto subverte este servilismo ambientando a história na Islândia, para dar uma sacudida no leitor e fazê-lo ver que ambientar a ação em outro país nunca é algo que pode ser visto como “natural”. Quem não conheça o país em questão poderá se sentir alienado da história, então é preciso ter isso em conta. A informação a que estamos “acostumados” através do cinema e da televisão é unilateral e restritiva: elas nos ensina sobre um país apenas, e sob outros países através dos olhos com que os americanos os enxergam. A verdade choca porque é diferente do que está no cinema.

Ok, baby. Let’s go daqui, que tem um pub very good em Edinburgh.

Inserir palavras estrangeiras em um texto não demonstra cultura. Pessoas cultas são capazes de fazer o chamado “code-switching” (ó incoerência minha usar tal barbarismo!), que é a mudança de fluxo de pensamento de uma língua para outra. Pessoas inteligentes “desligam” o inglês quando vão falar em português, ou vice-versa. Até eu, que estou longe de ser inteligente, percebo que é mais fácil pronunciar corretamente vocábulos espanhóis quando estou falando em espanhol, mas quando os insiro numa frase em português queda complicado expressar una zeta interdental o una d blanda. Marretar uma palavra estrangeira num fluxo fonético vernáculo é algo que raramente soa bem, e as pessoas que fazem isso geralmente soam cafonas e convencidas, não sofisticadas.

Isso fica ainda mais ridículo quando você está transcrevendo diálogos de personagens estrangeiros. Supostamente os diálogos de Dostoiévski estavam todos em russo e foram traduzidos. Faz sentido manter algumas palavras intraduzíveis, como versta (uma unidade de medida eslava para distâncias), dacha (um tipo de chácara peculiar à Rússia) ou stáriets (membro de um tipo de ordem religiosa que só existe no sul da Rússia). Mas fica pedante e idiota salpicar o texto com termos do tipo továrich (amigo), nyet (não) ou dobroye útro (boa noite). Entretanto, é exatamente isso que tanto fazem certos jovens autores, que adoram mencionar que seus personagens bebem whisky num pub do East End. Já seria tosco manter isso numa tradução, mas fica simplesmente imbecil quando é um brasileiro escrevendo sobre a Inglaterra.

Mas as pessoas, às vezes, não entendem quando a gente explica. Então você pega, numa história ambientada na Islândia, e salpica o texto com palavras ou frases em islandês, que o leitor não entenderá bulhufas. Talvez assim ele entenda onde está o erro de manter tantos termos anglo-saxões na história.

E antes que me digam que “todo mundo sabe inglês, ou devia saber, mas ninguém sabe islandês”, gostaria de lembrar que a maioria não sabe nem português direito — e isto inclui uma parte significativa dos autores que escrevem esse tipo de texto fascinado por brancas bundas ianques, e que não sabem empregar o pretérito mais-que-perfeito ou fazer concordância verbo-nominal.

Boston, Botucatu ou Baggend — Tudo é igual se não é especial

E antes que você se defenda dizendo que escreve suas histórias ambientando no interior da Paraíba, na Zona da Mata Mineira ou na Serra Gaúcha, você cometerá o mesmo tipo de erro se não tiver ligações fortes com o seu cenário. Na hora de escrever, se for para desenvolver uma impostura sobre uma cultura diferente, não muda muita coisa entre os franco-canadenses e os bororos. Podem ser muito diferentes, mas em relação a você que escreve, o que importa é se você vai oferecer algo à história por meio deles, ou se a nacionalidade é apenas um rótulo que usa para diferenciar uns dos outros os seus personagens todos iguais.

O mesmo vale para lugares. Ou os lugares acrescentam algo de interessante à história, ou então são só riscos de giz no chão para te lembrar onde pôr o pé na hora de brincar de amarelinha. Fronteiras devem possuir significado, culturas devem ter profundidade. E se você não consegue aumentar o peso de sua história ambientando-a na União Soviética dos anos 40, melhor escrever sobre as coisas que você viveu, lugares que conhece, histórias que pessoas de verdade te contaram. Lugares são como personagens: precisam ter vida. E não se dá vida a um lugar pesquisando sobre ele na internet.

Eu ambiento minhas histórias em Minas Gerais porque vivo aqui. Nunca sonharia em escrever sobre a Amazônia porque não tenho experiência de lá. Seria artificial, seria “livresco”.

O óbvio não é óbvio

Algumas pessoas se incomodaram pela repetição dos nomes dos personagens. Quem conhece superficialmente a cultura islandesa (vinte ou trinta pessoas no Brasil) percebeu a importância desses nomes: Jon Bryndisar tem os cabelos negros e leva um matronímico (-ar) em vez de um patronímico (-son ou -dottir), isso explica porque o nosso narrador achou que ele era filho de uma prostituta do porto. Oláfur Haraldsson era filho do Haraldur Guðmundsson, o velho morto à janela … o que tornou o seu crime um parricídio. Tudo isto é muito óbvio para quem sabe algo da Islândia, mas é invisível para os demais.

Então, por que um autor brasileiro encheria sua história de referências obscuras a aspectos de uma cultura estrangeira? Exercício de erudição? Quantas ruas de Bangor, Maine, o Stephen King, que nasceu e sempre viveu lá, se dá ao trabalho de nomear, descrever e medir?

Para muitos desses autores, especialmente os que estiveram no exterior, a abundância e exatidão destas referências são uma maneira de exibir que têm conhecimento real do lugar. Mas isto é só uma casca, pois os lugares não são personagens, são apenas glacê sobre o bolo comum de uma história simples. Se esses autores tivessem lido “O Beijo Não Vem da Boca”, de Loyola Brandão, veriam como é simples usar referências culturais estrangeiras para apresentar o olhar exótico sobre um outro país. Acompanhar o protagonista em sua visita aos prostíbulos de Berlim, sentir com ele sua dificuldade de manter a naturalidade diante da nudez em público nos parques no verão, padecer com ele a atmosfera opressiva de uma cidade sitiada por um perigo muito real (mísseis e não orcs)… Mas ele não nos massacra com informações inúteis. A informação aparece à medida em que se insere na história, e isso é ótimo.

Mas ali nada é óbvio, e isto é prontamente entendido pelo leitor. Porque o autor, em vez de fingir que é alemão, se mostra como o que é: um exilado brasileiro em Berlim, vendo a Alemanha de fora com olhos tropicais e mestiços. Isto estabelece uma fácil empatia com o leitor, e faz o calhamaço de 400 páginas ser lido com prazer em poucos dias. E somente um brasileiro sacana apelidaria a Kunfursterdam (avenida de Berlim) de “Ku-dam” ou descreveria os piercings genitais de uma stripper no peep show.

Não li sobre isso, mas vi os filmes

Muito papel já se gastou sobre o escritor que não lê. Posso falar mal desse idiota à vontade, porque ele não chegou até aqui. Se voce chegou, então, leitor, não se ofenda: esse cara não é você.

A internet mudou nosso modo de pensar, nos fez ter uma mente imediatista. Somos incapazes da experiência duradoura da leitura. Além do mais, somos exigentes demais com o texto. A maioria desiste ao primeiro percalço. Há tanto para ler, por que insistir com esse livro que demora cinco páginas descrevendo um engarrafamento em São Paulo? (“Não Verás País Nenhum”) Por que aguentar dezenas de páginas de papo de marinheiro? (“Coração das Trevas”)

Então os nossos autores jovens não têm referências literárias, eles veem filmes e leem revistas, assistem videoclipes e conversam. Não é de espantar que a nova literatura esteja cheia de obras que se inspiram em uma estética visual (cyberpunk, steampunk, gótico, noir, mangá).

Narrar é chato, deixa o personagem falar

O narrador é um ser amado e odiado ao mesmo tempo. Tão incômoda é a artificialidade de sua posição que ele precisa ser subvertido, daí surgem os narradores em primeira pessoa, os narradores em terceira pessoa não oniscientes, os narradores em segunda pessoa, os narradores observadores, os narradores-personagem e os personagens-narradores. Mas o narrador manterá sempre um problema: ele é uma voz estranha à dinâmica da história, permitindo a dicotomia entre a ação e o autor.

Mas a estética visual em que se baseia a juventude de hoje não valoriza esse discurso. O narrador é apenas algo que atrapalha. Narrar é atrapalhar. Eles querem ver ao vivo. Quanto mais o livro ficar parecido com um filme, mais interessante. Por isso é preciso reduzir o narrador e permitir que os personagens falem.

Essa maneira de narrar tem uma vantagem: permite a ótima desculpa da “agilidade” narrativa para esconder a falta de referência (e de conhecimentos) de que padece o autor, que não leu nem sabe quase nada daquilo que quer narrar. Então deixe o personagem falar, já que o narrador não tem nada a dizer. E culpe sempre a percepção limitada do personagem sobre a realidade. Afinal, personagem existe é para levar a culpa mesmo.

Não vim para ofender, mas para esclarecer

Eu mesmo não era esclarecido, “but I came aware this year” (Tommy — The Who). Quero ver mais gente escrevendo bem, e menos gente sendo colonizada culturalmente sem perceber. Engolir sem mastigar não é antropofagia cultural, é sexo oral “deep throat” no pau dos gringos.

Também não fiz isso pensando que fosse enganar a todos: afinal, eu reutilizei um texto que fora publicado em 2009, na antiga comunidade “Novos Escritores do Brasil”, do Orkut. Muita gente se lembraria… Além desta, deixei várias outras pistas de minha identidade. Parabéns a quem adivinhou.

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