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by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

Resenha: Vulthoom e o Ciclo Marciano de Clark Ashton-Smith (Sem Spoilers)

Publicado em: 08/01/2014

Clark Ashton-Smith foi um poeta e autor de ficção fantástica americano, amigo e correspondente de H. P. Lovecraft e de uma penca de outros autores famosos. Apesar de seu inegável talento, passou a maior parte de sua vida na pequena cidade de Auburn, fazendo trabalhos braçais para sobreviver. Morreu em 1961, sem filhos.

Sobre sua obra, já escrevi dois artigos (1 e 2) que seria bom ler antes deste.

Vulthoom pertence ao curto ciclo das histórias que Ashton-Smith ambientou em um Marte fantástico que deve muito à concepção de Edgar Rice Burroughs (encontrado nos seus romances do ciclo de John Carter). Mas as semelhanças ficam na superfície: o Marte de Ashton-Smith não é como o Barsoom de Burroughs, é muito mais sinistro.

Tal como Burroughs, e como a maioria dos escritores de ficção científica do início do século XX, Ashton-Smith concebe um planeta moribundo, com civilizações antiquíssimas e decadentes, que enfrentam com certo estoicismo a lenta exaustão dos recursos naturais do planeta. A principal semelhança entre os dois autores, porém, está no estágio relativamente atrasado da civilização marciana, engessada em uma fase pré-capitalista e dominada por regimes despóticos de estilo oriental. Neste cenário, ainda mais considerando que Ashton-Smith ambienta suas histórias em um futuro não muito próximo, a supremacia tecnológica terrestre é aparente.

O cenário marciano recebe de Ashton-Smith um nível de cuidado muito maior do que qualquer outro de seus cenários. O autor se dá ao trabalho de conceber toda uma cultura para os habitantes do planeta (ou, pelo menos, para os habitantes de sua maior nação, Ignarh). Esta cultura inclui hábitos de vestimenta, sinais de situação social, uma religião (baseada na adoração do sol), mitos (entre os quais o de Vulthoom, o demônio), estilos de construção (imaginados levando em conta que uma gravidade bem menor que a terrestre permitira vãos-livres maiores nas pontes e abóbodas) e um idioma do qual conhecemos diversas palavras, entre as quais a mais citada é “Aihai”, que é o nome pelo qual os marcianos chamam seu planeta e a si mesmos, e que passou a ser usado pelos terrestres também como adjetivo para tudo que seja marciano (“religião aihai”, por exemplo).

Infelizmente Clark Ashton-Smith somente escreveu três histórias ambientadas em Aihai: O Habitante do Abismo (“The Dweller in the Gulf”), As Criptas de Yoh-Vombis (“The Vaults of Yoh-Vombis”) e Vulthoom. Das três, Vulthoom é a mais desenvolvida e a de melhor qualidade (embora Yoh-Vombis seja quase tão boa). Em todas estas histórias os terráqueos, orgulhosos de sua aparente superioridade tecnológica e confiantes de que estão se movendo por entre as ruínas veneráveis de uma civilização que está em vias de desaparecer, cedendo-lhes a primazia do sistema solar, acabam por se meter em situações terríveis. Na primeira delas os terráqueos, desconsiderando como meramente supersticioso o medo que os Aihai têm de certas cavernas profundas, acabam por encontrar criaturas repulsivas que eles certamente não gostariam de ter encontrado. Na segunda, mais uma vez se recusando a seguir os conselhos de seus guias Aihai, eles contraem um parasita que ameaça todas as vidas humanas em Marte. Por fim, na terceira, ao agirem com excesso de confiança, os protagonistas colocam em perigo a própria sobrevivência da humanidade.

Desta forma, podemos entender o ciclo marciano de Ashton-Smith como um comentário sobre o conflito entre dois modelos de civilização opostos: um deles baseado na antiguidade, na religião e na servidão; e o outro baseado na inovação, no secularismo e na democracia. Neste conflito é evidente que o modelo antigo é o mais frágil, apesar de ter sido o mais duradouro, mas o modelo novo tem sua sobrevivência ameaçada por sua incapacidade de aprender com os erros do modelo antigo. Ao colocar em dois planetas diferentes os seus modelos de civilização, Ashton-Smith exacerba a “guerra fria” entre o antigo e o novo, criando uma situação na qual o diálogo entre os povos é impossível:

Mais agudamente do que durante o dia, eles perceberam as respirações contidas e os movimentos tortuosos e discretos de uma vida sempre inescrutável pelos filhos de outros planetas. A imensidade entre a Terra e Marte fora atravessada, mas quem poderia cruzar o abismo evolucionário entre o terráqueo e o marciano? O povo era bastante amigável a seu modo taciturno. Haviam tolerado a intromissão dos terráqueos e permitido o comércio entre os mundos. Suas línguas estavam decifradas e sua história era estudada por sábios terrestres. Mas parecia que não poderia haver nenhum intercâmbio real de ideias. Sua civilização envelhecera complexamente diversa desde antes do afundamento da Lemúria; suas ciências, artes e religiões eram encanecidas por uma idade inconcebível e até o mais simples dos costumes era o fruto de forças e condições alienígenas.

Será que não podemos dizer o mesmo em relação à nossa própria história? Será que somos capazes de ouvir o que os milênios passados têm a nos dizer? Ou estamos condenados a repetir eternamente os mesmos erros, padecer dos mesmos sofrimentos?

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