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Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 24 de junho de 2021

A Qualidade Não É uma Roupa

Publicado em: 21/04/2014

Alguns críticos de arte costumam detectar a decadência da arte helenístico-romana (e por conseguinte da civilização mediterrânea antiga) justamente no momento em que acontece a separação entre o a construção e o ornamento. Pois aí, a arte deixou de ser vista como uma expressão para se tornar um opcional. O pragmatismo acabou triunfando sobre a beleza, favorecendo escolhas menos estéticas para favorecer maior funcionalidade. O resultado, a longo prazo, é o fim da bela arquitetura, substituída pela arquitetura grandiosa e resistente, não necessariamente bela.

O responsável por este divórcio entre a estrutura e a beleza teria sido o concreto armado (invenção romana, para quem não sabe). Ora, sendo a decoração aplicada sobre a estrutura bruta de concreto, ela era uma preocupação posterior, menor, talvez passível de cancelamento se andasse estourado o orçamento. Possivelmente seria executada com material de pior qualidade. Certamente “removível” (e portanto substituível).

Mário Quintana, comentando sobre isso, observou que “o aspecto mais lamentável da arquitetura moderna é a durabilidade do seu material.” Uma frase venenosa pois, em razão do emprego do concreto armado, a arquitetura moderna é bem mais durável (quando bem construída) do que a antiga. Mas a durabilidade do concreto se dá ao preço da sutileza. Assim não temos mais os finos detalhes de arquiteturas passadas, mas pesadas chapas de cimento a que se tenta dar fluidez, forma ou cor.

Estas frases me vieram à cabeça hoje quando, pela centésima vez na vida, me deparei com um jovem que sonha em ser escritor, aparenta ter lido muito pouco (a julgar pela profusão de erros ortográficos de sua escrita) e que ainda tem dúvidas básicas sobre conceitos primários (tipos de narrador). Quando lhe disse que era ainda cedo para ele pensar em escrever, quase me crucificaram. Por sorte já era Páscoa, e não havia mais cruzes e pregos à disposição dos centuriões.

O primeiro comentário em defesa do garoto foi este:

“A partir do momento que você consiga manter a lógica, não existe uma restrição… Na minha opinião só existe uma regra para escritores: Coerência.”

Embora a coerência seja uma boa qualidade para um escritor, há dois comentários que gostaria de fazer a respeito desta frase. Primeiro, que duvido que um desconhecedor dos aspectos mais básicos do idioma e das técnicas narrativas seria capaz de manter a coerência e a lógica. Segundo, que muitos bons textos literários exploraram justamente a falta de coerência (surrealistas, beatnicks, etc.). É só uma opinião minha, mas eu não acho que a coerência seja mais importante do que a capacidade de encantar o leitor com uma prosa agradável.

O próprio garoto se defendeu dizendo que o “World” (sic) o ajudava com o português e que não haveria motivo para criticá-lo pelo modo como escreve no Facebook.

A primeira ideia é obtusa em si, pois o “World” sequer é um programa feito por lusófonos e por isso falha em inúmeros aspectos de sua correção, tanto na gramática quanto no reconhecimento do significado de homógrafos pelo contexto. Mas a segunda ideia é mais sutil, merece um parágrafo à parte, e justifica a menção aos romanos e ao concreto armado.

A qualidade não pode ser vista como algo separado da estrutura, a qualidade não é um aplique de gesso que você coloca sobre uma placa feia de concreto. A qualidade não é uma roupa que você veste em certas ocasiões, mas em outras não.

Sei que essa ideia de indissociabilidade não vai encontrar eco no mundo de hoje. Vivemos em um mundo feito de concreto, literal e metaforicamente. Mas também um mundo de maquiagem, roupas, cirurgias plásticas. De carros que mudam de desenho, mas não de mecânica. De gente que pensa uma coisa e diz outra. De livros que levam na capa o nome de alguém que o ditou, mas não o escreveu.

Nesse mundo, pensar a qualidade como algo que se aluga, como algo que você paga alguém para fazer, é o mais natural. Posso pagar a alguém para pegar meu maço de garranchos ou meu arquivo de cacografias batucadas e transformar isso em algo que eu ache que está bom. Mas se eu não tenho suficiente cultura e qualidade, como posso avaliar a qualidade daquilo que pago a alguém para fazer por mim?

Não se pode delegar a terceiros a qualidade. Fazer isso é como delegar o prazer de sua namorada a um Ricardão. Ou como pensar em ganhar uma corrida de motocicletas apenas tendo aprendido a pedalar um velotrol. Qualidade é algo que você deve ter, ou não será capaz de reconhecer. Pagará para que lhe forneçam, mas a sua ignorância não o ajudará na escolha de quem seja competente. Então você pagará quem lhe agrade, mas o seu gosto tosco o orientará a escolher o que também é tosco, pobre e ruim. O revisor pegará o seu dinheiro e lhe dará o livro que você quer, mas você não terá o que sonhou. Porque a qualidade não é algo evidente, a qualidade pode ser um detalhe mínimo:

Por exemplo… se eu escrevo errado, não quer dizer que eu não saiba manter a coerência… só quer dizer que não me detenho em detalhes…

A literatura é feita de detalhes. A grosso modo, qualquer capiau consegue contar uma história. Junte uma dezena de pessoas em torno de uma fogueira de acampamento e sairão dez histórias divertidas. Mas uma delas será a melhor, tirará o sono dos presentes, será levada de lembrança por eles por uma vida inteira. Essa é a história que tem os melhores detalhes. É aquela história que fala de um tipo específico de pio de pássaro, de um modo peculiar com que o vento sopra, de um estalo diferente no tronco de uma árvore. Então sopra o vento, pia um pássaro, estala um galho e a história ganha vida. E pela vida inteira, nem vento, nem pássaro e nem galho deixarão de evocar aquela fogueira.

Então, queridos, não permitam que a qualidade deixe de ser parte de sua essência e se transforme em algo passível de comprar ou alugar externamente. Porque quando ela se torna um pensamento posterior, ela também se torna algo opcional.

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