Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

A Persistência

Publicado em: 18/04/2014

Minhas lista de links chamou-me a atenção hoje pela coincidência de quase todos os membros dela, exceto o infatigável Sérgio Ferrari, do blog “Astro Miau”, estarem encerrando as atividades. Félix Maraganha já havia abandonado a literatura há cerca de um ano, em um episódio triste, que incluiu jogar no lixo todos os seus originais inéditos e os exemplares de suas obras publicadas. Episódio de que não restou registro porque agora o seu “Calango Abstrato” é um blogue privado. Felipe Holloway não atualiza o “Estou numa ilha deserta” há mais de um ano. Idem para Ronaldo Brito Roque e suas “Estórias Pacatas”. Por sua vez, Bia Machado está a encerrar as atividades do seu blogue de leitura “Paraíso de Borges”.

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Esta coincidência me coloca como um persistente, um sobrevivente dos tempos do Orkut. Entre os mortos, como o JRP, os aposentados, como o Sinki, e os demais desaparecidos ou desinteressados (aí incluídos autores interessantes como o Joks Lobo, a Larissa Redeker, a Ilka Canavarro e a Marjory Tolentino), eu estou ficando sozinho. Da minha turma, isto é, das pessoas que tinham algum contato e amizade comigo nos tempos literários do Orkut, estão sobrando cada vez menos pessoas. Os que sobram são as pessoas com quem eu não tinha muito contato na época, como o Rubem Cabral, o Gustavo Araújo e outros, ou até pessoas com quem tinha rivalidade. “Minha turma” já não existe. Fica uma sensação meio Cazuza na gente. Mas não foi de overdose que morreram os meus heróis.

Hoje eu acredito que a ampla maioria das pessoas que leem este blogue sequer sabem que eu fui, um dia, co-proprietário (ou co-tirano, como alguns preferem) de uma comunidade no Orkut chamada “Novos Escritores do Brasil”, quase ninguém lembrará que numa das várias crises lá acontecidas, causadas pelo comportamento do seu “Mikado”, o Sérgio “Peruano” Sinki, eu acabei expulso e tive todas as minhas postagens apagadas, como que não apenas perdi alguns textos, como também perdi uma parte da história de minha formação literária, perdi contato com muita gente que eu gostaria de ter preservado, e ainda perdi, por conta de não ter saltado cedo do barco que naufragava, o respeito de pessoas que ficaram duradouramente com uma péssima impressão de mim.

Mas tudo isso é passado. Não foi no século passado, mas foi na década passada, o que é quase a mesma coisa, nestes tempos velozes. Já não faz sentido eu supor que ainda desfrute de alguma reputação, positiva ou negativa, oriunda daqueles tempos. A não ser, possivelmente, alguma inimizade renitente que alguém cultive, sei lá por quê.

Essa constatação me deixa um tanto desorientado, um tanto inseguro. É como se eu fosse, de novo, um desconhecido na praça com meus versos e parágrafos, encontrando ouvidos moucos e olhares tortos. Tudo piorou depois que decidi abandonar o blogspot.com e vir para cá, nesse blog pessoal. Demorou muito tempo para eu ser redescoberto, para que o antigo tráfego de lá viesse para cá. Lá eu estava chegando nas 50 mil visitas, aqui eu patinei durante muito tempo.

Com tudo isso em mente, imagino agora como poderei reagir, ou me aproveitar. É uma oportunidade, mas é uma perda. Eu preferia carregar o peso de meus antigos erros, se pudesse também arrastar comigo aquele antigo reconhecimento. Até os ressentimentos que possa ter causado a outras pessoas me parecem importantes, nesta quadra da vida. Cheguei aos 41 anos, mas não cheguei a lugar nenhum ainda.

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