Letras Elétricas
Textões e ficções sem compromisso
by J. G. Gouvêa Atualizado em 28 de maio de 2021

Como um Editor de Textos Poderia Destruir a Civilização

Publicado em: 26/05/2021

Comentário sobre um artigo em que o programador Morten Just reage à acusação de que o editor de textos “Textato”, então ainda chamado “Cleartext”, poderia destruir a civilização. Just havia escrito o “Cleartext” com a premissa de tornar impossível a escrita de textos excessivamente verbosos, já que o editor apagaria quaisquer palavras mais longas que um determinado tamanho, forçaria a abreviação de frases longas e recusaria pontuação muito complicada. A ideia era produzir textos que uma pessoa sem muita cultura pudesse ler, baseado em uma famosa frase de Einstein segundo a qual não sabemos de verdade aquilo que não saibamos explicar a uma criança de seis anos.

Este texto foi originalmente escrito em inglês e postado no Medium.com, onde ainda está disponível, sob o título “Controversy is a Sign of Our Times”.

Controvérsia é um marca de nossos tempos. Gente demais sabe em demasiado detalhe assuntos muitos específicos e gente demais sabe pouco do básico. Quero dizer: conceitos como o duplipensar de Orwell e a manufatura do consenso de Chomsky são amplamente conhecidos ao ponde de provocar reflexões a respeito, mas a regra é que as mesmas pessoas que sabem a respeito desses conceitos não conseguem efetivamente alcançar seus significados e suas implicações. Por outro lado, gente demais sabe muito pouco (até de vocabulário) a ponto de isso lhes atrapalhar na compreensão de um texto complexo. Assim se estende a controvérsia.

Há pouco tempo li um artigo sobre a percentagem de alemães funcionalmente analfabetos (ou analfabetos de fato). Os números são da ordem de 14% da população adulta, excluídos imigrantes. Esse é um dado muito significativo para um país desenvolvido como a Alemanha, mas eu suspeito que em outros países do dito ‘primeiro mundo’ será ainda maior (nem vou mencionar o Brasil, porque seria ridiculamente desnecessário para provar meu ponto).

Além dos funcionalmente analfabetos, há muitas pessoas que são mal alfabetizadas, que sabem ler e escrever mas não praticam muito. Extrapolando os números de meu país, esse tipo de analfabetismo é pelo menos duas vezes mais prevalente que a plena alfabetização. Isto quer dizer que essa parte do público é, de fato, a maioria dos eleitores em uma democracia e a maior parte dos leitores em qualquer mercado. O indivíduo que realmente lê sem ser a isso obrigado é uma exceção. Para a maioria, a leitura é “instrumental”: leem porque precisam e leem o que precisam. Nenhuma página a mais.

Isto não é novo, nem significa uma “decadência” da humanidade. Se tivéssemos dados das últimas dezenas de décadas, poderíamos comprovar que esses números estão, bem provavelmente, caindo em vez de aumentar; porque hoje há muito mais acesso a escolas (e livros) do que antes. No entanto, o grupo dos “não-leitores” nunca será uma pequena minoria porque não podemos forçar a todos gostos idênticos. Os indivíduos naturalmente têm preferências diferentes: alguns gostam de números, outros de palavras; alguns dançam, outros não; alguns malham, outros “jiboiam”; alguns preferem homens, outros mulheres. A variedade é parte da essência humana e é o que faz do mundo um lugar colorido e belo.

O que realmente mudou é que, no passado, viver era muito mais fácil para esses “não leitores”. Não havia pressão para ler ou escrever, era possível passar toda uma vida sem escrever mais que uma página de recados ou ler mais que uma carta. Era factível escrever somente listas de compras, ler umas manchetes de jornal redigir somente memorandos profissionais — estes de vez em qando. Ninguém se importava. Agora, no entanto, somos forçados a ler e escrever em situações nas quais um homem do passado nao precisava. Falamos de correio eletrônicos, mensagens de texto, instruções de uso de equipamentos etc. E-mail e SMS substituíram a conversa na maioria dos contextos, a tal ponto que a palavra “conversação” é muitas vezes usada no sentido de uma troca de mensagens escritas utilizando um aparelho telefônico móvel.

No contexto atual, o drama do “não leitor” se torna visível. Para ele, muito do conteúdo da internet; websites, imprensa, e-mail, redes sociais etc.; soa terrivelmente raso e distante. Ele não gosta de ler um texto grande e descobrir que não pôde entender nada porque havia muitas palavras grandes e estruturas gramaticais complicadas de decifrar.

Não podemos rebaixar toda a internet para benefício dos “não leitores”, mas, considerando que eles devem ser a maioria dos eleitores em uma democracia e a maioria dos formadores de consenso em um mercado, deveríamos tentar com eles alguma forma de comunicação. Aprendemos línguas estrangeiras para comuicarmo-nos com outras pessoas. Escrever um texto mais fácil de entender por um “não leitor” talvez não seja um “abaixamento” de nível, mas um exercício de empatia.

Calculadoras de bolso não acabaram com o mundo, mas o tornaram mais fácil para pessoas que achavam matemática difícil. Elas empoderaram os que não sabiam fazer contas e economizaram-lhes muito troco em transações comerciais. Então, o seu aplicativo não destruirá o mundo tampouco. Ele é pouco mais que uma espécie de “calculadora de bolso” para aqueles que não sabem fazer direito suas conexões verbais. Não acabará com o mundo, mas o abrirá para os “não leitores”.

Talvez os leitores estejam preocupados com a possibilidade de se criar uma divisão entre leitores e “não leitores”, na qual o controle da informação e seu fluxo poderia resultar em notícias enviesadas, produzidas conforme cada grupo social. com base no que cada grupo lê ou escuta. Tal preocupação, no entanto, já é uma coisa obsoleta, porque essa indesejável situação já existe. Os não leitores recebem sua informação de fontes faladas (rádio e televisão, por exemplo) ou de fontes que já buscam trabalhar com textos mínimos e simples (jornais tabloides e websites de conteúdo simples). Os não leitores já são amarrados aos limites que lhes são impostos pelos donos e controladores das fontes.

O que este aplicativo pode causar é que os espertos; que têm grandes ideias, mas nem sempre têm a capacidade de explicá-las; serão capazes de também produzir tais conteúdos, que um leitor desenvolvido mal lerá pela simplicidade. O conceito pode ser facilmente explicado partindo do exemplo da substituição linguística que tem sido implementado por alguns sites. Versões diferentes são feitas a partir de uma fonte só, em vez de segregar os não leitores nas páginas de jornais baratos.

No fim de contas, há muito mais possibilidades e nenhuma delas envolve o fim do mundo. Claro que, como Morten disse, seria uma violência obrigar todos a usar o aplicativo. É possível que alguns se sentirão impelidos a usá-lo. Entre os escritores, por exemplo. Se você apenas quer vender livros (ou salsichas), por que vender a 16% da população, se vocẽ pode censurar cenas e atenuar seu vocabulário e se aproximar, assim, dos 50%. Nada disso é novo, a não ser o método. Existe já esta divisão entre os autores que escrevem para os “cabeça” e autores que escrevem para Homer Simpson.

O mundo não acabará por causa de um editor de textos, e se tiver que acabar por isso, creio que será o Microsoft Word ou o Emacs.

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