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by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

O Terceiro Episódio de Vathek, a Fanfic de Ashton-Smith

Publicado em: 17/01/2014

Foi através da mera citação deste título intrigante que eu fiquei sabendo da existência de Clark Ashton-Smith e de sua relação com H. P. Lovecraft. Na época eu estava lendo vorazmente todos os textos do cânone lovecraftiano e a sua relação com Ashton-Smith me chamou a atenção. Infelizmente, porém, por ser um texto longo e de linguagem rebuscada, demorei muito a empreender sua leitura. Quando terminei, passei dias estupefacto.

Capa de uma antiga edição inglesa da obra de W. Beckford

Uma sexualidade mórbida que transpira das páginas de Ashton-Smith (diferente do ascetismo lovecraftiano). Este texto é um dos que mais contribuem para esta impressão: uma história de terror sufocante envolvendo personagens absolutamente adoráveis (não há de fato nenhum “mocinho” e nenhum “vilão” nesta história) que cometem atos horríveis ou se metem em situações “inomináveis”. Incesto, violência, religião (islâmica, no caso), feitiçaria; elementos que completam um universo “oriental” construído a base de leituras de enciclopédia e das Mil e Uma Noites.

Mas mesmo depois de lida a história, ainda tardou para que as minhas dúvidas fossem esclarecidas por completo: quem é Vathek? onde estão o primeiro e o segundo episódios? existe um quarto episódio? A única coisa que consegui entender foi a razão pela qual Lovecraft elogiou tanto a obra original de Beckford.

Vathek, o Romance

Vathek é um romance de autoria do inglês William Beckford, publicado em 1786 (ou 1787), escrito originalmente em francês (mas com uma tradução em inglês publicada antes do original). O nome é uma germanização (bastante bastarda) do árabe Fatiq (atestado desde, pelo menos, o século XI) — e o leitor deverá se acostumar com esta obscenidade, visto que não havia, na época, uma notação fonética convencional para a transcrição de nomes árabes.

O romance é uma obra inclassificável de fantasia orientalizante, com forte inspiração nas Mil e Uma Noites e abundante em referências literárias, sátira de costumes e um humor às vezes até grosseiro. O apelo exótico garantiu à esta obra uma longa influência sobre a ficção fantástica ocidental.

Os Episódios de Vathek

A obra original e famosa de Beckford se chamava pura e simplesmente “Vathek”, sem subtítulos. Em 1909, cerca de 65 anos após a morte de Beckford, foram descobertos os manuscritos de outras histórias curtas, os “episódios de Vathek”, que contavam histórias ligeiramente relacionadas, segundo o ponto de vista dos infelizes coadjuvantes da história original (esta narrada em terceira pessoa por um narrador-onisciente-interveniente). Os Episódios são:

  1. A História do Príncipe Alasi e da Princesa Firouzkah
  2. A História do Príncipe Barkiarokh
  3. A História da Princesa Zulkaïs e do Príncipe Kalilah

Destes, os dois primeiros se encontram completos e revisados, mas o terceiro somente existe como um mero rascunho, com várias lacunas e interrompido em meio à ação.

A Intervenção de Ashton-Smith

Como todo leitor compulsivo que se torna fã de uma obra, Ashton-Smith se sentiu extremamente frustrado ao perceber que o terceiro episódio de Vathek nunca fora terminado por seu autor. Diferente da maioria dos leitores, porém, e ajudado pelo fato de o original já estar em domínio público, Ashton-Smith pôde levar a efeito o sonho de muito jovem autor: terminar a obra inacabada de seu autor favorito.

Ashton-Smith se prestou excepcionalmente para isto. Fortemente influenciado pelo próprio Beckford, mas beneficiado por um amplo conhecimento da literatura fantástica e exótica, Smith desenvolvera um estilo irônico e sinestésico que, se não é semelhante ao de Beckford, casa-se bem com o seu. Além disso, a imaginação exagerada e sensível de Ashton-Smith, abastecida pelas informações extraídas da leitura da obra restante de Beckford, permitiu-lhe desenvolver a história de uma forma muito próxima ao que o próprio autor teria feito, embora ele provavelmente o fizesse com um estilo diferente.

Autoria

Esta obra tem, de fato, uma autoria compartilhada. Os primeiros parágrafos são integralmente de Beckford, mas a mão de Ashton-Smith vai se manifestando gradualmente em acréscimos e deleções cada vez menos sutis até que, lá pelos dois terços, Beckford já não existe e a história flui completamente pelas mãos de Clark Ashton-Smith.

No geral, são de Beckford cerca de dois terços das 19001 palavras utilizadas (em inglês) para narrar a história e a contribuição de Ashton-Smith, além de pequenas correções (de um original que era um rascunho), inclui apenas o desfecho da história, narrado de acordo com as informações fornecidas pelo romance Vathek e pelos dois primeiros episódios. Não é justo, portanto, considerar esta obra como outra coisa que não “fanfic”, pois é exatamente o tipo de coisa que eu faria se tentasse terminar um dos contos inacabados de Kafka ou se quisesse expandir em forma de novela o argumento de um conto do Eça de Queirós. A fidelidade ao estilo e ao conteúdo do original evidenciam a homenagem que Smith buscou render a Beckford e, por tal razão, acho justo considerar-se uma coautoria:

Se você é um completista absoluto e não quer ler o terceiro episódio antes de conhecer a sequência dos fatos e mitos:

  1. Vathek, de William Beckford
    Ebooks do Projeto Gutenberg. HTML.
  2. Os Episódios de Vathek, de William Beckford.
    Ebook do Archive.org.
  3. O Terceiro Episódio de Vathek
    a História da Princesa Zulkaïss e do Príncipe Kalilah, de William Thomas Beckford e Clark Ashton-Smith. Versão em HTML do Projeto Eldritch Dark.
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